“Confissões de Adolescente” está de volta (e pode ser uma oportunidade de conexão entre mães e filhas)

Novo lançamento do livro e musical que estreia em outubro convidam uma geração de mães a revisitar a própria adolescência — e a criar pontes com os filhos que vivem essa fase hoje

 

Se você, assim como eu, cresceu nos anos 1990, provavelmente vai se lembrar da série Confissões de Adolescente. Exibida pela TV Cultura, era revolucionária e, ao mesmo tempo, trazia conforto e identificação, por meio da história de quatro irmãs adolescentes, criadas pelo pai. Tocava com sensibilidade e naturalidade em temas tabu, como o primeiro beijo, as descobertas, conflitos com os pais, dúvidas, sexualidade e até aborto.

Maria Mariana, autora dos diários que se transformaram na série e também em livro e uma super bem-sucedida peça de teatro, está de volta, agora aos 53 anos, com o relançamento do livro que deu origem à peça e à série. Em outubro, também estreia um musical no Teatro Tom Jobim, no Rio de Janeiro, com Laura de Oliveira, 24, filha de Maria Mariana, no elenco. A ideia é justamente colocar duas gerações em contato: quem viveu a adolescência nos anos 1990 e quem está vivendo essa fase agora, em um mundo completamente conectado.

Quem foi adolescente na época vive a nostalgia e a possibilidade de resgatar a adolescente que foi. E quem tem filhos adolescentes hoje poderá viver essa conexão com eles. Em entrevista à revista Tpm, Maria Mariana resumiu esse vínculo com o público. “Fãs de Confissões me tratam como uma amiga que cresceu com elas, porque não era nada inventado: era o meu diário e muito da vida das atrizes”, lembra.

As adolescentes que assistiam à série e leram o livro cresceram, tornaram-se adultas, muitas se tornaram mães. Agora, podem apresentar Confissões de Adolescente aos próprios filhos. Embora o mundo tenha mudado completamente ao longo de todos esses anos, algumas emoções desta fase continuam, como a vontade de pertencer, a vergonha, o medo da não aceitação, a descoberta do próprio corpo, as primeiras paixões, a necessidade de se afastar dos pais e, ao mesmo tempo, ainda precisar deles. “Existe algum lugar na adolescência onde todos estão juntos”, afirmou a autora, na entrevista. Para ela, apesar das diferenças entre os anos 1990 e a atualidade, há algo de permanente nessa fase de transição entre a infância e a vida adulta.

E essa pode ser justamente uma forma de construir uma ponte entre os pais e os filhos adolescentes: não tentando viver a adolescência dele por ele, mas lembrando como era estar naquela posição de tantas descobertas, dúvidas, medos, intensidade.

A própria Maria Mariana, mãe de quatro filhos, diz que tem sido muito rico esse reencontro com ela mesma, de 19 anos. “Tenho aprendido muito com ela e sinto que isso acontece com os fãs de Confissões. Eles me recebem como se encontrassem uma amiga querida da adolescência, uma pessoa que cresceu junto com eles”, disse.  “Esse resgate da própria adolescente está sendo muito importante para eu lembrar da força de viver, da coragem, dos sonhos, lembrar da essência”, acrescenta.

A maternidade pode ocupar tanto espaço que, às vezes, esquecemos de quem éramos antes dela. A gente simplesmente esquece de que antes de sermos “mãe de alguém”, éramos simplesmente “alguém”. Alguém com sonhos, medos, paixões, inseguranças, músicas favoritas, amizades inseparáveis, planos para o futuro.

Será que essa versão de você está guardada em algum lugar? E será que reencontrá-la pode ajudar a olhar para os nossos filhos com mais empatia?

Maria Mariana explicou à Tpm que a nova adaptação parte de uma mãe e uma filha que voltam no tempo e convivem com a versão adolescente da mãe. “A proposta é eles se encontrarem no mesmo lugar, olharem para o mesmo horizonte, apesar de estarem em mundos totalmente diferentes”, afirma.

Acho que esta é uma imagem muito bonita para a maternidade que experimentamos hoje: a gente não precisa estar no mesmo mundo que nossos filhos para caminhar ao lado deles. Talvez nossos filhos também precisem conhecer quem fomos Uma das possibilidades mais interessantes desse reencontro é inverter a lógica. Em geral. queremos conhecer os adolescentes, saber o que pensam, o que sentem, quem são seus amigos, o que fazem na internet, do que gostam. Mas você já tentou contar para eles quem você foi?

Não para ficar repetindo a ladainha de “na minha época era assim ou assado…”. Mas para dizer: “Eu também já passei por coisas que pareciam enormes quando tinha a sua idade”.

Maria Mariana conta que fez questão de construir esse tipo de abertura com os próprios filhos. “Mostrei as minhas fragilidades e dificuldades da adolescência. Claro que a mãe tem um lugar de autoridade, não dá para ser totalmente amiga. Mas sempre conto minhas experiências e ouço muito elas”, relatou.

Para ela, essa abertura ajuda os filhos a procurarem a mãe quando estão diante de uma dificuldade. “Elas podem falar o que quiserem comigo. Quando você tem essa abertura, é muito mais fácil orientar, do que chegar com uma doutrina”, afirma. E faz sentido.

Para as mães que cresceram nos anos 1990, o novo Confissões de Adolescente pode ser mais do que uma nova edição de um livro ou um musical. Pode ser uma viagem no tempo, uma oportunidade de lembrar de quem fomos e de resgatar histórias que fizeram parte da nossa formação. Também pode ser um estímulo para que a gente olhe para os adolescentes que temos em casa com um pouco menos de julgamento e mais admiração.

Talvez aquela menina dos anos 1990 ainda tenha algo a ensinar para a mãe que somos hoje.

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