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3 lições da Espanha sobre como incentivar o esporte desde a infância
A Espanha voltou ao topo do futebol mundial, mas o título conquistado no último domingo (19) começou a ser construído muito antes do apito do juiz, autorizando o início da partida. Por trás de uma geração campeã existe um trabalho de décadas que envolve escolas, clubes, governos locais e políticas públicas voltadas para ampliar o acesso de crianças e adolescentes ao esporte.
Embora nenhum país tenha uma fórmula mágica para formar campeões, documentos oficiais do governo espanhol mostram que a prioridade por lá não é apenas desenvolver atletas de alto rendimento, mas criar oportunidades para que mais crianças pratiquem atividade física de forma regular, segura e prazerosa.
O próprio Conselho Superior de Esportes (CSD), órgão responsável pelas políticas esportivas da Espanha, afirma que o objetivo é garantir “acesso universal a uma prática esportiva de qualidade” para toda a população.
Medalhas e troféus são bem-vindos, é claro, mas os benefícios vão muito além disso: crianças mais ativas, hábitos saudáveis e, como consequência, uma base muito maior de jovens talentos.
Ainda que o Brasil tenha mais estrelas que a Espanha, sendo pentacampeão, estamos há 24 anos amargando derrotas na Copa do Mundo. As gerações mais jovens sonham em ver a seleção levantando a taça, mas o sonho vai ficando distante.
Será que se inspirar em modelos de outros países, como o da própria Espanha, pode ajudar a mudar esse cenário? Veja três lições que o Brasil pode tirar dos espanhóis:
- O esporte é tratado como parte da educação — e não apenas como competição
Na Espanha, o chamado “esporte em idade escolar” não se resume às competições. Segundo o Conselho Superior de Esportes, engloba todas as atividades esportivas organizadas realizadas fora das aulas de Educação Física, seja nas escolas, em clubes, associações ou programas municipais. Os objetivos incluem contribuir para a formação integral da criança, estimular a cooperação, o trabalho em equipe, o desenvolvimento físico e o uso saudável do tempo livre.
Essa visão também aparece na Estratégia Nacional de Promoção do Esporte contra o Sedentarismo e a Inatividade Física (2025–2030), que trata a atividade física como uma política de saúde pública e de bem-estar, e não apenas como uma ferramenta para revelar atletas. Entre as metas estão combater o sedentarismo, melhorar a saúde mental e incentivar hábitos ativos desde a infância. Isso significa que a criança é incentivada a praticar esportes mesmo sem o objetivo de disputar campeonatos ou seguir carreira profissional.
- O acesso ao esporte começa perto de casa
Outro diferencial é o papel dos municípios. Na Espanha, grande parte das atividades esportivas para crianças acontece em parceria entre governos locais, escolas, clubes e federações esportivas. Os programas podem ser realizados em centros escolares, instalações municipais ou clubes da comunidade, permitindo que as famílias encontrem opções próximas de casa. Em muitas cidades espanholas, centros esportivos municipais oferecem modalidades como natação, atletismo, ginástica, basquete, handebol, vôlei, judô e futebol, frequentemente com preços subsidiados ou gratuitos para determinados públicos. A lógica é simples: quanto maior o acesso, maior a chance de que crianças e adolescentes incorporem o esporte à rotina.
Essa estratégia aparece também na nova política nacional contra o sedentarismo, que prevê ações articuladas entre governo central, comunidades autônomas e administrações locais para facilitar o acesso da população à prática esportiva.
- Antes de formar campeões, é preciso formar crianças ativas
Talvez a maior lição seja esta. Quando se fala na base do futebol espanhol, é comum lembrar de centros de excelência como La Masia, do Barcelona. Mas eles representam apenas o topo de uma estrutura muito maior.
Os documentos do governo deixam claro que a prioridade é ampliar o número de crianças praticando esportes, respeitando seu desenvolvimento físico, emocional e social. O Plano Integral para a Atividade Física e o Esporte em Idade Escolar foi elaborado justamente para promover uma prática esportiva de qualidade e acessível a todos, envolvendo escolas, universidades, municípios e entidades esportivas.
Além disso, o Conselho Superior de Esportes destaca que as atividades esportivas escolares não precisam estar centradas em competições altamente regulamentadas, valorizando também experiências recreativas e educativas.
Esse conceito está alinhado ao que defendem sociedades científicas internacionais de medicina esportiva e desenvolvimento infantil: antes da especialização em uma modalidade, crianças se beneficiam de um repertório amplo de movimentos e da participação em diferentes atividades físicas. Essa diversidade favorece o desenvolvimento motor, aumenta o prazer pela prática esportiva e pode reduzir o risco de abandono precoce do esporte.
O que o Brasil pode aprender?
Nem toda criança que entra em uma quadra ou em um campo vai levantar uma taça no futuro. Este, aliás, nem deveria ser o objetivo principal.
A experiência espanhola mostra que investir em esporte desde a infância pode trazer benefícios muito maiores do que formar campeões. Crianças fisicamente ativas tendem a desenvolver habilidades motoras, fortalecer vínculos sociais, aprender a trabalhar em equipe e construir hábitos que podem acompanhá-las por toda a vida.
Os títulos internacionais acabam sendo consequência de uma base ampla e consistente. Antes de formar atletas de elite, a Espanha decidiu formar uma geração de crianças que simplesmente tivesse mais oportunidades para brincar, correr, experimentar diferentes modalidades e descobrir o prazer de se movimentar. É uma lição que vale tanto para quem sonha com a próxima Copa quanto para quem deseja apenas criar filhos mais saudáveis e ativos.
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