55% de quem procura o SUS por problemas com apostas online são mulheres

Embora os homens sejam maioria entre os apostadores, elas representam a maior parte das pessoas que chegam ao serviço público de saúde em busca de cuidado; entenda os impactos das bets na saúde mental, nas finanças e na vida familiar

As apostas online costumam ser associadas a homens, especialmente quando envolvem futebol e apostas esportivas, mas um dado apresentado pelo Ministério da Saúde chama atenção para outro grupo: 55% das pessoas que procuram atendimento no SUS por problemas relacionados às apostas são mulheres, embora os homens sejam maioria entre os apostadores.

O número não explica, sozinho, por que elas estão chegando aos serviços de saúde. Mas abre uma discussão importante sobre um problema que ultrapassa a tela do celular e impacta o orçamento, as relações e a rotina da família.

Em 25 de setembro, o governo federal publicou a Medida Provisória 1.394, que proíbe no país a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das chamadas bets — tanto as apostas esportivas quanto os jogos online. A medida também alcança as autorizações estaduais e distritais.

A proibição prevê um período de transição. Desde a publicação da MP, as plataformas não podem receber novos recursos. Os apostadores têm até 5 de outubro, às 23h59, para retirar voluntariamente os valores disponíveis. A partir de 6 de outubro, sites e aplicativos deverão sair do ar. Os saldos que não forem retirados serão devolvidos posteriormente por meio das instituições financeiras.

A decisão acontece em meio à preocupação do governo com os impactos das apostas sobre a saúde mental e o endividamento. O Ministério da Saúde informou que pretende ampliar as ações de busca ativa de pessoas com comportamento de jogo problemático e oferecer atendimento também aos familiares.

É nesse contexto que o dado sobre as mulheres ganha relevância: mesmo sendo minoria entre os apostadores, elas representam 55% das pessoas que chegam ao SUS em busca de ajuda por problemas relacionados às apostas. A proibição das plataformas, portanto, não encerra automaticamente os problemas de quem já desenvolveu uma relação problemática com o jogo e aumenta a importância de discutir como será o cuidado dessas pessoas e de suas famílias.

O próprio Ministério da Saúde aponta que o uso problemático das apostas pode estar associado a diferentes fatores e consequências, como alterações no sono e no humor, ansiedade, depressão, perda de controle, isolamento e conflitos familiares. As plataformas também são desenhadas para facilitar o acesso e estimular a repetição: estão disponíveis 24 horas por dia e utilizam recursos como notificações, bônus e apostas em tempo real.

Entre as mulheres, outros aspectos da vida também merecem ser investigados. Uma pesquisa divulgada pelo Ministério das Mulheres mostrou que algumas brasileiras percebem as apostas como uma possibilidade de complementar a renda ou ajudar a pagar despesas em meio a dificuldades financeiras. O levantamento também aponta que mulheres com filhos apostam 8% mais do que aquelas sem filhos. Desigualdades econômicas, responsabilidades financeiras e sobrecarga de cuidados podem fazer parte desse contexto.

Para muitas pessoas, apostar não começa como um problema. Pode ser uma brincadeira durante uma partida de futebol, uma tentativa ocasional de ganhar algum dinheiro ou simplesmente curiosidade. Só que, em alguns casos, o comportamento começa a ocupar um espaço cada vez maior na vida. Apostar mais tempo ou dinheiro do que o planejado, pensar frequentemente no jogo, tentar parar e não conseguir ou perceber mudanças no sono, no humor, na rotina e nos relacionamentos são sinais que merecem atenção. Outro comportamento que pode indicar perda de controle é apostar novamente para tentar recuperar o dinheiro perdido.

O problema é que, como as bets estão no celular, não é preciso sair de casa, procurar uma casa de apostas ou sequer interromper a rotina para jogar. A aposta está no carro, no banheiro, no quarto, na cozinha…

Quando o comportamento começa a afetar o orçamento ou as relações, toda a família pode sentir as consequências. Um levantamento citado pelo Ministério das Mulheres mostra que, entre mulheres que afirmaram ter sido afetadas pelas apostas de alguém próximo, 25% relataram perdas financeiras, 24,2% conflitos familiares e 23,5% perda de confiança. Também foram mencionadas dívidas e desgaste emocional.

Isso ajuda a entender por que o Ministério da Saúde passou a oferecer atendimento também para familiares de pessoas com problemas relacionados às apostas. O cuidado não precisa se limitar a quem está jogando: parceiros, pais, filhos e outras pessoas afetadas pela situação também podem procurar orientação.

Para uma família com crianças, por exemplo, o impacto pode aparecer de diferentes maneiras: mudanças no orçamento, discussões entre os adultos, preocupação constante com dinheiro ou alteração na disponibilidade emocional dos pais.

Vergonha pode afastar mulheres dos cuidados que elas precisam

Segundo levantamento do Ministério das Mulheres, 65% das mulheres que quiseram parar de apostar não procuraram ajuda por vergonha. Além disso, 23% das mulheres que apostam ou já apostaram disseram não ter a quem pedir ajuda. A vergonha pode fazer com que a pessoa esconda o comportamento, as perdas financeiras ou as dívidas por bastante tempo. Também pode alimentar a ideia de que se trata apenas de uma questão de força de vontade.

Mas o Ministério da Saúde reconhece o transtorno do jogo como um transtorno relacionado a comportamento aditivo. O cuidado pode envolver atendimento individual ou em grupo e, em alguns casos, medicamentos, sempre de acordo com a avaliação profissional.

A procura por ajuda cresceu rapidamente. O serviço de teleatendimento do SUS começou a funcionar em março de 2026 com cerca de 600 atendimentos mensais. Em agosto, a capacidade foi ampliada para até 100 mil teleatendimentos por mês, diante da alta procura.

E se o problema for de alguém da família?

Para quem convive com uma pessoa que perdeu o controle das apostas, a orientação é não carregar a situação sozinho. Familiares também podem procurar atendimento no SUS para receber orientação e apoio. Isso é especialmente importante quando há dívidas, conflitos ou crianças envolvidas.

Também pode ser útil separar duas coisas: oferecer apoio e assumir as consequências do problema. A família pode ajudar na busca por tratamento sem precisar esconder dívidas, encobrir o comportamento ou comprometer o próprio orçamento para tentar compensar as perdas.

E, diante de uma situação que já está afetando a vida familiar, procurar ajuda antes que o problema se agrave pode ser mais importante do que esperar que a pessoa chegue ao que considera seu “limite”.

Não é preciso esperar perder muito dinheiro para procurar orientação. Alguns sinais merecem atenção:

– Dificuldade para reduzir ou interromper as apostas

– Tentativas repetidas de parar sem conseguir

– Preocupação constante com o jogo

– Aumento dos valores apostados, uso das apostas para lidar com sentimentos difíceis

– Prejuízos no sono, no trabalho, nas relações ou no orçamento.

Para mães e pais, isso também significa olhar para além do comportamento individual. Quando as bets começam a interferir no dinheiro, no relacionamento ou na presença emocional dentro de casa, o problema deixa de ser apenas uma aposta feita no celular e passa a fazer parte da vida da família — e é justamente aí que buscar ajuda pode fazer diferença.

 

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