Juíza faz alerta sobre apostas online: “Pais precisam bloquear acesso”

Idealizadora do Protocolo Eu Te Vejo, a juíza da Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro Vanessa Cavalieri afirma que já chegam à Justiça casos de adolescentes com comportamento violento relacionado ao vício em apostas
Menino com celular Foto: Magnific

A juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro e idealizadora do Protocolo Eu Te Vejo, publicou um vídeo nas redes sociais para alertar sobre o avanço das apostas online entre crianças e adolescentes. Conhecida nacionalmente pela atuação no enfrentamento ao bullying, ao cyberbullying e à violência contra crianças e adolescentes, a magistrada agora chama atenção para outro problema que, segundo ela, já aparece com frequência nos processos judiciais: o vício em apostas eletrônicas.

“As bets têm atingido milhões de famílias no Brasil, que comprometem toda sua renda e se endividam para continuar apostando. Esse vício já atinge crianças e adolescentes, mais os meninos do que as meninas, principalmente aqueles que são loucos por futebol”, afirma.

Segundo a juíza, o problema já extrapola o ambiente virtual. “Já estão chegando na Justiça casos de adolescentes que agrediram fisicamente suas mães e avós porque queriam mais dinheiro para apostar”, relata.

Vanessa conta que um episódio ocorrido há cerca de dois anos motivou o alerta às famílias. “Há dois anos, chegou aqui na Vara da Infância e Juventude o caso de um adolescente de 16 anos que espancou brutalmente a avó que o criou desde pequeno, porque ela mudou a senha do cartão de benefício do INSS dela. Ele estava viciado em apostas eletrônicas. Desde então, tenho alertado as famílias sobre a importância de bloquear o acesso de crianças e adolescentes a jogos de azar”, revelou.

E o caso, infelizmente, não é isolado. Por isso, para a magistrada, a prevenção deve ir além das conversas dentro de casa. “Não adianta só conversar com seu filho e orientá-lo a não jogar. Faça a mesma coisa que você faria se alguém desse drogas para o seu filho. É seu papel, como adulto, impedi-lo de usar”, reforça.

O que os pais podem fazer?

A principal orientação da juíza é utilizar ferramentas de controle parental disponíveis em celulares, tablets e computadores para impedir o acesso às plataformas de apostas. “Para isso, use o aplicativo de controle parental de sua preferência e bloqueie o acesso à categoria ‘Jogos de azar’. Assim, ele não vai conseguir apostar. Criança protegida é criança feliz”, acrescenta.

Embora a participação de menores de 18 anos em apostas seja proibida por lei, pesquisas mostram que muitos adolescentes conseguem acessar essas plataformas. Um levantamento do UNICEF mostrou que 22% dos adolescentes que já apostaram disseram ter começado aos 11 anos ou menos, enquanto os demais iniciaram a prática a partir dos 12 anos. Outra pesquisa, realizada pelo DataSenado, revelou que a maioria dos apostadores brasileiros tem entre 16 e 39 anos, e que os homens representam 62% desse público.

No vídeo, Vanessa Cavalieri afirma que médicos já comparam o potencial de dependência das apostas ao de drogas altamente viciantes. “As bets são tão viciantes que já são chamadas pelos médicos de fentanil brasileiro”, destaca.

A expressão tem sido utilizada por alguns profissionais de saúde para ilustrar o alto potencial de dependência associado aos jogos de aposta online. No entanto, ela é uma comparação de impacto e não uma classificação médica oficial.

Para a juíza, o mais importante é que pais e responsáveis compreendam que o acesso de crianças e adolescentes às plataformas não deve ser tratado apenas como uma questão de escolha individual.

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