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“Meu marido não tem amigos”: você também gerencia a vida social na sua casa?
Meu marido até tem amigos. Mas, se eu parar para pensar, quantas dessas amizades continuariam existindo se eu não ajudasse a manter a engrenagem funcionando? Eu fiquei refletindo sobre o assunto, quando me deparei com um artigo recente da jornalista americana Monica Corcoran Harel, publicado na revista The Cut, com o título “My Husband Has No Friends”. No texto, mulheres relatam como seus maridos nem sempre foram isolados e que, antes, tinham amigos, saíam, trocavam mensagens, tinham uma vida social própria. Só que, em algum momento, isso tudo foi diminuindo.
Quando vem o casamento, os filhos, o trabalho, as responsabilidades… Às vezes, acontece uma mudança de cidade. De repente, você se dá conta de que alguns homens passam a ter como principal — ou praticamente única — companhia social a própria família.
Quem marca o encontro?
“Você não vai mandar mensagem para o fulano?”, “Faz tempo que vocês não se encontram”, “Vamos chamar o casal X para jantar?”. Talvez você também repita essas frases, sem nem perceber o que está fazendo. A gente simplesmente sabe que a vida social é importante e que exige certa disposição e iniciativa.
O artigo descreve como as mulheres acabam ocupando diferentes papéis para manter os maridos conectados: há quem os incentive a conversar em encontros, quem tente aproximá-los de outros homens e quem simplesmente se ressinta de ter que fazer esse trabalho. Sustentar qualquer relação exige um esforço, que, na teoria, deveria ser responsabilidade de cada adulto. Mas, na realidade, até isso acaba se tornando mais uma tarefa para as mulheres.
Dá trabalho!
Organizar um encontro não é só mandar uma mensagem. A gente precisa lembrar do amigo, pensar em quem chamar, encontrar uma data que seja boa para todos, ver se as crianças podem ir (e, se elas não puderem, encontrar alguém que possa cuidar delas enquanto o encontro acontece), escolher o lugar, combinar horário, manter contato.
Parecem coisas pequenas, quando a gente olha de forma isoladas. Mas as tarefas pequenas, juntas, ocupam um bom espaço mental. Há uma grande diferença entre fazer uma coisa e ser a pessoa que precisa lembrar que ela precisa ser feita.
A vida social não aparece na lista de tarefas domésticas, nem está no calendário como “lavar roupa” ou “pagar a escola”. Mas ela existe e isso faz com que alguém precise pensar nela. Quem toma essa função para si na sua casa?
Mas será que ele realmente não tem amigos?
Alguns homens preferem mesmo ter poucos amigos e se sentem perfeitamente satisfeitos com isso. Outros gostariam de ter uma vida social mais ativa, mas não conseguem sustentá-la. Para eles, pode ser cômodo só aproveitar quando alguém já executou todo o “serviço”.
Também há diferenças na forma como as pessoas constroem e mantêm amizades. Uma pessoa pode considerar um colega de futebol um grande amigo mesmo sem conversar profundamente sobre a vida. Outra pode precisar de encontros frequentes e conversas longas para sentir que existe intimidade.
O próprio artigo da The Cut reconhece que as formas de amizade masculina podem ser diferentes. Atividades compartilhadas — como praticar um esporte juntos — podem funcionar como espaço de conexão, sem necessariamente reproduzir o modelo de amizade baseado em conversar longamente sobre sentimentos.
Então, mais do que tentar entender por que seu marido não tem amigos, pode ser importante ir mais a fundo: será que a vida social dele está funcionando para ele? E mais ainda: se não estiver, por que você se sente responsável por ‘consertá-la’?
Tem outra situação que acontece com frequência nas famílias. Às vezes, as amizades do marido passam a depender das amizades da mulher. É ela quem conhece as outras mães da escola, conversa no grupo de WhatsApp, marca o jantar entre casais, mantém contato com os parentes, lembra dos aniversários – inclusive os da família dele!
Sem perceber, o marido não tem proatividade. Ele só participa (até de forma meio ‘arrastada’) de uma rede social que foi construída e é mantida principalmente pela mulher. É algo que até pode ser conveniente durante algum tempo. Mas, se um dia, a esposa se dá conta e se questiona o que aconteceria se ela parasse de se esforçar, a resposta pode ser: nada.
Alguns encontros vão deixar de acontecer. Mas é fundamental lembrar que não é responsabilidade da mulher resolver a solidão do parceiro. Se o marido está isolado, a esposa pode se importar. Pode convidá-lo para um programa, apresentar pessoas, sugerir que retome uma amizade antiga. Isso faz parte de uma relação de parceria.
Mas tem uma diferença entre apoiar alguém e assumir a responsabilidade pela vida social dessa pessoa. Cada adulto precisa assumir a responsabilidade de cultivar os próprios vínculos. Apesar da correria e das responsabilidades, isso é especialmente importante depois que chegam os filhos.
Mas tem uma diferença entre apoiar alguém e assumir a responsabilidade pela vida social dessa pessoa. Cada adulto precisa assumir a responsabilidade de cultivar os próprios vínculos. Apesar da correria e das responsabilidades, isso é especialmente importante depois que chegam os filhos.
É preciso lembrar de algo que também faz parte da vida de muitos homens, sobretudo depois que se casam: a acomodação. Depois de anos de relacionamento, filhos, trabalho e uma rotina compartilhada, pode ser confortável ficar em casa e deixar que os encontros aconteçam quando a esposa organiza, que as amizades do casal deem conta da vida social e que a família seja o principal — ou único — círculo de convivência.
Ficar em casa e valorizar a família é importante, mas cultivar vínculos além destes continua sendo importante na vida adulta. Amigos oferecem outros tipos de troca, interesses, experiências e perspectivas, além de serem relações que não dependem dos papéis de marido, mulher, pai ou mãe. Ter uma rede própria não significa querer estar longe da família. Na verdade, é não colocar sobre uma única relação toda a responsabilidade pela conexão e pela companhia.
Nem todo homem que tem poucos amigos está solitário e nem todo mundo precisa de uma vida social intensa. Há quem prefira poucos vínculos, encontros esporádicos ou relações que não cabem no modelo tradicional de amizade. A questão é quando existe vontade de ter mais contato com outras pessoas, mas a iniciativa passa sempre para o parceiro.
É importante lembrar que vocês continuam sendo pessoas para além da parentalidade. Ou seja: ter amigos, interesses e espaços próprios não é um luxo – e nem deveria ser mais uma tarefa que uma mulher precisa administrar pelo marido.
Amizade também é iniciativa, presença e reciprocidade. Depois de ler a reportagem, fiquei pensando que não quero incluir na minha já extensa lista mental uma categoria chamada “manter meu marido socialmente conectado”.
Ele pode ter poucos amigos, gostar de ficar em casa, preferir encontrar alguém para jogar bola, em vez de passar horas conversando, pode ter um amigo que só aparece de vez em quando. E tudo bem. O que talvez não precise estar bem é eu sentir que a vida social dele depende de mim.
Canguru News
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