“Mãe, você está careca?”: pergunta do filho inspirou livro de dentista que enfrentou câncer de mama aos 30 anos

No Outubro Rosa, Jessica Arcanjo relembra o diagnóstico, os desafios de conciliar o tratamento com a maternidade e como aprendeu que não precisava ser uma mãe invencível

Em setembro de 2024, uma dor na mama esquerda levou a cirurgiã-dentista e empresária Jessica Arcanjo a tocar a região e perceber um nódulo. Aos 30 anos, ela não imaginava que aquele sinal viraria sua vida de cabeça para baixo. Mãe de Taylor, que, na época, tinha 5 anos, ela precisou reorganizar a rotina diante de um diagnóstico de câncer de mama triplo-negativo.

O tratamento incluiu 16 sessões de quimioterapia, 18 aplicações de imunoterapia, cirurgia para retirada da mama esquerda e dos linfonodos da axila, além de 15 sessões de radioterapia. Enquanto lidava com o cansaço e as mudanças no próprio corpo, Jessica também tentava entender como conversar com o filho sobre o que estava acontecendo.

A experiência deu origem ao livro autobiográfico Mãe, você está careca? (Editora OBPC). O título reproduz a pergunta que Taylor fez ao encontrar a mãe sem a peruca durante o tratamento. A preocupação com o filho veio acompanhada do medo de não acompanhar as etapas da infância que imaginava viver ao lado dele. “Receber um diagnóstico de câncer aos 30 anos é algo que nenhuma mulher está preparada para ouvir. Naquele momento, todos os meus papéis perderam a importância diante de um só: o de mãe”, conta, em entrevista exclusiva ao Canguru News.

Durante os meses de tratamento, ela precisou lidar com o cansaço físico, as mudanças na aparência e a necessidade de reduzir o ritmo. Acostumada a administrar a clínica e resolver problemas, teve de aceitar que nem sempre conseguiria manter a rotina de antes. “Existiam dias em que o meu corpo estava completamente esgotado, mas a maternidade continuava acontecendo. O Taylor continuava precisando da mãe dele”, relata.

“O maior desafio foi aceitar que eu não conseguiria fazer tudo como antes. Eu sempre fui uma mulher muito ativa, acostumada a resolver problemas, administrar empresas e cuidar da família. Durante o tratamento, precisei aprender que estar presente não significava necessariamente estar fazendo alguma coisa. Às vezes, estar perto, ouvir e compartilhar um momento simples já era suficiente”, conta.

“Mãe, você está careca?”

No início, Jessica tentava preservar a rotina do filho e evitar que ele a visse fragilizada. Com a queda dos cabelos provocada pela quimioterapia, passou a usar peruca e procurava manter algumas características da aparência que Taylor conhecia. Até que, em um domingo de dezembro, o menino entrou no quarto e encontrou a mãe sem a peruca. A pergunta veio de maneira espontânea e acabou dando nome ao livro.

“Com toda a inocência que só uma criança tem, perguntou: ‘Mãe, você está careca?’”, conta Jessica. O episódio a fez perceber que esconder todas as mudanças não seria possível — nem necessariamente a melhor maneira de proteger o filho. “Aquela pergunta me fez entender que o Taylor não precisava de uma mãe que fingisse que nada estava acontecendo. Ele precisava de uma mãe que continuasse oferecendo amor e segurança, mesmo diante das mudanças”, afirma.

A experiência também modificou a forma como Jessica enxergava a própria vulnerabilidade. Para ela, permitir que o filho percebesse que algo estava diferente não significava transferir a ele o peso da doença, mas reconhecer a realidade sem deixar de oferecer acolhimento.

A pressão para ser forte o tempo inteiro

A história de Jessica também toca em uma expectativa que acompanha muitas mulheres: a de que a mãe precisa continuar cuidando de todos, mesmo quando é ela quem precisa de ajuda. Durante o tratamento, a cirurgiã-dentista teve de aceitar limitações e receber cuidados. A mudança não foi simples para alguém acostumada a assumir responsabilidades e encontrar soluções para os problemas da família e do trabalho.

“Durante muito tempo, acreditei que ser forte significava suportar tudo. Como mãe e empresária, sempre fui acostumada a assumir responsabilidades e encontrar soluções. Mas o câncer me colocou diante de situações que eu não conseguia controlar. Precisei aprender a receber cuidado, aceitar minhas limitações e compreender que demonstrar fragilidade não me tornava menos forte”, diz.

A mudança de perspectiva também alcançou os momentos cotidianos com o filho. Abraços, conversas e períodos passados juntos ganharam outro significado diante da incerteza e do cansaço. “Hoje compreendo que uma mãe não precisa ser uma guerreira o tempo inteiro. Nossos filhos não precisam de mães invencíveis. Precisam de mães presentes, amorosas e verdadeiras”, afirma.

O que ela quer dizer a outras mulheres no Outubro Rosa

Jessica conta que, após a cirurgia, a análise do tecido retirado não identificou células tumorais residuais. Ela segue em acompanhamento médico, necessário depois do tratamento oncológico.

A experiência também a levou a escrever sobre o que viveu e a criar o Projeto Luz na Jornada, iniciativa voltada ao acolhimento de pacientes em tratamento contra o câncer. Entre as ações está a oferta de laserterapia oral para ajudar na prevenção e no alívio da mucosite oral, uma inflamação dolorosa que pode ocorrer como efeito colateral de tratamentos oncológicos.

Com o livro, Jessica pretende alcançar especialmente mulheres que recebem um diagnóstico enquanto cuidam dos filhos. A intenção é oferecer acolhimento a quem enfrenta o medo e precisa reorganizar a vida em meio ao tratamento. “Eu gostaria que cada mulher que abrisse esse livro, especialmente uma mãe que esteja enfrentando o câncer, encontrasse acolhimento. Que ela percebesse que não está sozinha. Que é possível ter medo e continuar acreditando”, diz.

A história também reforça uma orientação importante durante o Outubro Rosa: alterações nas mamas precisam ser avaliadas por um profissional de saúde, mesmo quando surgem antes da idade habitual para a mamografia de rastreamento. No caso de Jessica, a percepção de um nódulo levou à investigação que identificou a doença. Ela espera que compartilhar a experiência ajude outras mulheres a não adiar a procura por atendimento. “Não ignorem os sinais do seu corpo”, afirma. “Se perceber um nódulo ou qualquer alteração nas mamas, procure avaliação médica”, sugere.

Para ela, o período vivido trouxe uma nova compreensão sobre o que deseja construir e acompanhar ao lado do filho. “Aprendi que sucesso não é apenas construir empresas, alcançar reconhecimento profissional ou realizar grandes projetos. Sucesso também é ter saúde para acordar e abraçar o meu filho. É sentar à mesa com minha família. É acompanhar o crescimento do Taylor”, completa.

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