Do futuro, mãe tranquiliza quem tem filhos pequenos com pouca diferença de idade: “Vai dar certo e tem partes lindas”

Rotina intensa, culpa, noites mal dormidas e muita bagunça. Por outro lado, aprendizados compartilhados e vínculos que podem durar a vida toda. Criar irmãos com pouca diferença e idade é desafiador, mas também tem vantagens
Mãe de duas crianças com idades próximas Foto: Magnific

Algumas famílias planejam ter filhos com pouca diferença de idade, para viver o “sufoco” de uma só vez. Outras acabam vivendo essa experiência sem que ela esteja exatamente nos planos. Seja qual for o caso, é comum que os pais escutem críticas, julgamentos e aquelas perguntas irônicas, como: “Vocês sabem como evitar isso, né?” ou “Não tem televisão em casa?”.

Mas cada família tem sua realidade, suas decisões e já passou da hora de a sociedade respeitar isso. A educadora parental Ana Luisa Meirelles, cofundadora da Universidade de Pais e host do podcast Café com Pais, viveu isso e, além da experiência como profissional, ela tem lugar de fala real para abordar o tema. “Meus filhos têm 1 ano e meio de diferença, e eu costumo dizer que foi como ter gêmeos ‘light’. Não são gêmeos de verdade, mas a logística se aproxima”, analisa.

Os primeiros anos exigem fôlego

Para Ana Luisa, sem dúvida, o desafio mais imponente é a demanda física dos primeiros anos. “Você tem dois bebês em fases diferentes, mas que exigem atenção pesada ao mesmo tempo. Enquanto um está aprendendo a andar, o outro está começando a falar. Enquanto um precisa de soneca, o outro está elétrico. É um malabarismo constante”, explica.

Além da logística, existe um sentimento bastante comum entre mães e pais: a culpa. “É aquela sensação de que você nunca está dando conta de nenhum dos dois 100%”, afirma a especialista. Ela também lembra que os custos financeiros podem pesar, já que despesas como fraldas, escola e consultas acabam acontecendo simultaneamente.

Também tem um lado bom

Apesar dos desafios, Ana Luisa acredita que ter filhos próximos em idade pode trazer benefícios importantes para toda a família. “Essa parte é linda. A diferença de 1 ano e meio fez com que meus filhos crescessem como companheiros de verdade. Eles compartilham o mesmo universo, os mesmos desenhos, mesmas brincadeiras, mesma fase escolar”, conta. Hoje, aos 15 e 17 anos, eles continuam muito próximos.

“O mais novo aprende muito mais rápido porque vive imitando o mais velho — a fala, os gestos, até o jeito de pensar”, descreve. Além disso, a convivência diária favorece habilidades importantes, como negociar, esperar a vez, compartilhar e resolver conflitos.

Como fazer com que nenhum filho se sinta deixado de lado

Uma das maiores preocupações das famílias é conseguir dar atenção individual para cada criança. Para Ana Luisa, a solução não está na quantidade de tempo, mas na qualidade da presença. “O que funcionou comigo foi criar momentos individuais, mesmo que curtos. Quinze minutinhos por dia com cada um, sem celular e sem interrupções”, ensina.

Ela também recomenda envolver o filho mais velho nos cuidados com o bebê, mas sem transformá-lo em ajudante oficial da casa. “Convidar para escolher uma roupa ou participar de um pequeno cuidado ajuda a criança a se sentir importante, não substituída”, detalha.

Outro ponto fundamental é acolher os sentimentos difíceis. “Quando o mais velho fala ‘você só gosta do bebê’, não ignore. Acolha esse sentimento antes de tentar corrigir ou explicar”, diz ela.

Brigas fazem parte

Quem tem irmãos sabe: conflitos são inevitáveis. E, segundo a educadora parental, isso não significa que a relação seja ruim. “Briga vai ter. O segredo não é evitar, mas saber como lidar”. Uma das estratégias é não querer assumir o papel de juiz o tempo todo. Em vez de decidir quem está certo ou errado, os pais podem ajudar as crianças a encontrarem soluções juntas. Ela também sugere valorizar atitudes de cooperação e dizer não às comparações. “Frases como ‘seu irmão já consegue’ são veneno para a relação. Cada criança tem seu tempo”, afirma.

Rotina é sobrevivência

Para quem vive essa fase, Ana Luisa faz um alerta: “Com 1 ano e meio de diferença, rotina não é opção — é questão de sobrevivência”. Padronizar horários, preparar mochilas e lancheiras na noite anterior, criar sistemas visuais e distribuir pequenas responsabilidades entre as crianças são medidas que ajudam a reduzir o estresse do dia a dia.

Mas ela também faz questão de lembrar que a perfeição não deve ser uma meta. “Nem todo dia vai ser organizado. Tem dia que é só sobreviver e está tudo bem”, observa.

O maior mito sobre filhos com pouca diferença de idade

Se existe uma ideia equivocada que Ana Luisa gostaria de desconstruir é a de que criar filhos próximos em idade é necessariamente um caos permanente. É claro que existem dias difíceis, mas a experiência oferece algo valioso em troca. “O que ninguém conta é o lado bom: ver os dois crescendo lado a lado, compartilhando tudo, virando cúmplices”, destaca.

Ana conclui com uma mensagem de acolhimento para quem está vivendo essa fase agora: “Você tem o dobro de trabalho, mas também o dobro de amor, o dobro de graça e o dobro de momentos que aquecem o coração. A gente não precisa dar conta de tudo. A gente só precisa estar junto”.

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