Assisti a Enola Holmes com minha adolescente e o filme rendeu uma conversa poderosa sobre ser mulher

Mais do que um mistério envolvente, o filme abre espaço para falar sobre autonomia, feminismo e os papéis que ainda tentam impor às meninas hoje
Mãe e filha vendo filme Foto: Magnific

Desde que assistiu a série fenômeno Stranger Things, minha adolescente virou fã de carteirinha da atriz britânica Milly Bobbie Brown. Ela foi procurar todos os outros títulos em que ela tinha trabalhado e, entre eles, descobriu as aventuras de Enola Holmes. São dois filmes (o terceiro está previsto para este ano), baseados nos livros de Nancy Springer. Enola, a protagonista, é a irmã adolescente de outro personagem britânico famoso, o detetive Sherlock Holmes.

Minha filha me convidou para assistir e disse que achava que eu gostaria. Não dava para negar um convite desses e lá fomos nós para o sofá. Achei que seria uma produção interessante, mas confesso que superou (muito!) minhas expectativas. O filme rendeu conversas importantíssimas com ela sobre o que significa ser mulher no mundo de hoje, sobre como era diferente há algum tempo e sobre como tivemos e ainda temos de lutar para conquistar e manter nossos direitos, em um mundo prevalentemente machista.

A história se passa em outra época, mas o desconforto da protagonista com os limites impostos às mulheres é muito atual. Desde o início, fica claro que Enola não cabe no molde esperado: ela não quer ser “domada”, educada para agradar ou treinada para ocupar um espaço pequeno.

Em vários momentos, o filme escancara algo que ainda vemos por aqui: a tentativa constante de enquadrar meninas em padrões de comportamento. Ser delicada, obediente, discreta. Não questionar demais. Não ocupar espaço demais. Não ser “demais”. E, enquanto assistíamos, percebi o quanto aquilo não era distante da realidade dela ou mesmo da minha.

O acerto, na minha opinião, está no fato de que o feminismo aparece de forma orgânica, sem discursos prontos e chatos. Está nas escolhas da personagem, na forma como ela se posiciona, na recusa em abrir mão de si mesma para caber no que esperam dela. Isso gerou uma identificação imediata.

Depois do filme, a conversa veio quase naturalmente. Rendeu um bom papo sobre liberdade, sobre as pressões que começam cedo — às vezes sutis, às vezes escancaradas — e sobre como é importante reconhecer essas expectativas para poder questioná-las.  Também falamos sobre o papel da família nisso tudo. Sobre como apoiar não é moldar, mas permitir que eles descubram quem são. E confesso: isso também mexeu comigo.

Enola Holmes não é um manifesto feminista explícito, mas talvez seja justamente por isso que funcione tão bem. Ele convida, não impõe. Provoca, mas não afasta. E, para adolescentes — que muitas vezes rejeitam discursos muito prontos — isso faz toda a diferença. Histórias assim ajudam a plantar perguntas importantes e talvez esse seja um dos maiores presentes que a gente pode oferecer aos nossos filhos.

 

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