Saúde do pai antes da gravidez pode influenciar o desenvolvimento do bebê, aponta estudo da USP

Obesidade, tabagismo, álcool, exposição a toxinas e idade paterna podem alterar características dos espermatozoides. Pesquisadores defendem que a saúde do homem também seja considerada antes da concepção e de tratamentos de reprodução assistida

Quando um casal decide ter um filho, é comum que as primeiras preocupações se concentrem na mulher. Ácido fólico, consultas, exames, alimentação, vacinas… O outro lado da história, que é a saúde do pai, muitas vezes, nem é abordado ou avaliado.

Agora, uma revisão científica liderada por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) mostra que fatores como obesidade, tabagismo, consumo de álcool, exposição a substâncias tóxicas e idade paterna podem estar relacionados a alterações nos espermatozoides e que, por isso, é importante, sim, avaliar também as condições paternas.

Publicado na revista científica Epigenomics, o trabalho reúne resultados de diferentes estudos sobre a formação dos espermatozoides, a fertilidade masculina e os primeiros momentos do desenvolvimento do embrião. A revisão foi liderada pelo professor Jorge Hallak, da FM-USP, e contou com pesquisadores brasileiros e australianos.

O que acontece com os espermatozoides?

Antes de entender a descoberta, vale explicar uma palavra que aparece bastante no estudo: epigenética. De forma simplificada, são mecanismos que ajudam a determinar quais genes serão ativados ou desativados. Eles não mudam a sequência do DNA, mas podem alterar a maneira como as informações contidas nele são utilizadas pelo organismo.

Durante a produção dos espermatozoides, ocorrem mudanças importantes nesse sistema. Segundo a revisão, fatores como obesidade, varicocele, idade paterna avançada e exposição a toxinas estão associados a alterações na chamada metilação do DNA, na organização do material genético e em pequenas moléculas de RNA presentes nos espermatozoides.

Essas alterações chamam atenção porque os espermatozoides participam dos primeiros momentos da formação do embrião.

Mas calma: isso não significa que um homem que fuma, bebe ou está acima do peso necessariamente terá um filho com algum problema. A ciência ainda está tentando entender quais dessas alterações realmente interferem na gravidez ou no desenvolvimento da criança e em que medida. O que os pesquisadores defendem é que a saúde do homem antes da concepção merece mais atenção.

E o que isso tem a ver com fertilização assistida?

A discussão ganha outra dimensão quando o casal precisa recorrer a técnicas de reprodução assistida. Uma delas é a injeção intracitoplasmática de espermatozoides, conhecida como ICSI. Nesse procedimento, um único espermatozoide é escolhido e colocado diretamente dentro do óvulo.

A revisão levanta a possibilidade de que, ao contornar algumas das etapas naturais da fecundação, a técnica permita que um espermatozoide com determinadas alterações genéticas ou epigenéticas participe da formação do embrião.

Isso, porém, é uma hipótese que ainda precisa ser estudada. O trabalho não afirma que a ICSI cause problemas de saúde nos bebês e não coloca em dúvida a importância da reprodução assistida, que é fundamental para muitos casais que enfrentam infertilidade.

Os pesquisadores também discutem etapas realizadas no laboratório, como a seleção e o congelamento dos espermatozoides e o cultivo dos embriões. Esses processos acontecem em fases delicadas do desenvolvimento, quando mudanças epigenéticas são particularmente importantes. Ainda assim, não há base para afirmar que esses procedimentos, por si só, provoquem problemas nas crianças.

Por que olhar para a saúde do homem antes do tratamento?

Para os pesquisadores, uma das principais mensagens do trabalho é que investigar a infertilidade masculina não deveria ser apenas uma etapa depois que outras possibilidades já foram descartadas.

Varicocele, alterações hormonais, infecções e outros problemas de saúde podem afetar a fertilidade masculina e, em alguns casos, têm tratamento. Por isso, avaliar o homem desde o início pode ajudar a identificar causas da dificuldade para engravidar e definir o caminho mais adequado.

O estilo de vida também entra nessa conta. Alimentação equilibrada, atividade física, controle do peso, redução do consumo de álcool, parar de fumar e diminuir a exposição a substâncias tóxicas são medidas importantes para a saúde geral e podem favorecer a qualidade dos espermatozoides.

O pai não precisa levar uma vida “perfeita” antes de tentar ter um filho e um hábito isolado também não determina o futuro de uma criança. Porém, é importante lembrar que quando um casal decide engravidar, a saúde reprodutiva não é responsabilidade apenas da mulher.

Assim como ela pode fazer uma avaliação antes da gravidez, o homem também pode conversar com um médico sobre sua saúde, seus hábitos e seu histórico. Quando existe dificuldade para engravidar, investigar os dois parceiros desde o começo pode evitar que a responsabilidade recaia automaticamente sobre a mulher.

A preparação para ter um filho pode ser também uma oportunidade para o futuro pai olhar para a própria saúde — não em busca de uma garantia de que tudo dará certo, mas para cuidar melhor de si e participar de forma mais completa da construção dessa nova família.

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