“As crianças nunca precisaram tanto dos avós”, defende psicólogo

Os dados sobre saúde mental infantil nunca foram tão assustadores e uma das respostas mais eficientes pode ser o aumento da convivência com os avós. Segundo este especialista dos Estados Unidos, eles oferecem algo que nenhuma atividade extracurricular consegue substituir: tempo, escuta, acolhimento e um vínculo afetivo capaz de fortalecer a resiliência
Foto: Magnific

Nem todo mundo pode contar com a participação dos avós na criação dos filhos. Em muitos casos, porém, eles são uma importante rede de apoio. Para o psicólogo infantil Kenneth Barish, professor na Universidade Weill Cornell, em Nova York, Estados Unidos, o papel deles vai muito além de oferecer suporte prático. Em um momento em que cada vez mais crianças e adolescentes enfrentam ansiedade, tristeza, solidão e excesso de pressão, os avós podem ser figuras importantes para promover o bem-estar emocional dos pequenos.

“As crianças precisam dos avós, e sempre precisaram”, diz o psicoterapeuta, que é autor do livro The Art and Science of Parenting and Grandparenting, em um artigo publicado no Science Daily. Ele defende que, nas últimas décadas, a sociedade mudou de forma que muitas famílias passaram a criar os filhos com menos apoio da família e da comunidade. Esse cenário, somado a uma cultura cada vez mais voltada para desempenho e produtividade, pode contribuir para o sofrimento emocional de crianças e adolescentes.

Pais e mães vivem atribulados, com uma rotina intensa, se desdobrando para conseguir dar conta do trabalho, dos cuidados com os filhos e de todas as outras responsabilidades. Já os avós, muitas vezes, conseguem oferecer algo totalmente valioso: tempo.

Segundo Barish, é justamente essa disponibilidade para ouvir, conversar e estar presente que faz diferença no desenvolvimento emocional das crianças. Ele chama esses momentos como pequenas “moléculas de saúde emocional”: gestos cotidianos de carinho, atenção e incentivo que ajudam a fortalecer aquilo que chama de “sistema imunológico emocional”.

“Mais do que qualquer outra coisa, as crianças precisam de alguém que as escute, que as ajude a se sentir menos sozinhas e que ensine que os problemas podem ser resolvidos, que os relacionamentos podem ser reparados e que os sentimentos difíceis não duram para sempre”, explica. Saber que existe um adulto disposto a ouvir sem julgamentos é um dos maiores fatores de proteção para a saúde mental infantil.

Menos cobrança, mais conexão

Outro ponto levantado pelo especialista é a pressão crescente para que crianças acumulem boas notas, atividades extracurriculares e conquistas desde muito cedo. Incentivar o desenvolvimento é importante, claro, mas Barish acredita que o excesso de foco no desempenho pode aumentar a ansiedade e fazer com que os pequenos associem seu valor apenas aos resultados que alcançam.

“O sucesso individual, sozinho, é uma fonte frágil de motivação e esforço, com um alto custo em ansiedade e estresse”, ressalta. Nesse contexto, os avós podem representar um contraponto importante. Histórias de vida, brincadeiras, receitas de família, passeios simples e conversas sem pressa ajudam a mostrar que o afeto e o pertencimento também são parte essencial do crescimento.

O poder das pequenas conversas

Segundo Barish, conversar com as crianças sobre gentileza, empatia e cuidado com o outro pode ser tão importante quanto acompanhar as tarefas escolares. Ele também incentiva que famílias realizem atividades de voluntariado ou encontrem maneiras de ajudar outras pessoas, mostrando aos pequenos que propósito e solidariedade fazem parte de uma vida equilibrada. São experiências que ajudam a construir autoestima, senso de comunidade e significado.

Cuidado com o excesso de críticas

Outro comportamento que merece atenção é a forma como os adultos corrigem as crianças. “O problema mais comum que vejo no meu trabalho com famílias não é o excesso de elogios, mas o excesso de críticas”, afirma. Em vez de apontar apenas os erros, ele recomenda valorizar o esforço, a persistência e a aprendizagem, uma abordagem inspirada na teoria da “mentalidade de crescimento”, da psicóloga Carol Dweck. Segundo essa perspectiva, reconhecer o processo (e não apenas o resultado) favorece a confiança e a disposição para enfrentar desafios.

Criar crianças emocionalmente fortes não depende de oferecer uma infância perfeita ou de resolver todos os problemas por elas. O que realmente fortalece os pequenos, segundo o especialista, é a presença de adultos que escutam, acolhem, incentivam e demonstram confiança em sua capacidade de superar dificuldades.

O maior presente que um avô ou uma avó pode oferecer talvez não seja um brinquedo, uma viagem ou um mimo especial, mas algo muito mais simples: um colo disponível, uma conversa sem pressa e a certeza de que aquele neto sempre terá alguém com quem contar.

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