Bets: mães apostam cerca de 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos

Entre as mães, o jogo aparece não com a expectativa de acumular dinheiro, mas como uma tentativa de complementar a renda da família

 

 

Imagine uma pessoa viciada em bets. Qual o estereótipo mais comum? Homens, jovens, idosos? Em geral, é difícil imaginar uma mãe de família como vítima das apostas. Mas uma pesquisa recente mostrou que, sim, este é um dos grupos mais impactados pelos jogos de azar. No caso da maioria delas, não é por diversão, pela ilusão de riqueza ou por gostar mesmo de acompanhar jogos. Segundo o levantamento, elas entram nas jogadas com a esperança de conseguir um dinheiro extra para pagar as contas, comprar comida ou satisfazer as necessidades dos filhos.

De acordo com a pesquisa “Mulheres e Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias”, conduzida pelo estúdio Clarice em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, as mulheres com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que as mulheres sem filhos. Entre as apostadoras, 72% têm filhos.

Quatro em cada dez mulheres já apostaram

O levantamento mostra que 42% das mulheres brasileiras já apostaram ou continuam apostando em plataformas online. Desse total, 20% ainda apostam, com frequências variadas, enquanto 22% já apostaram, mas deixaram de jogar.

O impacto, porém, não fica restrito a quem coloca dinheiro nas plataformas. Entre as 58% que afirmam nunca ter apostado, 12% dizem ser afetadas por parentes ou amigos que apostam. Somados os dois grupos, 54% das mulheres brasileiras têm algum tipo de contato direto com os impactos das bets.

Para algumas mães, a aposta tem sido encarada como uma maneira de conseguir aumentar renda. Entre as motivações apontadas no estudo aparecem situações como pagar boletos, comprar alimentos ou adquirir itens para os filhos. Perigosamente, a aposta passa a ser vista como uma estratégia financeira, quando, na realidade, não oferece garantia de retorno. Pelo contrário: as chances de perdas são muito maiores.

A tentativa de recuperar o dinheiro perdido também pode alimentar um ciclo difícil de interromper. A pessoa aposta para ganhar, perde, aposta novamente para recuperar o que perdeu e, aos poucos, acaba compromentendo uma parcela cada vez maior do orçamento.

Mais julgadas

A pesquisa identificou ainda uma diferença importante na maneira como homens e mulheres que apostam são percebidos socialmente. Para os homens, ter filhos pode atenuar o julgamento sobre a prática. Já para as mulheres, acontece o contrário: as mães que apostam são mais cobradas e questionadas em relação ao papel de provedoras e responsáveis pela administração da casa.

Segundo a cientista social Beatriz Della Costa, fundadora e diretora do estúdio Clarice, essa diferença está relacionada aos papéis sociais tradicionalmente atribuídos a homens e mulheres. O homem que aposta pode ser interpretado como alguém tentando sustentar a família, enquanto a mulher é mais duramente cobrada quando sua relação com o dinheiro entra em conflito com a expectativa de que seja a principal responsável pelo cuidado e pela organização do lar.

Falar da relação entre mães e bets é espinhoso, porque tendemos a reduzir o problema a uma questão de falta de responsabilidade individual, quando, na verdade, há questões financeiras, sociais e emocionais envolvidas. É muito mais complexo do que pode parecer.

Hábito secreto

Como as mulheres são mais julgadas, a maioria faz de tudo para esconder o hábito. De acordo com o estudo, 30% das que apostam afirmam que costumam jogar mais à noite ou de madrugada, percentual superior ao registrado entre os homens, de 20%.

Esta é mais uma camada do problema, já que ocultar as apostas da família pode aumentar ainda mais o problema. Segundo o levantamento, 15% dos brasileiros acreditam que alguém que mora com eles faz apostas online sem contar a ninguém e acumula dívidas escondidas.

Quando o dinheiro da casa começa a ser direcionado para as plataformas sem que os demais familiares saibam, o impacto pode aparecer em forma de falta de dinheiro para despesas básicas, conflitos, mentiras e perda de confiança.

Quando é hora de pedir ajuda?

Nem todo mundo que aposta desenvolve um transtorno relacionado ao jogo. Mas alguns sinais indicam que a relação com as bets deixou de ser apenas uma forma de entretenimento. É importante observar, por exemplo, se a pessoa:

  • aumenta progressivamente o valor ou a frequência das apostas;
  • tenta esconder da família quanto está apostando ou quanto perdeu;
  • usa dinheiro destinado a contas, alimentação ou despesas dos filhos;
  • pega dinheiro emprestado para continuar jogando;
  • sente necessidade de apostar novamente para recuperar perdas;
  • fica irritada ou angustiada quando tenta parar;
  • deixa de realizar atividades ou cumprir responsabilidades por causa das apostas.

Nesses casos, procurar ajuda profissional é importante. Quanto mais cedo a situação for reconhecida, maiores são as possibilidades de interromper o ciclo antes que ele provoque consequências financeiras e familiares mais graves. Hoje, o governo disponibiliza pelo SUS uma linha de específica de atendimento e acolhimento para vício em apostas. O serviço pode ser acessado presencialmente ou pelo aplicativo Meu SUS Digital.

Um dos principais achados da pesquisa é justamente mostrar que as bets não atingem apenas quem joga. Uma mãe pode nunca ter feito uma aposta e, ainda assim, sofrer as consequências porque o companheiro, outro familiar ou alguém próximo aposta e compromete o orçamento. Por isso, falar sobre apostas dentro das famílias também significa falar sobre dinheiro, saúde emocional, confiança e cuidado.

Para as mães, que muitas vezes já carregam uma grande responsabilidade pela organização financeira e pelo cuidado dos filhos, a promessa de dinheiro rápido pode parecer especialmente sedutora em momentos de aperto. Mas as perdas podem acabar atingindo justamente aquilo que a pessoa tentava proteger: o orçamento e o bem-estar da família.

A pesquisa “Mulheres e Bets” combinou uma etapa qualitativa, com 60 pessoas, principalmente mulheres de 18 a 58 anos das classes C, D e E, e uma pesquisa quantitativa nacional com 2.008 homens e mulheres. O levantamento foi realizado em 2026.

Renata Menezes

É jornalista, entusiasta da maternidade e vive a intensidade (e as descobertas!) de ser mãe de um adolescente! Quando não está escrevendo aqui na Canguru News ou viajando com a família, você a encontrará nas quadras, recarregando as energias com suas amigas no time de handebol Master EG. Para ela, a maternidade é uma viagem constante — e ela adora compartilhar cada parada desse roteiro com nossas leitoras

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