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O perigo nem sempre vem de um estranho: o que pais e mães precisam saber sobre abuso sexual infantil
“Não fale com estranhos” ou “não aceite nada de quem você não conhece”. Nós, já adultos, crescemos ouvindo estes conselhos e ainda repetimos para os nossos filhos. A orientação continua importante, mas está longe de ser suficiente para proteger as crianças de abuso sexual.
Os números ajudam a explicar por quê. Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 61% dos estupros registrados no Brasil em 2024 tiveram como vítimas crianças menores de 14 anos. Entre os casos envolvendo vítimas de até 13 anos, 59,5% dos agressores eram familiares, 24,4% eram pessoas conhecidas da criança e apenas 16,1% eram desconhecidos. Isso mostra que o perigo, na maioria das vezes, está justamente entre pessoas em quem a criança aprendeu a confiar.
É dessa realidade que parte o livro “Educar para proteger” (Editora Senac), escrito pela jurista e presidente do Instituto Liberta, Luciana Temer. Na obra, ela reúne quase uma década de estudos sobre violência sexual contra crianças e adolescentes para mostrar que a proteção começa muito antes de uma denúncia. “Informação também é proteção”, resume a autora.
A seguir, 5 lições importantes da obra:
- Conversar sobre abuso sexual não tira a inocência da criança
Muitos adultos evitam tocar no assunto por medo de assustar os filhos ou fazê-los perder a confiança nas pessoas. Luciana Temer defende justamente o contrário: compreender como essa violência acontece é uma forma de preparar crianças e adolescentes para reconhecer situações inadequadas e procurar ajuda quando necessário. “Quando falo em colocar a ‘lente da violência sexual infantil’, não sugiro que você passe a desconfiar de cada sombra, mas que, ao compreender a natureza dessa violência, possa conversar e orientar corretamente crianças e adolescentes”, detalha. Para Luciana, falar sobre proteção deve fazer parte da educação das crianças, sempre de maneira adequada à idade.
- O agressor nem sempre é um estranho
O imaginário coletivo ainda associa o abuso sexual a um desconhecido escondido na rua. Mas os dados mostram outra realidade. De acordo com o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, entre as vítimas de até 13 anos, quase seis em cada dez casos registrados tiveram como autor um familiar. Outros 24,4% foram praticados por pessoas conhecidas da criança. Os desconhecidos representam uma parcela menor (16,1%) desses registros. Essa proximidade é justamente um dos fatores que tornam esse tipo de violência tão difícil de identificar e denunciar. Por isso, orientar os filhos vai muito além de repetir o tradicional “não fale com estranhos”. É importante ensinar que ninguém tem o direito de tocar seu corpo sem necessidade de cuidado e que qualquer situação que provoque medo, desconforto ou confusão deve ser compartilhada com um adulto de confiança.
- Muitas vítimas não percebem imediatamente que sofreram violência
Um dos aspectos mais delicados abordados pela autora é a forma como o agressor manipula a criança. Em muitos casos, ele apresenta o abuso como uma demonstração de carinho, uma brincadeira ou um segredo que não pode ser contado. “O criminoso confunde a criança. O que ela acha que é carinho, um dia saberá que foi violência”, diz Gabriel Chalita, que organiza a “Coleção Educar”, da qual o livro faz parte. Crianças precisam aprender desde cedo sobre limites, respeito ao próprio corpo e adultos de confiança.
- De olho na internet
Hoje, proteger crianças significa olhar também para o ambiente digital. Além de abordar o abuso e a exploração sexual, o livro dedica um capítulo à violência sexual online, chamando atenção para riscos como aliciamento, chantagem, exposição de imagens íntimas e contato precoce com pornografia. Para a autora, acompanhar a vida digital dos filhos e manter um diálogo aberto sobre o uso da internet é parte essencial da prevenção.
- Romper o silêncio é o primeiro passo
Logo no início do livro, Luciana Temer faz uma confissão: quando foi convidada para presidir o Instituto Liberta, acreditava que a violência sexual infantil era formada por casos isolados, que deveriam ser resolvidos apenas pela polícia. Ao conhecer os dados e ouvir vítimas e especialistas, percebeu que o problema era muito mais amplo — e que uma das maiores barreiras para enfrentá-lo era justamente o silêncio. Isso motivou a escrita da obra. “Queria dividir, de forma simples e direta, as inúmeras descobertas que fiz ao longo dessa jornada”, pontua.
O livro não foi pensado para especialistas, mas para famílias, educadores e qualquer pessoa que conviva com crianças. A proposta é transformar conhecimento em proteção e mostrar que falar sobre violência sexual infantil não é gerar medo, e sim oferecer às crianças mais ferramentas para reconhecer situações de risco e pedir ajuda.

Livro: Educar para proteger
Autora: Luciana Temer
Editora: Senac São Paulo
Canguru News
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