O luto da infância: a transição silenciosa (e dolorida) para mães e filhos na adolescência

Se você é mãe de um adolescente, provavelmente consegue se lembrar de um dia exato em que a ficha caiu. Pode ter sido ao arrumar uma gaveta e encontrar um brinquedo esquecido, ou no momento em que, de forma quase automática, você esticou a mão para atravessar a rua e seu filho, com um movimento sutil, recuou. De repente, aquele corpinho que cabia inteiro no seu abraço parece gigante, a voz mudou e a porta do quarto passou a ficar mais tempo fechada do que aberta.

Muitas vezes, a transição para a adolescência é tratada como uma fase de rebeldia, hormônios à flor da pele ou “aborrecência”, um termo injusto e reducionista. Mas o que quase ninguém nos conta é que a adolescência começa com um processo profundo, silencioso e muito real: o luto da infância. E esse luto não é vivido apenas pela mãe, mas também pelo próprio filho.

Hoje, quero convidar você a olhar para essa transição com mais leveza, entendendo o que acontece nos bastidores emocionais dessa travessia para que possamos construir pontes em vez de muros.

O luto do filho: a perda do porto seguro infantil

Para o adolescente, crescer dói e não estamos falando apenas da dor física do estirão de crescimento. Entrar na adolescência significa, simbolicamente, despedir-se de um território conhecido, seguro e confortável.

Sem que ele consiga verbalizar, o adolescente está lidando com três grandes perdas:

  1. O luto do corpo infantil: O espelho passa a devolver uma imagem desconhecida. O corpo muda rápido demais, surgem pelos, espinhas, formas novas. Ele perde o controle sobre a própria imagem e precisa aprender a habitar uma nova “casa física”.
  2. O luto da identidade de criança: A criança tem o privilégio de ser cuidada e de não precisar tomar decisões complexas. O adolescente começa a ser cobrado por maturidade, escolhas de futuro e responsabilidades, mas sem ter ainda o repertório emocional para lidar com tudo isso.
  3. O luto dos pais da infância: Para a criança, os pais são heróis infalíveis. Para o adolescente, a venda cai. Ele percebe que os pais falham, cansam e têm defeitos. Essa perda da “idealização” gera uma sensação temporária de desamparo.

É por isso que o seu filho oscila tanto: em um momento ele quer a independência do mundo, mas no minuto seguinte quer deitar no seu colo e assistir a um desenho antigo. Ele está se despedindo de quem foi para descobrir quem será.

O luto da mãe: a despedida do “colo físico”

Se para eles é difícil, para nós, mães, o processo pode ser devastador se não compreendermos o que está em jogo. Nós também vivemos o nosso próprio luto.

Nós nos despedimos daquela criança que nos achava a pessoa mais incrível do universo, que corria para o nosso colo ao menor sinal de choro e que dependia de nós para cada pequeno passo. Quando o adolescente se afasta para buscar a própria turma, a primeira sensação que nos assalta é a da rejeição.

“Ele não quer mais saber de mim”, “Tudo o que eu falo parece irritá-lo”, “Sinto falta do meu bebê”.

Esses sentimentos são legítimos. Chorar o fim da infância do filho faz parte do processo materno. Mas precisamos ter cuidado para não transformar o nosso luto em cobrança sobre o adolescente. Ele não está se afastando porque deixou de nos amar; ele está se afastando porque precisa desse espaço para descobrir quem ele é longe de nós. O distanciamento é um movimento saudável de diferenciação.

Como atravessar essa ponte juntos?

Se a infância acabou, isso não significa que o seu papel na vida dele diminuiu. Ele apenas mudou de formato. Veja como facilitar essa transição na prática:

  • Mude o tom da conversa (da ordem para a mentoria): A criança precisa de instruções claras e comandos. O adolescente precisa de perguntas que o façam pensar. Em vez de “faça isso agora”, tente “como você acha que podemos resolver essa questão?”. Coloque-se no papel de mentora, não de chefe.
  • Respeite o recolhimento (sem abandonar): O quarto fechado é o laboratório de identidade do adolescente. Ele precisa desse espaço para lidar com as próprias emoções. Garanta esse espaço, mas certifique-se de que ele saiba que a porta da casa e do seu coração, continuam abertas para quando ele quiser sair.
  • Crie novos rituais de conexão: O colo físico diminuiu, mas a conexão pode acontecer de outras formas. Descubra um interesse em comum: assistir a uma série juntos, cozinhar no final de semana, ouvir as músicas que ele gosta no carro sem criticar. Encontre novas maneiras de dizer “estou aqui”.
  • Acolha o “bebê” quando ele voltar: Se em um dia de frustração ele pedir um afeto ou quiser deitar ao seu lado em silêncio, apenas o acolha. Não diga “mas você não era o adulto independente e autônomo ontem?”. Deixe que ele saiba que o seu amor é um porto seguro incondicional.

O nascimento de uma nova relação

O fim da infância é doloroso, mas abre espaço para uma das fases mais ricas da maternidade: a oportunidade de conhecer a mente, as opiniões e a personalidade única do adulto que seu filho está se tornando.

Quando paramos de buscar a criança que ele foi, conseguimos finalmente enxergar, respeitar e amar o adolescente que está bem diante de nós.

E na sua casa, como tem sido essa transição? Você também sente saudade dos tempos de infância ou já está conseguindo curtir as conversas mais maduras com o seu filho?

 

Danielle Bassotto

É psicóloga, neuropsicóloga, orientadora parental e especialista em adolescência. Seu trabalho tem como foco o desenvolvimento de adolescentes, o fortalecimento das relações familiares e a saúde mental da mulher

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