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Nossas crianças estão tristes
Há aproximadamente 15 dias tenho percebido que, de um modo geral, a tristeza aumentou: muitas pessoas, inclusive, crianças estão tristes.
Como psicóloga de adultos percebo isso nos meus pacientes. Alguns daqueles que vinham bem até agora, que conseguiram se manter funcionais e se adaptaram às novas regras do jogo da vida, começaram a demonstrar sinais de exaustão.
Como psicóloga infantil tenho recebido cada vez mais pais preocupados com os filhos. Pais aflitos que me relatam: “Nem parece a mesma criança”. “Não vejo ele vibrar com as coisas como antes”. “Não tem mais a mesma energia”. “Chora por tudo”. “Tem se isolado”. “Fica grudado em mim o tempo todo” Olho para ele e vejo uma criança triste”.
Como mãe de uma garotinha de 4 anos também percebo mais tristeza, desinteresse, desânimo. Hoje tenho em casa uma menininha mais carente, mais apegada, que pede mais colo.
A tristeza faz isso com a gente. Ficamos mais silenciosos, mais quietos, criamos um mundinho só nosso, mas também buscamos colo, vínculo seguro, amparo. Uma criança triste acaba transformando aquela vida colorida e vibrante em um filme em preto e branco.
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Como mãe, meu coração dói! Questiono que vida é essa; aperto os olhos para tentar enxergar lá longe uma data para o fim desse isolamento.
Como mãe, meu primeiro instinto é não querer que minha filha sofra ou seja uma criança triste. Minha real vontade, se eu pudesse, é tirar a tristeza dela e colocar em mim.
Nesse momento me seguro firme no meu lado psicóloga! Esse lado me ajuda a ver com mais clareza e entender não só o que acontece dentro dela, mas também me ajuda a saber como agir.
É isso que eu quero dividir com você hoje.
Sei que as crianças têm sentido mais as emoções nesse tempo. Sei que perder o mundinho que era tão familiar gera muitas emoções desagradáveis de sentir. Elas sentem medo, tristeza, raiva, saudade.
Mas, de todas essas emoções, vejo que a saudade é a emoção que elas mais falam.
Elas sentem saudades da escola, dos amigos, de brincar nos lugares que conhecem, de ver os avós, primos e todas as pessoas que são importantes e faziam parte da vida delas. Sentem saudade de poder ir ali na esquina tomar um sorvete, de ir à casa do amigo, de frequentar ambientes que estavam acostumados. Sentem saudade de dar abraços, de correr junto com o colega e até de voltar para casa com um joelho ralado depois de uma tarde inteira brincando com os amigos.
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Se você tem uma criança em casa, provavelmente escuta a palavra saudade várias vezes ao dia.
Mas talvez você não saiba que saudade é uma emoção secundária, ou seja, ela vem de uma combinação de emoções.
Para formar a saudade precisamos sentir duas emoções ao mesmo tempo: amor e tristeza.
É assim que a saudade nasce. Amamos muito algo ou alguém e não podemos tê-los nesse momento, então nos sentimos tristes.
Seu filho sente saudades dos amigos, da escola, dos avós, dos vizinhos pois tem amor por eles e tem uma tristeza por não poder estar com cada um deles agora.
Quando sua criança diz que está com saudade da vida que ela tinha, na verdade está dizendo que amava aquela vida e que é muito triste perdê-la.
Por isso a tristeza está aumentando. As crianças estão sentindo cada dia mais saudade.
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E como você pode agir quando seu filho lhe disser que está com saudade?
Primeiro acolha a emoção! Diga que entende como ele se sente. Dê exemplos de pessoas ou coisas que você também sente saudade. Depois explique como a saudade acontece. Esclareça que é normal sentir saudade de tudo que amamos e não podemos ver ou fazer nesse momento e por isso ficamos tristes.
Por último pergunte a ele se existe algo que ele ou vocês possam fazer quando a saudade aparecer. Isso vai ampliar as opções dele para lidar com a emoção. Pode ser ficar abraçados e sentirem a saudade bem juntinhos, ou cantar uma música, ou chorar, ou fazer um desenho, ou ler uma história, ou ligar para alguém.
É importante a criança entender que está tudo bem em se sentir assim, mas além disso, precisamos ampliar esse repertório de manejo da emoção.
Quanto mais nova for a criança, mas ela precisará da nossa ajuda para esse manejo, mas quando auxiliamos a aumentar esse repertório ela vai aprendendo e se tornando cada vez mais autônoma.
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Patricia Nolêto
Patrícia Nolêto de Campos, é mãe da Clara, 5 anos. Psicóloga, palestrante, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, trabalha há mais de 19 anos com psicologia clínica com atendimento a adultos crianças, adolescentes e pais. Desenvolveu workshop de Treinamento de pais e Treinamento de Educadores e ferramentas terapêuticas que facilitam a regulação emocional das crianças. Saiba mais em http://www.patnoleto.com.br
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