Sedentarismo começa na infância – e não é só falta de exercício

Crianças e adolescentes têm se movimentando menos e passado mais tempo sentados, especialmente diante das telas. Entenda por que esse comportamento merece atenção desde cedo e o que os pais podem fazer no dia a dia

 

 

Não é preciso pensar em uma criança que passa o dia inteiro no sofá para falar em sedentarismo. Ela pode até fazer uma aula de futebol duas vezes por semana, mas passar muitas horas sentada na escola, no carro, diante da televisão ou mexendo no celular. É justamente esse tipo de rotina que tem preocupado especialistas.

A falta de atividade física já é considerada uma questão importante de saúde pública em todo o mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de um terço dos adultos não pratica atividade física suficiente, e a inatividade está associada a aproximadamente 5 milhões de mortes por ano.

Mas a preocupação começa bem antes da vida adulta. Uma análise global publicada na revista The Lancet Child & Adolescent Health, que avaliou 1,6 milhão de adolescentes de 146 países, mostrou que 81% dos jovens entre 11 e 17 anos não atingem níveis adequados de atividade física. Entre as meninas, o índice chega a 84,7%.

No Brasil, o cenário também chama a atenção. “O dado mais alarmante, porém, está entre os jovens: aproximadamente 84% não atingem níveis adequados de atividade física”, afirma a pediatra Brizza Valeria Foianini Biassi, membro do Núcleo de Estudos da Prática de Atividade Física e Esportes na Infância e Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP).

Praticar um esporte não basta. A recomendação é que crianças e adolescentes acumulem pelo menos 60 minutos de atividade física por dia, em intensidade moderada a vigorosa. “Além da baixa prática de atividade física, observa-se aumento progressivo do tempo em comportamento sedentário, especialmente diante de telas”, explica Brizza. Há uma diferença importante entre as duas coisas. Atividade física e comportamento sedentário não são exatamente opostos. Uma criança pode cumprir os 60 minutos de atividade física recomendados e, ainda assim, permanecer muitas horas sentada no restante do dia.

“Ou seja, não basta fazer exercício algumas vezes por semana; é necessário reduzir o tempo total de inatividade ao longo do dia”, afirma a pediatra. Isso quer dizer que pequenas oportunidades de movimento, como brincar ao ar livre, caminhar, andar de bicicleta, subir escadas, dançar, correr e até interromper períodos prolongados sentado, também contam.

A infância é uma fase fundamental para o desenvolvimento físico e motor. Por isso, manter uma rotina ativa não é só uma questão de prevenção de obesidade ou de doenças que costumam ser associadas à vida adulta. A prática regular de atividade física está ligada a melhor condicionamento cardiorrespiratório, aumento da força e resistência muscular, fortalecimento e mineralização dos ossos, melhora de indicadores metabólicos e redução da pressão arterial. Os benefícios também alcançam o cérebro e as emoções, com associações a melhor desempenho cognitivo e maior autoestima.

Por outro lado, quando a atividade física é insuficiente, podem surgir consequências que já aparecem durante a infância e a adolescência, como aumento do risco de sobrepeso e obesidade, prejuízos na função musculoesquelética, pior qualidade do sono, maior vulnerabilidade emocional e redução da competência motora.

Ao contrário do que muitos pais pensam, não se trata apenas de uma preocupação com o futuro. A falta de movimento pode afetar a criança hoje.

Como estimular uma rotina mais ativa?

Você não precisa transformar a casa em uma academia ou preencher a agenda da criança com atividades esportivas. O mais importante é criar oportunidades para que o movimento faça parte da rotina. Caminhar em trajetos curtos em vez de usar sempre o carro, brincar no parque, escolher atividades que a criança realmente goste, dançar em casa e fazer pausas durante períodos prolongados sentado são algumas possibilidades.

O exemplo dos adultos também importa, viu? Quando a família tem uma rotina em que caminhar, brincar e se movimentar são atividades naturais, fica mais fácil para a criança incorporar esses hábitos. “O pediatra ocupa posição estratégica. Assim como avaliamos peso, estatura e pressão arterial, o nível de atividade física deve ser considerado um indicador essencial da saúde pediátrica”, destaca Brizza. “Combater o sedentarismo não é apenas prevenir doenças futuras. É proteger o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional de uma geração. E o pediatra tem papel fundamental nessa transformação”, conclui.

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