Menopério: quando o puerpério encontra a menopausa

Cada vez mais comum com a maternidade tardia, a sobreposição entre puerpério e perimenopausa mistura mudanças hormonais intensas, exaustão física e desafios emocionais. A junção já ganhou até nome: “menopério”

O corpo acabou de passar por uma gestação, um parto e uma revolução hormonal. Ao mesmo tempo, começam os primeiros sinais da transição para a menopausa: menstruação irregular, ondas de calor, insônia, alterações de humor, névoa mental. Para um número cada vez maios de mulheres, essas duas fases estão acontecendo simultaneamente. O fenômeno tem sido informalmente apelidado de “menopério”.

O termo, que, pelo menos por enquanto, não é reconhecido oficialmente pela medicina, surgiu para descrever a sobreposição entre o puerpério e a perimenopausa (fase de transição para a menopausa).

Dados do IBGE mostram que, de fato, as mulheres estão deixando a maternidade para mais tarde. Hoje, é mais comum que elas engravidem na faixa dos 35, 40 anos ou mais, justamente quando muitas já começam a apresentar oscilações hormonais típicas do climatério. Desta forma, elas acabam enfrentando duas transformações profundas ao mesmo tempo. É como uma dupla tempestade hormonal.

O puerpério já é conhecido por provocar mudanças físicas e emocionais intensas. Após o parto, há uma queda abrupta de hormônios como estrogênio e progesterona. Isso sem falar nas demandas da amamentação, privação de sono e adaptação à maternidade. Já a perimenopausa é marcada justamente pela instabilidade hormonal. Os ovários passam a funcionar de forma irregular, o que pode causar alterações menstruais, ondas de calor, ansiedade, irritabilidade, dificuldade para dormir e fadiga. Quando essas fases se sobrepõem, os sintomas podem se potencializar — e muitas mulheres nem percebem o que está acontecendo.

Às vezes, você acha que tudo é apenas cansaço do pós-parto, quando parte dos sintomas já pode estar relacionada à transição menopausal.

Sintomas que podem se confundir

Entre os sinais mais comuns do chamado “menopério” estão:

  • Exaustão intensa;
  • Alterações de humor;
  • Ansiedade ou irritabilidade;
  • Dificuldade de concentração;
  • Insônia;
  • Ondas de calor;
  • Baixa libido;
  • Irregularidade menstrual;
  • Ressecamento vaginal.


Como muitos desses sintomas também aparecem no puerpério tradicional, o quadro pode passar despercebido ou ser minimizado. Além disso, mulheres nessa fase frequentemente enfrentam uma pressão emocional específica: cuidar de um bebê pequeno enquanto lidam com mudanças corporais, envelhecimento, carreira e, muitas vezes, pais idosos.

Especialistas apontam que o aumento da expectativa de vida e o adiamento da maternidade mudaram profundamente a experiência reprodutiva feminina. Décadas atrás, era raro que o pós-parto coincidisse com o climatério. Hoje, essa combinação se tornou muito mais possível, especialmente depois dos 40.

Os avanços da reprodução assistida também contribuíram para esse cenário, permitindo que mais mulheres engravidem em fases mais tardias.

Embora o “menopério” esteja ganhando espaço nas redes sociais e em debates sobre maternidade real, muitas mulheres relatam sentir culpa ou estranhamento ao perceber sintomas que fogem daqueal narrativa romantizada do pós-parto.

Para conseguir passar por essas duas fases de uma forma mais saudável, é importante contar com duas coisas: informação e acolhimento. Reconhecer que essas fases podem coexistir ajuda a reduzir o isolamento e ajuda na busca por apoio especializado.

Em geral, os sintomas da perimenopausa podem ser amenizados com a terapia de reposição hormonal, mas o recurso nem sempre é recomendado para quem amamenta. Em alguns casos, isso pode acontecer, mas a decisão precisa ser individualizada. Isso porque hormônios com estrogênio podem interferir na produção de leite, especialmente nos primeiros meses após o parto. Dependendo dos sintomas e da fase da amamentação, médicos podem optar por doses mais baixas, alternativas sem estrogênio ou tratamentos locais, como estrogênio vaginal de baixa absorção. A avaliação leva em conta fatores como intensidade dos sintomas, qualidade de vida da mulher, idade, quantidade de leite produzida e saúde do bebê.

Em alguns casos, mudanças de estilo de vida, acompanhamento psicológico, melhora do sono e avaliação hormonal podem ajudar bastante na qualidade de vida.

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