Semana Mundial do Aleitamento Materno: apoiar quem amamenta é muito mais do que repetir que “o leite é o melhor alimento”

De 1º a 7 de agosto, a campanha mobiliza mais de 120 países para lembrar que amamentar não é responsabilidade exclusiva da mãe. Em 2026, o tema reforça a importância de fortalecer as redes de apoio e investir em estratégias que realmente fazem diferença para que mais mulheres consigam amamentar pelo tempo que desejam
Semana Mundial do Aleitamento Materno Foto: Magnific

Quando eu tive minha primeira filha, me preparei muito para o parto. Fiz o pré-natal, encontro de gestantes, conversei com uma doula, li tudo o que podia, entendi os benefícios do parto natural humanizado… Mas, no meio disso tudo, eu não dei importância para algo que viria depois: a amamentação.

Naquela época, na minha cabeça, amamentar era natural. Era só dar o peito e pronto: o bebê ia mamar e todos os problemas estariam resolvidos. Não é assim que todas as mães fazem nos filmes, nos comerciais de televisão, nas fotos de revista? E mais: não é assim que todos os outros mamíferos fazem também?

Quanta inocência, ignorância e ingenuidade! Quando minha filha nasceu, em um parto do jeitinho que eu queria, eu entendi que o desafio era muito maior. Ela não fazia a pega correta, o peito ficou machucado, o mamilo era invertido, havia dificuldade para ganhar peso… Não, não era como nos filmes.

Felizmente, com informação e com ajuda de profissionais competentes, como pediatras e consultoras de amamentação, conseguimos ajustar e minha bebê mamou no peito por mais de dois anos, como preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS), mas essa não é a história de todas as mães. E não porque elas não queiram amamentar. Mas existem vários contextos, várias dificuldades, várias realidades.

Por isso, todos os anos, entre 1º e 7 de agosto, mais de 120 países participam da Semana Mundial do Aleitamento Materno (SMAM), uma campanha criada pela World Alliance for Breastfeeding Action (WABA) para proteger, promover e apoiar a amamentação. A iniciativa surgiu em 1992, inspirada na Declaração de Innocenti, documento elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo UNICEF que reconhece o aleitamento materno como uma prioridade para a saúde pública.

No Brasil, a Semana Mundial faz parte do Agosto Dourado, mês dedicado à conscientização sobre a importância da amamentação. A cor dourada representa o leite materno como o “padrão ouro” da alimentação do bebê nos primeiros meses de vida. Desde 2017, o Agosto Dourado integra o calendário oficial do país por meio da Lei nº 13.435.

Neste ano, a campanha traz como tema “Amamentação para um começo de vida sustentável: fortaleça o que funciona”. A proposta é lembrar que já existem estratégias comprovadas para aumentar as taxas de aleitamento materno e que o desafio agora é ampliar essas ações e garantir que toda mulher tenha o apoio necessário para amamentar, se essa for sua escolha.

A OMS e a WABA destacam que há evidências robustas mostrando quais medidas realmente ajudam as famílias: orientação qualificada desde a gestação, apoio nas primeiras horas após o parto, acompanhamento durante as dificuldades, licença-maternidade adequada, ambientes de trabalho acolhedores, Bancos de Leite Humano, hospitais comprometidos com boas práticas e uma rede de apoio ativa.

Não basta dizer que o leite materno é importante. É preciso criar condições para que a amamentação aconteça. Apoiar uma mãe que amamenta é muito mais do que dar palpites. Quem já amamentou sabe que o início nem sempre é simples. Para mim, não foi. Dor, fissuras, dúvidas sobre a pega, noites mal dormidas, insegurança e exaustão podem fazer parte da experiência. Nessas horas, sempre tem algum “ser iluminado” para repetir frases como “seu leite é fraco” ou “esse bebê chora porque seu leite não sustenta”. São falas que só aumentam a ansiedade e não têm respaldo científico nenhum. Apoiar de verdade significa oferecer ajuda prática e emocional.

Como familiares e amigos podem fazer diferença:

  • Pergunte: “Como posso te ajudar hoje?”, em vez de assumir o que ela precisa.
  • Leve uma refeição pronta ou ajude nas tarefas da casa para que a mãe possa descansar.
  • Ofereça água ou um lanche enquanto ela amamenta.
  • Evite fazer comentários sobre a quantidade de leite, o tempo das mamadas ou o corpo da mulher.
  • Incentive a mãe a procurar um profissional capacitado em amamentação caso surjam dificuldades.
  • Respeite as decisões da família, sem julgamentos ou comparações com outras experiências.
  • Proteja esse momento de visitas excessivas ou interrupções, principalmente nas primeiras semanas.

O papel dos pais e parceiros

A campanha deste ano também reforça que o sucesso da amamentação depende da chamada “cadeia calorosa de apoio” (“Warm Chain of Support”), que envolve não apenas profissionais de saúde, mas também parceiros, familiares, empregadores, comunidades e governos.

É verdade que só a mãe pode amamentar, mas cuidar de um bebê nunca deveria ser responsabilidade de uma pessoa só. Trocar fraldas, dar banho, colocar o bebê para arrotar, preparar refeições, organizar a casa e acolher emocionalmente a mãe são formas concretas de contribuir para que ela consiga viver esse período com menos sobrecarga.

Cada história é única

A Semana Mundial do Aleitamento Materno também é um convite para substituir cobranças por acolhimento. Há mulheres que amamentam exclusivamente por meses, outras precisam complementar a alimentação do bebê, algumas enfrentam condições de saúde que dificultam esse processo e há quem, mesmo desejando muito, não consiga manter a amamentação. Valorizar o aleitamento materno não significa julgar quem teve uma trajetória diferente.

Fortalecer o que funciona é também fortalecer as mães.

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