Muitas gestantes brasileiras começam o pré-natal, mas nem todas conseguem seguir até o fim, mostra estudo

Pesquisa com mais de 2,5 milhões de nascimentos no Brasil revela que as desigualdades no acompanhamento da gestação aumentam conforme cresce o número de consultas considerado. Raça, escolaridade, idade e região onde a mulher vive influenciam o acesso ao cuidado

Quase todas as gestantes brasileiras entram no pré-natal. Em 2023, 99,4% das mulheres que tiveram filhos no país fizeram pelo menos uma consulta durante a gestação. Mas esse número cai quando se considera a continuidade do acompanhamento: apenas 67,4% chegaram a oito ou mais consultas.

É o que mostra um estudo realizado por pesquisadores do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que analisou 2.537.511 nascimentos registrados no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) em 2023. O trabalho foi publicado neste ano, no periódico International Journal for Equity in Health.

O levantamento escanara uma dura realidade: o acesso ao pré-natal não é igual para todas as mães. E quanto maior o número de consultas usado como referência para avaliar a cobertura, mais evidentes ficam as desigualdades.

Há uma diferença importante entre conseguir entrar no sistema de saúde e conseguir permanecer nele durante toda a gestação. Os dados mostram que essa continuidade também é marcada pelas desigualdades sociais. Entre as mulheres brancas, 74,7% realizaram oito ou mais consultas. Entre as mulheres negras, o percentual foi de 66,1%. Entre as pardas, ficou em 64%. A diferença foi ainda maior entre mulheres indígenas: apenas 37,8% chegaram a oito ou mais consultas. Ou seja, a raça/cor está associada à possibilidade de manter o acompanhamento recomendado durante a gravidez.

Isso não significa que somente a cor da pele determine o acesso, mas esse fator está relacionado a um conjunto de desigualdades sociais e econômicas que podem afetar a vida das mulheres e o acesso aos serviços de saúde.

A idade também pesa

As gestantes adolescentes estão entre os grupos que tiveram menor cobertura de oito ou mais consultas. Segundo o estudo, 55,4% das mães adolescentes chegaram a esse número de consultas.

Para uma menor, manter o acompanhamento pode envolver obstáculos como dependência financeira, dificuldade de transporte, necessidade de conciliar consultas com a escola e falta de apoio familiar. As realidades são diferentes, mas o resultado mostra que a idade também precisa ser considerada quando se pensa em políticas para ampliar o acesso ao pré-natal.

Desigualdade tem endereço

O local de moradia também exerce um impacto. Na Região Norte, apenas 50,8% das gestantes chegaram a oito ou mais consultas. A cobertura foi maior nas regiões mais favorecidas. Ou seja: o acesso à saúde não depende só da possibilidade de marcar uma consulta. É preciso conseguir chegar ao serviço, encontrar atendimento disponível e ter condições de retornar diversas vezes ao longo da gravidez.

Para quem mora longe de uma unidade de saúde, depende de transporte público, precisa trabalhar ou cuida de outros filhos, por exemplo, cada consulta pode representar uma dificuldade adicional.

Por que fazer o pré-natal completo é importante?

O pré-natal não é apenas uma oportunidade para acompanhar o crescimento e o desenvolvimento do bebê. Ao longo das consultas, a equipe de saúde pode identificar alterações na pressão arterial, diabetes gestacional, anemia e outras condições que podem afetar a saúde da mãe e do bebê. Também fazem parte do acompanhamento exames, vacinação, orientações sobre alimentação, parto, amamentação e cuidados com o recém-nascido. Por isso, perder consultas ou interromper o acompanhamento pode significar perder oportunidades de prevenção, diagnóstico e cuidado.

É importante lembrar, porém, que o número de consultas é apenas um dos indicadores de acompanhamento pré-natal. Ter mais consultas não significa automaticamente ter um atendimento de melhor qualidade. A oportunidade, a qualidade e a adequação do cuidado também são fundamentais.

O principal alerta do estudo está justamente nessa diferença entre começar e conseguir continuar. Ampliar o acesso ao pré-natal não envolve apenas convencer as gestantes sobre a importância das consultas, mas entender o que impede algumas mulheres de voltar.

Transporte? Distância? Horário de funcionamento das unidades? Trabalho? Falta de alguém para cuidar dos filhos mais velhos? Dificuldade para conseguir atendimento? Falta de acolhimento? As respostas podem ser diferentes para cada mulher e as políticas públicas precisam considerar essas diferenças.

O direito ao pré-natal precisa caber na vida real

Os números do estudo até mostram uma conquista importante, que é o fato de praticamente todas as gestantes brasileiras conseguirem chegar ao serviço de saúde pelo menos uma vez. Mas também revelam que é preciso olhar para as condições concretas de vida das mulheres e para as barreiras que aparecem entre uma consulta e outra, para que o serviço tenha continuidade.

Garantir o direito ao pré-natal vai muito além de oferecer atendimento. É preciso criar condições para que uma gestante, independentemente de sua raça, idade, escolaridade ou endereço, consiga voltar, ser acompanhada e receber cuidado durante toda a gravidez.

Fonte: Sá da Silva LE et al. Exacerbation of antenatal care inequities as coverage recommendations rise in Brazil: evidence for the inverse equity hypothesis from national health information system data (SINASC) in 2023. International Journal for Equity in Health, 2026.

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