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Por que tantas mães sentem culpa ao gastar com elas mesmas?
Você já adiou a compra de uma roupa porque seu filho estava precisando de um tênis novo? Ou desistiu de marcar uma consulta, fazer uma atividade física ou investir em um hobby por achar que existem prioridades mais importantes dentro de casa? Parece um tipo de decisão natural, mas a culpa que você sente sempre que o dinheiro é direcionado para você mesma revela muito sobre a forma como as mulheres foram educadas. Fala também sobre o papel que elas ainda ocupam dentro das famílias.
Essa ideia não vem do nada. Em um relatório sobre igualdade de gênero, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destaca que as normas de gênero começam a ser aprendidas ainda na infância, por meio da observação dos adultos e das expectativas que família, escola e sociedade depositam em meninos e meninas. O documento aponta que, em muitos contextos, as meninas passam mais tempo envolvidas em tarefas domésticas e de cuidado, enquanto os meninos costumam ser incentivados a desempenhar outros papéis. Ao longo dos anos, essas experiências ajudam a moldar a forma como cada pessoa enxerga suas responsabilidades e prioridades na vida adulta.
E isso não é novo, viu? No livro In a Different Voice, publicado lá em 1982, a psicóloga estadunidense Carol Gilligan, que é referência em psicologia do desenvolvimento, argumenta que muitas meninas são socializadas para valorizar o cuidado, a empatia e a responsabilidade pelos relacionamentos. Segundo a autora, esse aprendizado não é inato, mas construído nas interações sociais e culturais. Embora sua teoria tenha sido ampliada e debatida ao longo das décadas, ela ajuda a compreender como as expectativas de gênero podem influenciar a maneira como muitas mulheres colocam as necessidades dos outros à frente das próprias.
A culpa não nasce na maternidade, mas, quando nasce um filho, esse padrão costuma ficar ainda mais evidente. Ninguém questiona a compra de um brinquedo, de uma roupa ou de um material escolar. Já um curso, um livro, uma massagem ou uma peça de roupa para a mãe frequentemente vêm acompanhados de pensamentos como: “Será que eu preciso mesmo disso?” ou “Esse dinheiro não faria mais diferença para as crianças?”.
Embora cada história seja única, esse sentimento costuma estar ligado a crenças construídas ao longo da vida. Entre elas, algumas aparecem com frequência:
- Acreditar que é preciso “merecer” gastar consigo mesma depois de cumprir todas as obrigações;
- Associar autocuidado ao egoísmo;
- Enxergar o dinheiro como um recurso que deve beneficiar primeiro os outros.
É claro que esses padrões não são regras, nem se aplicam a todas as mulheres, mas ajudam a explicar por que tantas mães encontram dificuldade em investir no próprio bem-estar, mesmo quando isso cabe no orçamento.
Cuidar de quem cuida também faz parte da parentalidade e o impacto dessa lógica vai além das finanças. A UNICEF, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), destaca que o bem-estar emocional dos cuidadores influencia diretamente sua capacidade de oferecer um ambiente acolhedor e responsivo para as crianças. Por isso, iniciativas de apoio à saúde mental e ao autocuidado dos responsáveis são consideradas fundamentais para o desenvolvimento infantil.
Cuidar de você não é apenas uma necessidade individual. Também faz parte do cuidado com os filhos.
A gente já está cansado de saber que são as mulheres que assumem a maior parte do trabalho de cuidado não remunerado. Relatórios da OCDE mostram que, mesmo quando trabalham fora, elas ainda dedicam mais tempo às tarefas domésticas e aos cuidados com crianças, idosos e familiares. Esse desequilíbrio reduz o tempo disponível para descanso, lazer e autocuidado e reforça a sensação de que investir em si mesma é um luxo, e não uma necessidade.
Muitas passam dias inteiros atendendo às necessidades de todos ao redor, enquanto elas mesmas ficam sempre para depois. Você se reconhece nessa situação?
O exemplo que os filhos levam para a vida
Tem um detalhe que a gente esquece com frequência: as crianças aprendem observando muito mais do que ouvindo. Quando uma mãe nunca compra algo para si, nunca descansa e demonstra culpa sempre que faz algo de que gosta, ela também transmite uma mensagem sobre o lugar que acredita ocupar dentro da família.
Da mesma forma, quando você mostra que suas necessidades também importam ensina que autocuidado não é egoísmo, mas parte de uma vida equilibrada.
Por isso, é fundamental lembrar: reservar espaço no orçamento para um livro, uma consulta, uma atividade física ou qualquer experiência que promova bem-estar não significa tirar da família, mas reconhecer que quem cuida também precisa ser cuidado. Um filho feliz precisa de uma mãe feliz também.
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Canguru News
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