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O ego dos CEOs pode estar tirando pais e mães do home office, aponta estudo
Durante anos, passado o período mais crítico da pandemia, ouvimos a mesma justificativa: o retorno ao escritório era necessário para aumentar a produtividade, fortalecer a colaboração e melhorar os resultados das empresas. Mas uma nova pesquisa da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, sugere que essas hipóteses não explicam a história inteira.
O estudo encontrou uma associação entre traços de narcisismo em CEOs e maior resistência ao trabalho remoto e híbrido. Em outras palavras, quanto mais narcisista o líder, maior a probabilidade de defender que os funcionários voltem a trabalhar presencialmente. A explicação não estaria necessariamente na produtividade, mas na necessidade de exercer poder, controle e reforçar o próprio status. Os resultados ganharam repercussão após serem destacados pelo psicólogo organizacional Adam Grant, professor da Wharton, em artigo publicado no The New York Times.
Como mãe, essa pesquisa me fez pensar em uma questão que raramente aparece nas discussões sobre home office: quem paga o preço dessas decisões?
Os pesquisadores acompanharam, durante seis anos, CEOs de empresas da Fortune 500 e realizaram experimentos com centenas de gestores para entender por que alguns líderes se mostram tão resistentes ao trabalho remoto.
A conclusão foi que líderes com traços mais elevados de narcisismo tendem a preferir o trabalho presencial porque ele oferece algo que as reuniões por vídeo não conseguem reproduzir da mesma forma: visibilidade, autoridade e oportunidades constantes de exercer influência sobre a equipe.
Segundo os autores, o escritório funciona como um ambiente em que esses executivos conseguem reafirmar sua posição hierárquica e receber reconhecimento de forma mais direta. No home office, esse efeito diminui.
Longe de mim querer cravar aqui que todo CEO que defende o trabalho presencial seja narcisista, nem que o modelo remoto seja adequado para todas as empresas ou profissões. O assunto é infinitamente mais complexo que isso. Mas o estudo levanta um alerta importante: em alguns casos, a decisão pode refletir muito mais características pessoais da liderança do que evidências sobre desempenho.
Para quem tem filhos, a conta é bem maior
Quando uma empresa determina o retorno obrigatório ao escritório, a mudança não afeta apenas a rotina profissional. Para mães e pais, isso tem outros impactos, para a família toda. É preciso reorganizar a logística da casa, acordar mais cedo, enfrentar horas no trânsito e depender ainda mais da escola, de avós, babás ou de uma rede de apoio.
É abrir mão do café da manhã em família, não conseguir buscar o filho na escola, transformar uma consulta ao pediatra em um quebra-cabeça de horários. É perder justamente aquilo que o home office trouxe de mais valioso: a presença, a proximidade e a flexibilidade.
E não, isso não significa trabalhar menos. Pelo contrário. Diversas pesquisas realizadas desde a pandemia mostram que trabalhadores remotos mantiveram — e, em muitos casos, aumentaram — seus níveis de produtividade. A principal diferença foi que ganharam flexibilidade para administrar melhor a vida pessoal sem deixar de cumprir suas responsabilidades.
O tempo também é um benefício
Quem tem filhos sabe que qualidade de vida não se resume ao salário (embora, é claro, que o dinheiro seja um ponto importantíssimo). Mas ter a possibilidade de acompanhar uma reunião escolar, almoçar com a família uma vez ou outra, estar presente quando uma criança adoece ou simplesmente evitar duas horas diárias no trânsito faz diferença na saúde mental de toda a casa.
São itens que não aparecem nos relatórios corporativos, mas têm um enorme impacto tanto para a infância, como para o bem-estar dos pais. Por isso, quando decisões sobre o modelo de trabalho são tomadas com base em preferências pessoais e não em resultados concretos, acho que elas acabam ultrapassando os limites da empresa e afetando a rotina de milhares de famílias.
O debate precisa ir além da produtividade
O estudo da Wharton não encerra a discussão sobre trabalho remoto. Há funções que exigem presença física, equipes que se beneficiam dos encontros presenciais e empresas que encontram bons resultados em modelos híbridos. Existem ainda pais e mães que funcionam melhor com a separação física entre trabalho e casa.
Mas ele faz uma provocação importante: até que ponto algumas políticas de retorno ao escritório são realmente motivadas pelos interesses da organização? E até que ponto refletem o desejo de certos líderes de reafirmar seu poder?
Para quem cria filhos, essa resposta importa muito. Quando o ego ocupa mais espaço do que as evidências, quem perde não são apenas os funcionários, mas também as famílias, que veem diminuir um dos recursos mais preciosos da vida: o tempo que passam juntos.
Canguru News
Desenvolvendo os pais, fortalecemos os filhos.
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