O futebol também é das crianças. Então por que a publicidade pensa apenas nos adultos?

O anúncio do patrocínio do Corinthians pela plataforma de conteúdo adulto Fatal Fans provocou críticas e reacendeu uma discussão importante: quais são os limites da publicidade em um esporte acompanhado por milhões de crianças e adolescentes? Organizações de defesa da infância afirmam (com toda a razão!) que o futebol também precisa ser pensado como um espaço de proteção aos menores
Criança no estádio de futebol Foto: Magnific

Quando uma criança escolhe um time de futebol, seja por gosto próprio, por influência da família ou dos amigos, não se trata apenas de acompanhar os jogos. É muito mais do que isso: ela quer vestir a camisa, aprender os cantos da torcida, passa a querer saber quem são os jogadores, vira fã deles e passa a reconhecer cada detalhe do clube, das cores ao escudo, dos patrocinadores aos ídolos.

Por isso, o novo patrocínio do Corinthians pela Fatal Fans, plataforma de conteúdo adulto ligada ao grupo Fatal Model, provocou uma discussão que ultrapassa o universo esportivo e causou uma enorme reação de pais, educadores, pediatras, especialistas, ativistas pela infância… Muitos deles, inclusive, declaram-se torcedores do popular clube paulistano e ficaram indignados com a notícia. E não é para menos.

O contrato, anunciado pelo clube, prevê que a marca esteja presente nas equipes de futebol masculino e feminino, além do futsal e do basquete. A empresa atua legalmente e oferece um serviço destinado exclusivamente a maiores de 18 anos. Mas não dá para deixar de lado uma questão fundamental: será que é adequado que marcas voltadas ao público adulto ocupem espaços tão presentes na vida de crianças e adolescentes?

Não dá para normalizar a situação e a história fica ainda mais complexa quando a gente lembra que o Corinthians se tornou referência, nos últimos anos, em campanhas de conscientização sobre violência contra a mulher. A iniciativa “Respeita as Minas”, lançada em 2016, colocou o clube na linha de frente do combate ao machismo, ao assédio e à violência de gênero no esporte, tornando-se um exemplo para outras equipes.

Por isso, muitos torcedores e especialistas apontaram uma aparente contradição entre essa trajetória e a associação comercial com uma plataforma cuja marca é reconhecida pelo mercado de conteúdo adulto.

E tem mais: é preciso lembrar do ambiente em que essa publicidade será exibida.

O futebol também pertence às crianças

O futebol é um dos maiores espaços de convivência infantil no Brasil. Milhões de crianças acompanham partidas pela televisão, seguem jogadores nas redes sociais, colecionam álbuns de figurinhas, usam camisas oficiais e frequentam os estádios com suas famílias. O Corinthians, por exemplo, possui uma das maiores torcidas do país, estimada em mais de 40 milhões de pessoas, o que evidencia o enorme alcance de sua marca entre diferentes gerações.

Embora não existam pesquisas que indiquem quantos desses torcedores sejam menores de 18 anos, basta olhar para qualquer arquibancada para perceber que crianças são uma parte significativa desse público. Diante disso, não dá para tratar o futebol como um espaço exclusivamente adulto.

A preocupação não é nova

Muito antes do caso Corinthians, o Instituto Alana, por meio do programa Criança e Consumo, já alertava para a crescente presença de publicidade destinada a adultos no futebol.

Recentemente, a organização pediu ao governo federal mudanças na Portaria do Jogo Responsável, responsável por regulamentar a publicidade das apostas esportivas, que já tem um potencial bastante nocivo.

O objetivo é impedir que anúncios de bets ocupem espaços frequentados por crianças e adolescentes, como estádios, arenas esportivas e outros ambientes de entretenimento familiar. Embora menores de idade sejam proibidos de apostar, eles convivem diariamente com esse tipo de publicidade durante transmissões esportivas e nos próprios estádios. Mesmo assim, existem casos de adolescentes que se viciam nos jogos e causam danos à própria vida e à vida de toda a família.

O caso envolvendo o Corinthians amplia a discussão: se já existe preocupação com a exposição das crianças às casas de apostas, quais deveriam ser os limites para outras marcas destinadas exclusivamente ao público adulto?

Crianças não enxergam a publicidade como os adultos

As crianças ainda estão formando sua capacidade crítica para compreender estratégias de marketing. Antes mesmo de entenderem o que uma empresa vende, elas aprendem a reconhecer logotipos, slogans e patrocinadores associados aos seus ídolos e aos clubes pelos quais torcem. Por isso, a publicidade dirigida — ou incidentalmente exposta — ao público infantil recebe proteção especial na legislação brasileira.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que crianças e adolescentes têm direito à proteção integral. Já o Código de Defesa do Consumidor considera abusiva a publicidade que se aproveita da deficiência de julgamento da criança.

Além disso, especialistas em direitos da infância defendem que o princípio do melhor interesse da criança também deve orientar decisões relacionadas aos ambientes esportivos e de entretenimento.

O debate já chegou ao Legislativo paulista. As deputadas estaduais Marina Helou (Rede) e a vereadora Marina Bragante (Rede) defendem regras mais rígidas para a publicidade de produtos destinados exclusivamente ao público adulto em ambientes frequentados por crianças e adolescentes. Em São Paulo, Bragante já havia apresentado um projeto para proibir a propaganda de casas de apostas e de bebidas alcoólicas em equipamentos esportivos, culturais e de lazer utilizados por crianças e adolescentes. Agora, após a repercussão do patrocínio do Corinthians pela Fatal Fans, Marina Helou protocolou um projeto de lei que amplia essa discussão ao propor a proibição da publicidade e do patrocínio de casas de apostas e também da divulgação de serviços e plataformas de conteúdo adulto em espaços públicos e concedidos pelo Estado. Para as parlamentares, a medida busca compatibilizar a liberdade econômica com o dever constitucional de proteção integral da infância e da adolescência.

A ativista feminista e pesquisadora em políticas públicas Lari Agostini lançou um abaixo-assinado pedindo que o Corinthians reveja o contrato com a plataforma de conteúdo adulto e que clubes de futebol deixem de associar suas marcas a empresas desse segmento. No texto da petição, ela argumenta que o futebol é um espaço de formação cultural para milhões de crianças e adolescentes e que a exposição de marcas ligadas à pornografia contribui para normalizar esse tipo de conteúdo entre o público infantojuvenil. A campanha ganhou adesão nas redes sociais e soma apoio de especialistas e influenciadoras que defendem maior proteção da infância diante da publicidade voltada a adultos.

Embora tratem de produtos diferentes — apostas esportivas e plataformas de conteúdo adulto —, todas as propostas partem do mesmo princípio: o futebol é um ambiente compartilhado por famílias e crianças e, por isso, a publicidade exibida nesse espaço deve considerar a proteção integral da infância, prevista na Constituição e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

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