Ensinar tecnologia sem contexto é o mesmo que alfabetizar sem letrar

É preciso saber se a abordagem pedagógica aplicada em sua filha(o) possui a intenção clara de instrumentalizá-la (o) para pensar e criar tecnologia criticamente

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Nenhuma plataforma digital, por melhor uqe seja, substitui o trabalho docente, afirma a educadora digital Luciana Correa; imagem mostra duas crianças mexendo em brinquedo de madeira e com telas abertas de seus computadores na mesa
Plataformas digitais também exigem a intermediação de um educador, do contrário, não funcionam

Descobrir a existência de plataformas digitais que se propõem a ensinar linguagem de programação e robótica deixa-me feliz e preocupada. Feliz pois vejo a chance de democratização da tecnologia digital por meio da na Educação Básica. Preocupada, porque acredito que somente escalonar o ensino da linguagem de programação e robótica, enquanto uma disciplina desconectada das outras e sem uma formação sólida das professoras (es) [ver comentário no fim do texto] envolvidas (os), pode levar a uma abordagem superficial da tecnologia.

Também fico preocupada com o aumento potencial de tempo de exposição à tela do computador. A Pandemia intensificou muito esse problema e ainda não temos tempo hábil para saber os reais danos à saúde das (os) pequenas(os) causados pela superexposição às telas digitais. Existem alternativas analógicas de ensino de linguagem de programação e robôs programáveis com cartão de papel. Muitos argumentariam que esses materiais exigem a intermediação de um adulto, mais precisamente de uma (um) educadora(or). A plataforma digital também. 

A programação está inserida em uma cultura numérica que permeia a vida cotidiana, pessoal, social e profissional das pessoas.

Acredito, assim como Annette Vee, pesquisadora da Universidade de Pittsburgh (EUA) na área de computação e escrita, que a programação está inserida em uma cultura numérica que permeia a vida cotidiana, pessoal, social e profissional das pessoas. Aprender a programar, a interferir no mundo por meio de computação física ou construir robôs somente tem sentido na Educação Básica se for para formar cidadãos capazes de negociar o mundo digital no qual vivem.

Resgato aqui a ideia de conhecimento pertinente de Edgard Morin. Para o filósofo um conhecimento somente faz sentido quando ele está religado ao mundo no qual a(o) estudante vive. São essas conexões e religações entre o mundo, as pessoas e os saberes que, segundo Morin, permitem a construção bem como a compreensão do conhecimento. 

Plataforma digital exige ações pedagógicas planejadas

A plataforma digital oferecida para as escolas não pode ser vista como uma ferramenta autônoma na qual as(os) professoras(os) somente seguirão aulas e atividades prontas. Ou, pior, que as(os) estudantes poderão aprender sozinhas(os). Essa plataforma deve ser considerada um recurso didático para ser disponibilizado às(os) educandas(os) por meio de ações pedagógicas planejadas pelos profissionais da Educação Básica. Logo, as professoras precisam compreender os princípios que regem a o mundo digital, a saber: o algoritmo, a variável, a repetição e a seleção. As (os) educadoras(es) precisam, igualmente, compreender como as engrenagens desse mundo funcionam por meio da estrutura binária do universo numérico conjugada ao ciclo do input, process e output. São esses conhecimentos básicos, profundamente enraizados na matemática e na linguística, que precisam ser a preocupação central de uma Educação Tecnológica de qualidade.

Ao mesmo tempo uma preocupação central não significa uma preocupação autocentrada. Volto para Morin que defende uma visão complexa da Educação por meio da qual devemos olhar o uno e o múltiplo ao mesmo tempo. Esses princípios básicos da linguagem de programação e da robótica precisam ser ensinados para dar liberdade criativa às(os) educandas(os). Logo, não podemos deixar as outras formas de expressão de fora: vídeos, sites, aplicativos, imagens e criações analógicas precisam relacionar-se com a linguagem de programação para que ela transborde a formalidade e transforme-se em uma linguagem humana. Nesse sentido preocupa-me a possibilidade da criatividade das crianças ser podada por uma plataforma digital com atividades prontas, moduladas e sequenciadas.  

Não precisamos de computador para ensinar a pensar computacionalmente. Precisamos de professoras(es) bem formadas(os).

Outra questão são os robôs propostos.  Ele vêm prontos, não dependem da capacidade das crianças em idealizar, criar, animar e testar hardwares. Já existem kits de robótica muito interessantes que permitem animar caixas de papelão e outros materiais recicláveis. Esses kits permitem a religação das artes, da matemática e da linguagem de forma lúdica e reduzem sensivelmente o tempo das crianças diante da tela. Inseri nesse artigo um vídeo (que faz parte de um projeto grande que estou realizando durante a Pandemia) com meu filho e minha sobrinha (assista ao vídeo no fim do texto). Os resultados foram incríveis! Esses kits são usados em várias escolas ao redor do mundo. Existem inúmeras possibilidades, essa somente ilustra a riqueza de uma abordagem criativa da tecnologia. No entanto, como venho escrevendo há tempos, não precisamos de computador para ensinar a pensar computacionalmente. Precisamos de professoras(es) bem formados(as).

Relato de uma experiência de oficina com professoras

Para esclarecer meu ponto de vista, farei dois breves relatos de experiência docente. Em 2019 dei uma oficina para formandas em Pedagogia em uma universidade de São Paulo. Três delas, aqui nomeadas de Fabiana, Mariana e Amanda, haviam estudado linguagem de programação em seus colégios durante 4 ou 5 anos. Nenhuma lembrava o que era um algoritmo. Nunca haviam ouvido falar de variável. Nem sonhavam o que seria o processo de Input, Process e Output. Elas (es) também não lembravam como proceder com a linguagem Scratch. Se fossemos comparar o processo de aprendizagem da linguagem de programação ao processo de aprendizagem da escrita, Fabiana, Mariana e Amanda haviam sido iniciadas na alfabetização digital, mas não haviam sido letradas na cultura numérica. Ou seja: ensinar a programar sem contextualizar, sem significar os códigos computacionais dentro de uma cultura numérica equivale a alfabetizar sem letrar.

Nenhuma plataforma digital, por melhor que seja, substitui o trabalho docente.

Após minha oficina, feita com materiais analógicos, elas disseram que o conceito de algoritmo e a linguagem de programação começaram a fazer sentido. Não foi meu tabuleiro de papel que as ensinou. Foi a ação pedagógica que idealizei, fundamentada em pensamento verbal e matemático, que mostrou o que seria um algoritmo. Quem ajuda as educandas(os) a construir seus raciocínios é a professora(o). Nenhuma plataforma digital, por melhor que seja, substitui o trabalho docente. O letramento em programação e Educação Tecnológica em geral (com E maiúsculo) somente acontece quando as técnicas usadas são relacionadas com saberes matemáticos, linguísticos e contextualizadas socio-culturalmente.

Por outro lado, acompanhei Frederico, um garoto de 9 anos, (pseudônimo) por um ano ensinando Scratch e Python (linguagens de programação) alternadamente, pois meu foco era desenvolver os pensamentos computacional, matemático e verbal. Hoje, com 12 anos, Frederico escolheu sozinho programar em MineCraft, montou um clube de programação para trocar conhecimento com seus amigos e expressa-se com muita fluência no universo numérico.

Trocando em miúdos: apesar das minhas reticências com a exposição à tela, em especial nesses tempos de Pandemia, didaticamente falando, pouco importa o recurso, a linguagem, a plataforma ou o robô que será empregado. O que você precisa saber é se a abordagem pedagógica aplicada em sua filha(o) possui a intenção clara de instrumentalizá-la (o) para pensar e criar tecnologia criticamente.


[1] As mulheres compõem 80% do quadro docente da Educação Infantil Brasileira e dos primeiros anos da Educação Básica. Inverti o plural para professoras(es), para tornar essas mulheres visíveis sem apagar a presença dos homens nessa esfera profissional. Faço o mesmo com educandas(os) já que as meninas são constantemente excluídas da Educação Tecnológica numérica, voltada para a escrita de códigos computacionais e robótica.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.

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Doutora em Linguística Aplicada pela PUC-SP, trabalha com letramento em programação e Transletramento em TEIA (Tecnologia, Educação, Inovação e Afetividade). Investiga a Educação Tecnológica aplicada aos anos iniciais da Educação Básica. Fez doutorado sanduíche na Universidade de Pittsburgh (EUA). Idealizadora do Programa de Educação Tecnológica Clube01, colaboradora do IMATech e da ONG Assemble, na qual atuou como convidada expert.

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