Burnout materno: por que tantas mulheres estão adoecendo ao tentar dar conta de tudo?

Entre carreira, filhos, casa e cuidado com os pais idosos, mulheres vivem uma sobrecarga silenciosa que já reflete nos índices de afastamento por saúde mental no Brasil
As mulheres estão esgotadas, tentando dar conta de tudo Foto: Magnific

A imagem da mulher que consegue equilibrar carreira, filhos, casa, relacionamentos e ainda manter alta performance no trabalho parece admirável. Mas, para muitas brasileiras, esse visual de “mulher guerreira” tem custado caro. O número crescente de afastamentos por transtornos mentais escancara uma crise, antes silenciosa, entre mulheres, que acumulam múltiplas responsabilidades, dentro e fora do ambiente corporativo.

Em 2025, o INSS concedeu mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais. Desse total, quase 64% dos afastamentos ocorreram entre pessoas do sexo feminino. Além disso, dados do Movimento Mulher 360 apontam que cerca de 66% das mulheres em cargos de alta liderança apresentam sinais de burnout, um índice superior ao observado entre homens em posições equivalentes.

Para o psiquiatra corporativo Daniel Sócrates, o problema vai muito além da dificuldade de “equilibrar” vida pessoal e profissional. “Existe uma conta invisível que quase ninguém faz quando fala de mulheres em alta liderança: a conta do que sobra. O que sobra do corpo depois de um dia inteiro sustentando empresa, família, filhos, pais idosos e ainda tentando manter a própria performance emocional”, afirma o especialista.

Segundo ele, o adoecimento feminino não está ligado à fragilidade emocional, mas a uma combinação de sobrecarga contínua, cobrança excessiva e falta de recuperação mental adequada. É a jornada dupla, tripla, quádrupla… que nunca termina.

Mesmo quando ocupam cargos executivos ou contam com ajuda doméstica, muitas mulheres seguem responsáveis pela chamada “gestão invisível” da casa: lembrar compromissos, organizar rotinas, antecipar problemas e sustentar emocionalmente a família.  “Ela pode terceirizar tarefas, mas dificilmente terceiriza a responsabilidade mental”, lembra Sócrates.

Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo dados do Infojobs, 83% das brasileiras enfrentam dupla jornada de trabalho, e mais da metade afirma não ter divisão equilibrada das tarefas domésticas e do cuidado familiar.

A pressão da “geração sanduíche”

Outro fenômeno que tem aumentado a sobrecarga feminina é o crescimento da chamada “geração sanduíche”: mulheres que cuidam simultaneamente dos filhos e dos pais idosos. Um levantamento do Ibre/FGV mostra que cerca de um milhão de brasileiros entre 35 e 49 anos vivem essa realidade — e mais de 60% são mulheres.

“Justamente quando muitas mulheres chegam ao auge profissional, entre os 40 e 55 anos, também começam a lidar com o envelhecimento dos pais, doenças crônicas e aumento da demanda emocional familiar. É um nível de sobrecarga extremamente alto”, afirma o psiquiatra.

O corpo tenta avisar

Antes do colapso emocional, o corpo costuma dar sinais importantes. Insônia, dores musculares, gastrite, taquicardia, enxaquecas, queda de cabelo e cansaço persistente estão entre os sintomas frequentemente relatados por mulheres em esgotamento.  “O burnout raramente começa na crise de pânico ou no afastamento. Antes disso, o corpo já vinha avisando há anos”, alerta o psiquiatra.

Segundo ele, um dos maiores problemas da cultura corporativa atual é transformar exaustão em símbolo de competência. “A alta performance feminina muitas vezes é construída sobre a habilidade de ignorar o próprio corpo. O problema é que o corpo sempre cobra a conta”, acrescenta.

Dá para mudar?

Para o especialista, combater o adoecimento mental feminino exige mudanças estruturais dentro das empresas. Iniciativas pontuais de bem-estar maquiam o cenário e não resolvem. “Não basta oferecer aplicativo de meditação ou aula de yoga se a cultura continua premiando excesso, disponibilidade total e jornadas intermináveis”, afirma.

Algumas medidas que são, de fato, eficientes, na visão do psiquiatra são:

  • Flexibilização real da jornada;
  • Apoio psicológico estruturado;
  • Políticas voltadas ao cuidado de familiares idosos;
  • Revisão da cultura de sobrecarga;
  • Divisão mais equilibrada das responsabilidades;
  • Treinamento de lideranças para identificar sinais precoces de adoecimento.

“O burnout não é sinal de fraqueza individual. Muitas vezes é o resultado previsível de um sistema que exige desempenho contínuo sem permitir recuperação emocional”, conclui.

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Renata Menezes

É jornalista, entusiasta da maternidade e vive a intensidade (e as descobertas!) de ser mãe de um adolescente! Quando não está escrevendo aqui na Canguru News ou viajando com a família, você a encontrará nas quadras, recarregando as energias com suas amigas no time de handebol Master EG. Para ela, a maternidade é uma viagem constante — e ela adora compartilhar cada parada desse roteiro com nossas leitoras

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