Salto de desenvolvimento depois de 1 ano existe? O que diz a ciência

Mudanças no sono, aumento das crises de birra, mais necessidade de colo e, de repente, uma explosão de novas habilidades. Quando tudo isso acontece junto ou em sequência, muitos pais associam aos famosos “saltos de desenvolvimento". Mas será que é isso mesmo? Entenda o que dizem as pesquisas mais recentes

 

 

Tudo ia bem até que parece uma “virada de chave”. Do mais absoluto nada, seu filho está mais choroso, manhoso, mais sensível, não desgruda… Isso sem falar nos ataques inesperados e repetidos de birra. Será que é sinal de que ele está passando por um salto de desenvolvimento?

A teoria ficou conhecida mundialmente com o livro The Wonder Weeks (“As Semanas Mágicas”), que defende que os bebês passam por períodos previsíveis de intensa reorganização cerebral, seguidos pela aquisição de novas habilidades.

Embora tenha convencido milhões de famílias e até inspirado aplicativos, é importante olhar para a questão com cuidado, porque o cenário é mais complexo.

De fato, o cérebro infantil passa, sim, por muitas transformações rápidas ao longo dos primeiros anos de vida. Apesar disso, ainda não existem evidências científicas consistentes o bastante de que essas mudanças aconteçam em um calendário fixo, que siga o mesmo ritmo para todas as crianças. Isso significa que não dá para prever que isso acontecerá em uma determinada semana ou mês específico.

Essa diferença é importante porque o desenvolvimento infantil é um processo contínuo e profundamente individual. Fatores genéticos, ambiente, oportunidades de interação, saúde e até o temperamento da criança influenciam quando cada nova habilidade aparecerá.

Em 2022, um grupo de especialistas, com pediatras, neurologistas, psicólogos e terapeutas ocupacionais, se reuniu para revisar os marcos do desenvolvimento utilizados pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) e pela American Academy of Pediatrics (AAP).

Uma das principais mudanças da atualização, que foi publicada no periódico Pediatrics, foi deixar de utilizar a idade média em que uma habilidade costuma surgir. Em vez disso, eles passaram a considerar apenas aquelas que pelo menos 75% das crianças já conseguem realizar em determinada idade. Segundo os autores, isso ajuda famílias e profissionais a identificarem mais cedo possíveis atrasos, sem criar expectativas irreais sobre o momento exato em que cada criança deve aprender algo novo.

Portanto, em vez de acompanhar calendários de “saltos”, a recomendação é observar se a criança está progredindo ao longo do tempo e conquistando habilidades compatíveis com sua faixa etária.

Entre 1 e 2 anos, esse progresso costuma ser especialmente visível. Muitas crianças começam a correr, ampliam rapidamente o vocabulário, entendem comandos mais complexos, passam a brincar de faz de conta e demonstram um desejo crescente de fazer tudo sozinhas. Também é comum que surjam mais frustrações e as famosas birras, consequência natural de um cérebro que já deseja independência, mas ainda está aprendendo a lidar com emoções e limitações.

Acontece que a combinação entre novas habilidades e mudanças de comportamento acaba levando muitos pais a acreditarem que a criança está vivendo um “salto”. No entanto, essas fases podem acontecer em momentos diferentes para cada criança e nem sempre vêm acompanhadas de alterações no sono ou maior irritabilidade.

Mas você não está maluca. Ninguém melhor do que os pais para observarem e entenderem as mudanças de comportamento dos pequenos. Muitos realmente percebem que, antes de dominar uma nova habilidade, o filho parece mais sensível ou demanda mais proximidade. O que a ciência ainda não conseguiu demonstrar é que esse padrão siga uma sequência previsível ou universal.

Por isso, os especialistas recomendam cautela com aplicativos e calendários que prometem prever exatamente quando ocorrerá o próximo “salto”. Eles podem gerar uma ansiedade desnecessária quando a criança não apresenta o comportamento esperado ou quando desenvolve uma habilidade muito antes ou muito depois da data prevista.

Em vez de comparar seu filho a um cronograma, observe a trajetória de desenvolvimento. O mais importante não é falar uma nova palavra ou começar a correr em uma semana específica, a evolução contínua e gradual, com acompanhamento nas consultas de rotina. Além, é claro, de oportunidades para brincar, explorar, interagir e aprender.

Sempre que houver dúvidas sobre o desenvolvimento, especialmente se a criança deixar de adquirir habilidades esperadas ou perder competências que já havia conquistado, a recomendação é conversar com o pediatra.

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