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“Deus é Mãe”: ser forte é diferente de precisar suportar tudo sozinha
“Uma gota de leite me escorre entre os seios. Uma mancha de sangue me enfeita entre as pernas”. Antes mesmo de mergulhar na leitura de Deus é Mãe, livro escrito por uma querida amiga, colega de trabalho, mãe e jornalista com anos de experiência em falar sobre maternidade, Malu Echeverria, fui atravessada por esses versos de Conceição Evaristo.
Olhei para o poema “Eu-mulher”, que, com toda a sensibilidade do mundo, foi escolhido para abrir a obra e fiquei por alguns instantes refletindo sobre aquilo. Não são versos delicados. Pelo menos, não no sentido mais convencional da palavra. Mas são fortes, viscerais, um pouco incômodos até. Falam de um corpo que gera, alimenta, sangra e sustenta a vida. Mas, acima de tudo, falam de uma mulher inteira. Não apenas de uma mãe. Já era um aviso que deixava bem claro: aquele não seria “só” mais um livro sobre maternidade.
Ali mesmo já me emocionei, lembrando da força que todas nós, mulheres, carregamos conosco, sendo ou não mães. Mas havia muito mais. Nas primeiras páginas, fiquei presa à história de Pureza Lopes Loyola, uma mãe maranhense que saiu em busca do filho desaparecido nos garimpos do Pará. Ela tinha apenas uma fotografia, uma Bíblia e uma esperança quase impossível de explicar. Acontece que a procura incansável da mãe acabou revelando centenas de trabalhadores submetidos à escravidão contemporânea e ajudou a mudar a história do combate ao trabalho escravo no Brasil. Eu já tinha lido sobre a trajetória de Pureza, mas nunca tinha parado para enxergá-la desta forma, como uma mulher comum movida por um amor extraordinário. Um amor que eu tenho – e você também!
Mas não se engane: a ideia não é trazer aquela velha roupagem de “mãe guerreira” ou “heroína”, que, no fundo, não passa de uma desculpa para que a sociedade continue jogando todo o peso nos nossos ombros. Pelo contrário. O livro questiona por que todo mundo espera que façamos tudo sozinhas.
Confesso que, durante muito tempo, eu mesma achei bonito chamar uma mãe de guerreira. Mas, hoje, penso duas vezes antes de usar esse elogio. Quantas vezes a palavra “forte” serve apenas para esconder uma mulher cansada? Quantas vezes a sociedade aplaude justamente aquilo que deveria combater: a exaustão e a sobrecarga?
Malu é jornalista, mas também é mãe, algo que faz toda a diferença na escrita. Em vez de focar em um relato puramente emocional, ela intercala a própria experiência com estudos científicos, entrevistas, estatísticas e referências que ajudam a entender por que tantas mães sentem culpa, esgotamento e solidão, equilibrando uma história interessante, emocional, única, com dados e fatos abrangentes. Aos poucos, você vai percebendo que o que parecia um problema individual é, na verdade, coletivo. Não, você não está sozinha e essa culpa ou sensação de insuficiência não é só sua.
Sabe aquela lista infinita que nunca sai da cabeça de uma mãe? É consulta do pediatra, a fralda acabando, o uniforme da escola, a vacina, a mochila, a lancheira, o presente da festa… Mesmo quando o corpo finalmente descansa, no sofá ou na cama, a mente continua correndo, a toda velocidade. É impossível não pensar nas próprias listas invisíveis e a carga mental. Me identifiquei muito.
Assim como me vi e me senti abraçada, até por termos carreiras parecidas, pela forma honesta como o livro fala sobre maternidade. Não precisamos parecer perfeitas. Podemos, sim, falar sobre medos, culpa… Precisamos entender que amar profundamente um filho não elimina as dificuldades de ser mãe. Na realidade, as duas realidades convivem o tempo inteiro.
Podemos, enfim, admitir que estamos cansadas e que, por mais que amemos nossas crianças, às vezes, bate uma pontinha de saudade da vida de antes. Afinal, quem não gostaria de ter mais tempo para si? Em um mundo que insiste em dividir mães entre santas e erráticas, “Deus é mãe” ajuda a lembrar que existe um terreno enorme entre esses extremos: a humanidade.
Quando cheguei na última página, lembrei de novo do texto de Conceição Evaristo. Pensei na mulher que sangra, alimenta, antevê, dá a vida e “violenta os tímpanos do mundo”. O livro ajuda mesmo a romper um silêncio antigo, que treinou gerações de mulheres a acreditarem que ser mãe era dar conta de tudo.
Deus é Mãe mostra com delicadeza, firmeza e muita pesquisa que não, ser mãe nunca deveria significar estar sozinha. A minha querida amiga Malu Echeverria e com quem já tive o prazer de trabalhar juntinhas, lado a lado, obrigada por este presente!!!

Deus é mãe, Editora Feminas, 178 páginas, R$ 45
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Renata Menezes
É jornalista, entusiasta da maternidade e vive a intensidade (e as descobertas!) de ser mãe de um adolescente! Quando não está escrevendo aqui na Canguru News ou viajando com a família, você a encontrará nas quadras, recarregando as energias com suas amigas no time de handebol Master EG. Para ela, a maternidade é uma viagem constante — e ela adora compartilhar cada parada desse roteiro com nossas leitoras
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