Depressão na gravidez existe e é assunto sério

Nem toda tristeza, irritação ou cansaço na gestação significa a existência de um quadro de depressão, mudanças persistentes no humor, perda de interesse e sensação de incapacidade merecem atenção. Estudos recentes reforçam a importância de identificar e tratar o problema ainda durante o pré-natal

Quando vem a notícia de uma gravidez, todo mundo espera que seu mundo se ilumine. Tem alegria maior do que trazer uma nova vida ao mundo? Tem coisa mais gostosa do que imaginar os detalhes, preparar o enxoval, o quartinho… Mas a realidade pode ser bem diferente e mesmo uma gestação desejada e planejada pode vir acompanhada de tristeza, ansiedade, medo e, em alguns casos, depressão.

É muito frustrante e pode ser bem confuso não sentir o que todo mundo espera que você sinta. Às vezes você mesma esperava se sentir de uma forma diferente. A tristeza é uma emoção comum e humana, que pode aparecer em qualquer momento da vida, incluindo a gestação. Em alguns casos, porém, a questão vai além disso.

Cansaço, alterações no sono, mudanças no apetite e falta de energia são frequentes durante os nove meses. Quando aparecem junto de sofrimento emocional persistente, perda de interesse pelas atividades e sensação de desesperança, porém, podem indicar uma depressão na gravidez.

E, se você está passando por algo parecido, saiba que não está sozinha. Um estudo brasileiro publicado em 2026 na revista Scientific Reports encontrou transtorno depressivo em 27,3% das 55 gestantes avaliadas em uma clínica de pré-natal ligada a uma universidade pública. O número não pode ser generalizado para todas as gestantes brasileiras, já que a amostra foi pequena e de conveniência. Ainda assim, chama atenção para uma questão importante: depressão durante a gravidez não é rara e precisa ser investigada.

Como saber se é tristeza ou depressão?

Sentir-se mais sensível em alguns momentos da gravidez não significa necessariamente estar deprimida. Mudanças hormonais, preocupações com o parto, alterações no corpo e a própria transformação provocada pela chegada de um filho podem mexer bastante com as emoções. A preocupação aumenta quando os sintomas são persistentes, intensos e começam a interferir na vida cotidiana.

Alguns sinais que merecem atenção são:

  • tristeza ou vazio na maior parte do dia;
  • perda de interesse ou prazer por coisas que antes eram agradáveis;
  • sensação constante de culpa ou inutilidade;
  • desesperança em relação ao futuro;
  • irritabilidade intensa;
  • dificuldade de concentração;
  • alterações importantes no sono;
  • mudanças no apetite;
  • cansaço ou falta de energia que parecem desproporcionais;
  • dificuldade para realizar atividades do cotidiano;
  • pensamentos recorrentes de morte ou de que seria melhor não estar viva.

“Mas eu queria muito esse bebê”

Essa “contradição” leva muitas mulheres a se sentirem envergonhadas ou a demorar para buscar ajuda. A ideia de que uma gestante deveria estar necessariamente feliz pode gerar culpa: “Eu quis tanto engravidar, então por que estou me sentindo assim?”

Acontece que desejar um bebê e desenvolver depressão são coisas que podem coexistir. Ter depressão não significa que você não ama seu filho, que é ingrata ou que não é capaz de ser mãe. É uma condição de saúde que pode acontecer durante a gestação e precisa ser tratada como tal. O sofrimento não desaparece simplesmente porque a gravidez é desejada.

Depressão na gravidez tem tratamento

Você não precisa (e nem deve!) esperar o bebê nascer para procurar ajuda. Se a depressão for diagnosticada na gravidez. Existem opções seguras de tratamento, que envolvem psicoterapia e, em determinadas situações, medicamentos.

A possibilidade de uso de antidepressivos é uma das maiores dúvidas de quem precisa tratar depressão durante a gravidez. Mas, em alguns casos, eles podem, sim, ser usados sem risco. É claro que nem todos os tipos de medicamentos são automaticamente seguros ou indicados para todas as gestantes. A escolha do medicamento, da dose e da necessidade de tratamento deve ser feita individualmente pelo médico.

Ah e outro ponto importante! Se você já tinha depressão antes de engravidar e fazia tratamento, saiba que nunca é recomendado interromper um antidepressivo por conta própria ao descobrir a gravidez. A suspensão ou mudança do tratamento também precisa ser discutida com o profissional que acompanha a mulher.

O que a gestante pode fazer na prática?

  1. Conte como você realmente está

No pré-natal, não é preciso responder apenas “está tudo bem” quando o obstetra pergunta como você está. Se estiver triste, ansiosa, sem vontade de fazer as coisas ou com dificuldade para lidar com a rotina, fale. Saúde mental também faz parte do acompanhamento da gravidez.

  1. Não espere “ficar insuportável”

Não é necessário chegar ao limite para pedir ajuda. Quanto antes os sintomas forem reconhecidos, mais cedo é possível avaliar o que está acontecendo e iniciar o cuidado adequado.

  1. Observe as mudanças

Pode ajudar anotar por alguns dias como estão o humor, o sono, o apetite, a disposição e a vontade de fazer atividades que normalmente proporcionam prazer.  Não serve para fazer um diagnóstico em casa, mas pode ajudar a perceber padrões e explicar ao profissional de saúde o que está acontecendo.

  1. Cuide do seu sono

Dormir bem nem sempre é fácil durante a gravidez, mas vale conversar com o obstetra sobre estratégias para melhorar o descanso. A família também pode ajudar, assumindo tarefas domésticas e outras responsabilidades.

  1. Movimente, sempre

Quando não há contraindicação médica, atividades físicas adequadas à gestação podem fazer parte da rotina e contribuir para o bem-estar. A modalidade e a intensidade devem ser discutidas com o profissional que acompanha a gravidez.

  1. Não se isole

Manter contato com pessoas de confiança pode ser importante. Não é necessário contar tudo para todo mundo: escolher uma ou duas pessoas com quem seja possível falar sem medo de julgamento já pode fazer diferença.

  1. Aceite ajuda

Durante a gravidez, a ideia de que a mulher precisa dar conta de tudo pode ser especialmente pesada. Se alguém oferecer ajuda para cozinhar, cuidar da casa, acompanhar uma consulta ou simplesmente ficar por perto, aceitar não significa fracasso.

E como o parceiro pode ajudar?

Nem sempre a própria gestante percebe que está deprimida. Por isso, pessoas próximas podem notar mudanças antes dela. Em vez de dizer “você precisa reagir” ou “é só uma fase”, o parceiro pode perguntar: “Tenho percebido que você não está bem. Como posso ajudar?”

Além disso, é importante oferecer ajuda concreta: acompanhar uma consulta, cuidar de tarefas da casa, facilitar momentos de descanso ou ajudar a encontrar atendimento psicológico ou médico. O mais importante é não transformar a mulher em culpada pelo que está sentindo.

Quando é preciso procurar ajuda imediatamente?

Se a gestante tiver pensamentos de morte, de desaparecer, de machucar a si mesma ou o bebê, ou estiver em uma situação em que não se sente segura, é necessário buscar atendimento profissional imediatamente, sem esperar pela próxima consulta de pré-natal.

No Brasil, também é possível procurar o CVV pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia. Em uma situação de emergência ou risco imediato, deve-se procurar um serviço de urgência ou acionar o SAMU, pelo 192.

A depressão durante a gravidez não é um sinal de que você não quer ter um filho ou que é uma péssima mãe e pedir ajuda não diminui a experiência da maternidade. Cuidar da saúde mental durante a gestação também é uma prova de amor a si mesma e a seu bebê.

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