Nem toda vermelhidão é vermelha

O que a escola deixa de ver na pele preta

Você sabia que existem diversos tons de pele? Provavelmente sim. Agora a segunda pergunta: você sabia que, dentro de uma estrutura racista, um desses tons virou padrão? Foi ele que entrou nos livros, nas ilustrações, nas fotos dos manuais de saúde e nos materiais que formaram gerações de profissionais.

Todo o resto passou a ser descrito como desvio, ou simplesmente não foi descrito. Isso não é abstração acadêmica. Isso chega ao chão da escola, na sala da educação infantil, no trocador, no colo.

A cena

A criança branca bate o braço no cantinho da mesa. Em pouco tempo aparece a mancha roxa, o adulto vê, acolhe, gela, comunica a família, registra na agenda. A criança negra bate o braço no mesmo cantinho, com a mesma força. Ela também sente dor. Ela também chora. O sangue extravasado embaixo da pele também está lá.

Mas o sinal visual que a professora aprendeu a procurar, aquele roxo nítido do desenho do manual, não salta aos olhos da mesma forma. O que existe é uma área mais escura sobre pele já escura, com pouco contraste. Mesma coisa no trocador. A assadura na criança branca aparece vermelha, brilhante, impossível de não notar.

Na criança negra, a mesma inflamação pode aparecer castanho escura, arroxeada ou acinzentada, e a região das dobras engana ainda mais. Repare no que acabou de acontecer. A criança negra não sentiu menos. A pele dela não protege mais. O que falhou foi o repertório visual de quem olhou.

E se a criança ainda não fala? Essa é a pergunta que me tira o sono. Na educação infantil, boa parte das crianças não verbaliza dor com precisão. O bebê não diz que arde na hora do xixi. A criança de dois anos não explica que a coxa está latejando. Ela avisa de outro jeito. Ela chora sempre no mesmo momento da rotina. Ela se contorce quando a fralda é aberta. Ela recusa uma posição que aceitava. Ela para de querer sentar. Ela fica irritada, agarrada, fora do padrão dela.

Se o adulto só valida o desconforto quando enxerga vermelho, a criança negra que ainda não fala fica com dois canais de comunicação bloqueados ao mesmo tempo. Ela não consegue dizer e não é vista. É aí que o racismo estrutural deixa de ser conceito e vira uma criança chorando sem resposta.

Não é uma percepção minha, é uma lacuna documentada. Foi exatamente isso que levou Malone Mukwende, estudante de medicina nascido no Zimbábue, a criar um manual junto com dois docentes da sua universidade em Londres. O material mostra como sinais clínicos se apresentam de forma diferente em peles mais escuras e insiste também na linguagem usada para descrever esses sinais, para que a formação não comprometa o cuidado de determinados grupos.

Ele reuniu imagens lado a lado de pele clara e pele escura depois de perceber que aprendia apenas a reconhecer sinais na pele branca. O livro se chama Mind the Gap e pode ser baixado gratuitamente. No Brasil, a lacuna tem outro nome e a mesma origem. O preenchimento do quesito raça e cor nos formulários de saúde é obrigatório desde 2017, pela Portaria nº 344 do Ministério da Saúde, e a subnotificação desses dados é uma das expressões mais evidentes do racismo institucional na saúde. Quando não se registra, não se enxerga. Quando não se enxerga, não se cuida.

O que muda na prática, amanhã de manhã

Não estou pedindo que professora vire enfermeira. Diagnóstico não é nosso trabalho. Observação e registro são.

● Compare a criança com ela mesma, não com a criança da mesa ao lado. A referência é a pele dela própria em uma área não afetada.

● Use mais sentidos além da visão. Calor, inchaço, textura diferente, endurecimento e reação ao toque falam quando a cor não fala.

● Trate mudança de comportamento como sinal, e não como manha. Choro novo em um momento específico da rotina é informação.

● Registre por escrito com data, horário, parte do corpo e o que a criança fez. Registro vago não protege ninguém.

● Comunique a família e oriente a busca pela unidade de saúde. E não aceite ouvir que não é nada porque não está vermelho.

● Leve isso para a formação da equipe. Uma reunião pedagógica com imagens dos mesmos quadros em tons de pele diferentes muda mais o cuidado do que dez conversas sobre empatia.

Para encerrar. Equidade na educação infantil não é só garantir que toda criança aprenda a escrever o próprio nome. É garantir que toda criança seja vista quando dói. Empatia sozinha não dá conta. Empatia sem repertório é boa intenção que não chega ao corpo da criança. O que precisamos ampliar é o olhar, e olhar se educa.

Tatiane Santos

É pedagoga, especialista em educação antirracista e consultora em formação de educadores. Conhecida como Pretinha Educadora, atua como coordenadora pedagógica na rede pública de São Paulo e desenvolve projetos voltados à equidade racial na primeira infância. Coautora do livro infantil Super Black – O poder da representatividade, e autora do livro o Sonho de Dandara

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