Avós e netos nas férias: como encontrar o equilíbrio entre rede de apoio e cuidar da própria saúde

A convivência entre diferentes gerações fortalece vínculos e faz bem para crianças e pessoas idosas, mas especialistas fazer um alerta: o apoio dos avós durante o recesso não deve acontecer às custas de consultas, exames e outros cuidados essenciais com a própria saúde
Avós com os netos nas férias Foto: Magnific

Julho, mês de férias… Para muitas famílias, é a temporada perfeita para aproximar ainda mais avós e netos. Com o recesso escolar, muitas famílias acabam contando com eles para ajudar na rotina, sobretudo quando as férias dos pais não acompanham. Essa convivência é valiosa para todos, porque as crianças ganham tempo de qualidade, histórias e afeto; os avós, por sua vez, também se beneficiam desse contato, que favorece o bem-estar, fortalece vínculos e dá mais sentido à vida cotidiana.

Mas é fundamental manter o equilíbrio. Isso porque, em muitos casos, essa rede de apoio passa a exigir que os idosos deixem de lado os próprios compromissos. Em vez de comparecer a consultas, exames, sessões de fisioterapia ou atividades físicas, eles acabam reorganizando completamente a agenda para cuidar dos netos durante o recesso.

O alerta é da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Segundo especialistas, o objetivo não é reduzir a participação dos avós na vida das crianças — que é extremamente importante para as famílias e traz benefícios para ambas as gerações —, mas lembrar que esse cuidado precisa caminhar lado a lado com o autocuidado.

Em São Paulo, de acordo com o médico geriatra Eduardo Canteiro Cruz, diretor administrativo da SBGG, o número de faltas de pessoas idosas a consultas e exames pode crescer até 30% durante o mês de julho. Embora ainda não existam dados nacionais consolidados, levantamentos realizados em diferentes estados mostram que o índice de absenteísmo, que normalmente varia entre 20% e 30%, pode chegar perto de 40% nesse período.

“Mais do que um fenômeno relacionado ao inverno, a ausência das pessoas idosas deve-se, em grande parte, ao fato de comporem a rede de cuidado de netos e bisnetos durante as férias escolares, quando nem sempre os pais conseguem estar disponíveis. Dessa maneira, elas acabam priorizando a harmonia familiar e o senso de colaboração em detrimento das próprias necessidades de saúde”, explica o geriatra.

Adiar uma consulta pode trazer consequências

À primeira vista, remarcar uma consulta parece algo simples. Mas, quando isso acontece repetidamente, os impactos podem ser significativos. “O atraso ao comparecimento implica também no atraso do diagnóstico, no tratamento e na estabilização de condições clínicas e cirúrgicas. Também interrompe processos de reabilitação e pode fazer com que a pessoa idosa perca parte dos ganhos conquistados, tornando-se novamente mais vulnerável”, alerta Eduardo.

Em algumas situações, o tempo é um fator decisivo para o sucesso do tratamento. “No câncer, por exemplo, faltar a uma consulta significa assumir um risco maior para o próprio tratamento. Do ponto de vista do sistema de saúde, isso significa desperdiçar um recurso público que já é escasso para o tamanho da necessidade da população. É como se, durante o mês de julho, jogássemos fora três ou quatro de cada dez reais investidos no cuidado em saúde”, aponta.

Convivência, sim. Sobrecarga, não.

Para Elcyana Bezerra Carvalho, terapeuta ocupacional, doutora em Gerontologia e conselheira da SBGG-CE, a participação dos avós é uma das maiores riquezas da vida familiar. Mas ela lembra que existe uma diferença importante entre aproveitar esse tempo com os netos e assumir integralmente os cuidados diários.

“Precisamos compreender que existe uma diferença entre conviver com os netos e assumir a responsabilidade cotidiana pelo cuidado. A convivência faz parte da avosidade e costuma ser prazerosa. Já o cuidado diário exige reorganizar horários, compromissos e a própria rotina”, ressalta.

Quando essa reorganização acontece por semanas seguidas, hábitos importantes para a saúde podem acabar ficando para depois. “O maior desafio da longevidade contemporânea não é encontrar tempo para cuidar dos netos. É garantir que, ao cuidar deles, a pessoa idosa não deixe de cuidar de si. Quando toda a rotina passa a girar em torno das necessidades dos netos, existe o risco de a pessoa idosa adiar aquilo que também é essencial para sua saúde, como atividade física, momentos de descanso, participação social e acompanhamento médico”, aponta.

Na avaliação da especialista, o caminho não é diminuir o contato entre avós e netos, mas encontrar uma forma de preservar esse convívio sem abrir mão do bem-estar de quem também cuida. “As férias escolares representam uma oportunidade única de fortalecer os laços entre gerações e construir memórias que permanecerão por toda a vida”, reforça Elcyana.

Para Eduardo, quando a família compartilha essa responsabilidade, todos saem ganhando. “A convivência intergeracional gera benefícios para todos. O que precisamos evitar é a sobrecarga. A saúde da pessoa idosa também é um bem e não deve ser sacrificada. As férias são uma excelente oportunidade para criar boas memórias, desde que os avós não precisem abrir mão da própria saúde”, finaliza o geriatra.

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Renata Menezes

É jornalista, entusiasta da maternidade e vive a intensidade (e as descobertas!) de ser mãe de um adolescente! Quando não está escrevendo aqui na Canguru News ou viajando com a família, você a encontrará nas quadras, recarregando as energias com suas amigas no time de handebol Master EG. Para ela, a maternidade é uma viagem constante — e ela adora compartilhar cada parada desse roteiro com nossas leitoras

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