O hábito que pode ajudar avós a envelhecer mais devagar

Brincar, conversar, passear e participar ativamente da vida dos netos pode trazer benefícios que vão muito além do afeto. Um estudo com quase 3 mil avós descobriu que esse convívio está associado a melhor memória e a um envelhecimento cognitivo mais lento, especialmente entre as mulheres
A saúde dos avós Foto: Magnific

 

 

Eles já foram pais e mães e agora têm uma segunda chance de conviver com as crianças, mas de uma forma mais leve, mais madura, sem tantas responsabilidades. Os avós fazem toda a diferença na vida dos netos. O sentido oposto também é verdadeiro – e a ciência comprova. Uma nova pesquisa sugere que esse vínculo pode trazer benefícios importantes para a saúde cerebral dos mais velhos e até desacelerar o envelhecimento.

O estudo, publicado na revista científica Psychology and Aging, acompanhou quase 3 mil avós com mais de 50 anos e encontrou uma associação entre o cuidado dos netos e um melhor desempenho cognitivo. Em comparação com aqueles que não participavam dos cuidados, os avós envolvidos na rotina das crianças apresentaram melhores resultados em testes de memória e fluência verbal, uma habilidade relacionada à capacidade de encontrar palavras e se comunicar.

Os pesquisadores observaram que os benefícios permaneceram mesmo após considerar fatores como idade, escolaridade, estado de saúde, renda e sintomas de depressão. O envolvimento com os netos apareceu como um fator independente associado a um cérebro mais ativo na velhice.

Um dos achados que mais chamou a atenção dos cientistas foi a diferença entre homens e mulheres. Entre as avós, o cuidado com os netos esteve associado não apenas a um melhor desempenho cognitivo inicial, mas também a um declínio mais lento ao longo dos anos. Já entre os avôs, os benefícios apareceram principalmente nos níveis cognitivos observados no início da pesquisa, sem evidências consistentes de proteção contra a perda cognitiva futura.

Segundo o neurocientista Julio Santos, a explicação pode estar na forma como cada um participa da rotina das crianças. “O envolvimento com os netos se relaciona a um envelhecimento cognitivo mais lento ao longo do tempo. Nos avôs, o benefício aparece principalmente no nível cognitivo inicial, sem evidências consistentes de proteção contra o declínio. Isso sugere que a forma como cada um se envolve com o cuidado pode influenciar os resultados”, explicou, ao falar sobre o estudo em suas redes sociais.

Quantidade x qualidade

Nem todos os avós conseguem conviver diariamente com os netos. Alguns têm rotinas que não permitem, moram longe ou enfrentam outros impedimentos. Mas isso não significa que eles não podem aproveitar os benefícios. De acordo com a pesquisa, a quantidade de dias ou horas dedicadas aos cuidados com as crianças não foi o principal fator associado aos benefícios cognitivos, ou seja, estar presente por mais tempo não garantiu melhores resultados. Para os pesquisadores, o mais importante é a participação ativa e o tipo de interação construída entre as gerações.

Brincar, conversar, aprender…

Entre as atividades associadas aos melhores resultados estão aquelas que estimulam conversas, trocas de experiências e pequenos desafios mentais. Brincadeiras, passeios, jogos, ajuda nas tarefas escolares, leitura de histórias e momentos de lazer compartilhados aparecem como exemplos de interações que mantêm o cérebro em atividade.

Outro dado interessante é que a diversidade de experiências parece ser mais importante do que repetir sempre a mesma rotina. Variar programas, explorar novos assuntos e criar oportunidades para aprender juntos pode ser vantajoso, tanto para os avós quanto para as crianças.

Os pesquisadores acreditam que essas atividades combinam elementos já conhecidos por favorecer a saúde cerebral, como interação social, sensação de propósito, estimulação cognitiva e envolvimento emocional.

Bom para todo mundo

Embora o estudo não prove uma relação direta de causa e efeito, os resultados reforçam o que a gente, na verdade, já sabe: a convivência entre avós e netos pode ser uma fonte valiosa de afeto, aprendizado e troca. Uma tarde de brincadeiras, histórias e conversas pode ser muito mais poderosa do que parece para os pequenos e também para quem já tem uma longa estrada percorrida na vida.

 

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