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Nunca é cedo demais para prevenir: por que a conversa sobre drogas precisa começar cedo
“Meu filho ainda é pequeno para falar sobre isso”. Se você tem essa opinião, é melhor repensar. Segundo pediatras, quando o assunto é prevenção ao uso de drogas, esperar a adolescência pode significar perder oportunidades importantes de proteção.
É justamente esse o alerta da campanha Julho Branco: com consciência, sem drogas, promovida pela Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). A iniciativa busca conscientizar famílias, educadores e profissionais de saúde sobre os riscos do consumo precoce de álcool, cigarro e outras drogas, reforçando que a prevenção começa muito antes da primeira oferta.
Os números ajudam a explicar a urgência. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, mostram que a experimentação de bebidas alcoólicas entre estudantes do 9º ano passou de 52,9% em 2012 para 63,2% em 2019. No mesmo período, a experimentação de drogas também aumentou, passando de 8,2% para 12,1%, com crescimento inclusive da exposição antes dos 14 anos.
Para Tania Zamataro, presidente do Núcleo de Estudos de Combate ao Uso de Drogas da SPSP e coordenadora da campanha, o pediatra é um dos principais aliados das famílias nessa missão. “Nesse contexto, o pediatra ocupa uma posição estratégica, pois acompanha o crescimento e o desenvolvimento do paciente, estabelecendo uma relação de confiança com ele e sua família, sendo capaz de identificar precocemente fatores de risco para utilização de drogas”, explica.
Segundo a especialista, entre esses fatores estão dificuldades familiares, problemas emocionais, transtornos de saúde mental, baixa autoestima, dificuldades escolares, influência dos pares e a exposição ao consumo de álcool e tabaco dentro da própria casa.
Ela acrescenta: “Além disso, eles podem reconhecer sinais iniciais de experimentação e uso de drogas antes que evoluam para um padrão de consumo mais grave”.
Prevenção no dia a dia
Muito antes de uma conversa sobre drogas, crianças aprendem observando os adultos. A forma como a família lida com bebidas alcoólicas, cigarro e outras substâncias, o espaço para o diálogo e a construção de vínculos de confiança são fatores que ajudam a reduzir vulnerabilidades.
Para Claudio Barsanti, coordenador das Campanhas da Sociedade de Pediatria de São Paulo, esse trabalho precisa começar cedo porque o contato com essas substâncias também tem acontecido cada vez mais cedo. “Pediatras precisam estar preparados para orientar os pais e os seus pacientes sobre essa questão, lembrando que as escolas também são muito importantes nesse processo”, diz ele.
O médico destaca que a prevenção é mais eficaz do que qualquer intervenção posterior. “Quando pensamos no combate ao consumo de drogas por uma criança ou um adolescente, o mais importante é prevenir que eles tenham contato com qualquer tipo de substância”, afirma.
A campanha também lembra que crianças e adolescentes nem sempre iniciam o contato com drogas por curiosidade apenas. Muitas vezes, o comportamento é influenciado pelo ambiente em que vivem e pelo exemplo dos adultos. Por isso, além das consultas pediátricas, a prevenção passa por conversas frequentes, acolhimento, escuta sem julgamentos e informações adequadas para cada faixa etária.
Barsanti lembra que aproveitar as consultas de rotina para abordar esse tema pode fazer toda a diferença. “Dessa forma, reservar um tempo na consulta pediátrica voltado à abordagem dessa questão, certamente favorece uma intervenção preventiva”, conclui o médico.
Prevenir não significa falar sobre drogas o tempo todo, mas construir, desde cedo, um ambiente em que a criança se sinta segura, tenha autoestima fortalecida, saiba fazer perguntas e encontre adultos disponíveis para conversar. Quando o diálogo começa cedo, a proteção é mais eficaz.
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