Nem sempre é falta de libido: o que a ciência descobriu sobre o desejo feminino

Você não sente vontade de fazer sexo "do nada" e acha que perdeu a libido? Para muitas mulheres, especialmente na perimenopausa, na menopausa e em relacionamentos de longa duração, o desejo pode surgir durante a intimidade — e não antes dela. Entenda o que é o desejo responsivo
Mulher na cama Foto: Magnific

Você sente que não tem mais vontade de fazer sexo com seu parceiro (a) e isso gera um monte de outras dúvidas: “Será que perdi a libido?”, “É culpa da menopausa?”, “Será que deixei de sentir atração por ele (a)?”

Embora alterações hormonais, doenças, medicamentos e problemas no relacionamento possam, sim, interferir no desejo sexual, nem sempre a explicação está aí. Em muitos casos, o que acontece é que a mulher espera sentir um tipo de desejo que simplesmente não corresponde à forma como seu corpo e sua mente funcionam.

Essa mudança de perspectiva ganhou força no início dos anos 2000, quando a psiquiatra e pesquisadora canadense Rosemary Basson, da Universidade da Colúmbia Britânica, propôs um novo modelo para compreender a resposta sexual feminina. A principal descoberta dela foi que, para muitas mulheres, o desejo não aparece antes da relação sexual, mas durante a intimidade, à medida que a excitação vai sendo construída. Esse padrão ficou conhecido como desejo responsivo e mudou a forma como especialistas entendem a libido feminina.

O que é o desejo responsivo?

Durante décadas, acreditava-se que a resposta sexual seguia uma sequência fixa: primeiro surgia o desejo, depois a excitação e, por fim, o orgasmo. Esse modelo descrevia bem a experiência de muitas pessoas, mas deixava de fora uma parcela importante das mulheres.

Ao estudar pacientes que relatavam perda da libido, Basson percebeu que muitas delas continuavam gostando de sexo, tinham orgasmos e se sentiam satisfeitas com a vida sexual. A diferença era que raramente sentiam aquela vontade espontânea de iniciar uma relação.

Em vez disso, o desejo aparecia depois dos primeiros beijos, carícias, abraços, palavras de afeto ou outros estímulos físicos e emocionais. Em outras palavras, elas não precisavam sentir desejo para começar; precisavam começar para sentir desejo.

Então não é falta de libido?

Nem sempre. Segundo Basson, muitas mulheres foram, durante anos, consideradas portadoras de “baixa libido” apenas porque não apresentavam desejo espontâneo — aquele que surge aparentemente do nada, como uma fantasia sexual ou uma vontade repentina de fazer sexo.

Isso, é claro, não significa que toda queixa de diminuição do desejo seja apenas desejo responsivo. Existem condições médicas, alterações hormonais, efeitos colaterais de medicamentos, transtornos de saúde mental e dificuldades no relacionamento que podem afetar a função sexual e precisam ser avaliados por um profissional.

Mas a descoberta da pesquisadora mostrou que, para muitas mulheres, especialmente na perimenopausa, na menopausa e em relacionamentos duradouros, a ausência de desejo espontâneo não significa necessariamente perda da libido. O desejo continua existindo, mas depende das circunstâncias certas para despertar.

O contexto faz toda a diferença

Se o desejo é responsivo, ele não depende apenas dos hormônios. A resposta sexual feminina é influenciada por fatores físicos, emocionais, psicológicos e relacionais. Sentir-se acolhida, respeitada, segura e conectada ao parceiro pode favorecer a excitação. Da mesma forma, estresse, excesso de tarefas, conflitos na relação, cansaço e preocupações constantes podem funcionar como verdadeiros “freios” do desejo.

É por isso que muitas mulheres dizem frases como:

  • “Quando meu parceiro me procura, acho que não estou a fim. Mas, depois que começamos, eu entro no clima.”
  • “Nunca sinto vontade antes, mas quase sempre gosto quando acontece.”
  • “Achei que tivesse perdido a libido, mas percebi que precisava desacelerar.”

São relatos compatíveis com o desejo responsivo e ajudam a explicar por que tantas mulheres interpretam a própria sexualidade de forma equivocada.

Como despertar o desejo responsivo?

Embora cada mulher tenha sua própria experiência, algumas estratégias podem favorecer esse tipo de desejo:

  1. Não espere a vontade aparecer sozinha – Para quem tem desejo responsivo, a excitação costuma vir depois do início da intimidade. Esperar sentir vontade antes de qualquer aproximação pode fazer com que ela nunca apareça. Mas também não precisa se forçar. Haverá momentos em que você não quer e pronto.
  2. Dê tempo para o corpo responder – Ao contrário do desejo espontâneo, o responsivo costuma precisar de mais tempo. Beijos demorados, abraços, massagens e carícias ajudam o cérebro e o corpo a entrar gradualmente em um estado de excitação.
  3. Invista na conexão emocional – Conversar, rir juntos, demonstrar afeto e cultivar momentos de intimidade fora do quarto também fazem parte da vida sexual. Carinho e toque em momentos que não têm o objetivo de terminar em sexo também são muito importantes. Para muitas mulheres, sentir-se emocionalmente conectada é um dos gatilhos para o desejo.
  4. Identifique o que está “pisando no freio” – Emily Nagoski, pesquisadora que expandiu o conceito de Basson, compara o desejo sexual a um carro: tão importante quanto pisar no acelerador é tirar o pé do freio. Estresse, sobrecarga mental, ressentimentos, falta de privacidade, dores durante a relação e preocupações constantes podem impedir que a excitação aconteça, mesmo quando há atração pelo parceiro.
  5. Converse sobre isso – Entender que o desejo pode surgir durante a intimidade reduz a pressão sobre o casal. Quando ambos sabem que a ausência de vontade imediata não significa falta de amor ou de atração, diminuem as cobranças, os mal-entendidos e a ansiedade de desempenho.

A menopausa influencia, mas não explica tudo

A queda do estrogênio durante a perimenopausa e a menopausa pode causar ressecamento vaginal, dor durante a relação e mudanças na resposta sexual. Essas alterações merecem atenção médica e, quando necessário, tratamento.

Mas vale lembrar que a sexualidade feminina é muito mais complexa do que a ação dos hormônios. Emoções, contexto, qualidade do relacionamento, saúde física, autoestima e estilo de vida também exercem um papel importante.

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