O adolescente e as telas: atividade da ‘pizza’ pode ajudar no controle de tempo nos dispositivos

A psicóloga Patrícia Nolêto sugere o "exercício da pizza" para fazer com os filhos; eles próprios devem ter consciência do longo tempo de permanência no celular e buscar maneiras de equilibrar suas atividades diárias

184
Adolescente e tempo de telas: uma sugestão de atividade para ajudá-lo a reduzir excessos
Além da tomada de consciência, jovens devem pensar em ações práticas para reduzir o tempo de tela

Leia em 4 minutos

Se perguntarmos para muitos pais como anda o tempo de tela dos filhos é bem provável que a resposta venha junto com queixas, reclamações e falas cheias de desesperança, pois não sabem mais o que fazer. Mas e se perguntarmos para pais de adolescentes? O que mais escuto no consultório quando converso sobre o uso de telas com estes pais é:

– Perdemos o controle.

– É um caminho sem volta.

– Cedemos no início da pandemia e agora não sabemos como voltar atrás.

– É o principal motivo de briga lá em casa.

– Ele fica o dia todo conectado, mas não acha que está exagerando.

– Não sabemos como colocar limites.

– A vida dele é no celular.

Geralmente quando falamos do uso de telas do adolescente, estamos falando de celular. Eles fazem tudo no celular! Assistem aula, conversam com os amigos, digitam trabalhos, jogam, paqueram, escutam música, usam redes sociais, montam apresentação de trabalho no powerpoint em grupo – isso é uma coisa que realmente me impressionam, mas eles conseguem!. Eles brigam, fazem as pazes, estudam, e passam bastante tempo no Netflix, TikTok, Twitter e Instagram.

Uma outra coisa em comum que percebo nos adolescentes, é que todos subestimam o tempo que passam diante do celular. A grande verdade é que eles não têm ideia, não contabilizam. E a tomada de consciência é o caminho que eu escolho para gerar mudança.

Vou dar uma dica de uma atividade interessante que faço no consultório, mas que os pais podem fazer com os filhos em casa. Acredito que essa atividade será uma porta para abrir um diálogo sobre esse assunto. Peço ao adolescente que desenhe um círculo em um papel. Explico para ele que esse círculo representa o dia, e que tudo o que eles fazem durante 24 horas, precisa caber dentro desse círculo. Em seguida fazemos uma lista de todas as coisas que ele faz durante o dia:

  • Dormir
  • Ir à escola /ou aula online
  • Participar da aula de inglês
  • Praticar esporte
  • Almoçar/ Jantar/ Café da manhã/ Lanche
  • Tomar banho
  • Arrumar o quarto ou ajudar em alguma atividade de casa
  • Estudar / fazer atividades da escola
  • Conversar com os amigos
  • Usar as redes sociais
  • Jogar
  • Assistir a séries

Depois de ajudá-lo a fazer essa lista, peço que divida o círculo em pedaços como se fosse uma pizza e atribua a cada pedaço uma destas atividades que ele listou. Um detalhe importante: cada pedaço deve corresponder ao tempo gasto em cada atividade, ou seja, a soma de todos os pedaços não pode ultrapassar 24 horas.

Uma coisa que acho interessante fazer, é escollher a ordem das atividades que serão colocadas dentro do círculo. Faço isso deixando, de propósito, tudo o que está relacionado a telas para o final. Geralmente começo perguntando ao adolescente quantas horas ele dorme por dia, depois, quanto tempo passa na escola, e por aí vai.

É muito legal observar quando vai chegando no final da lista e ele percebe que não vai caber tudo. Ele se dá conta que vai faltar espaço no círculo. É aqui que precisamos ter autocontrole! Não é momento de dar lição de moral ou querer provar que você está certo ao dizer que ele passa o tempo todo no celular.

Quando perceber que ele se deu conta que tem algo errado nessa distribuição de tempo, apenas pergunte o que ele acha que deu errado. Talvez ele queira diminuir o tempo que ele colocou de sono, ou de atividades da escola, deixe que ele trabalhe, sem crítica, apenas acompanhando o processo.

Dessa atividade podem surgir insights preciosos e possibilidades lindas para um diálogo! Alguns se dão conta que o uso de tela acaba se sobrepondo a outras atividades, ou que necessidades essenciais como dormir estão ficando de lado.

Depois que ele terminar o círculo, peça que ele pegue o celular e olhe qual é a média de uso do celular por dia. Pergunte se está próximo ao que ele fez, converse como ele se sente em relação a isso. É importante a gente entender que a tomada de consciência é o primeiro passo para a mudança, mas não é suficiente!

Quantas vezes nos adultos temos consciência de um hábito ruim que precisamos mudar, mas não sabemos como?

Agora vem um outro passo importante nessa conversa. Peça a ele para pensar em algo que possa ajudá-lo a equilibrar melhor esse círculo. As ideias que geralmente aparecem são: deixar o celular em outro ambiente da casa quando estiver assistindo a aula online ou quanto estiver assistindo a um filme. Não dormir com o celular no quarto. Usar alguns recursos de bem-estar digital do próprio celular, como estipular um tempo de uso para cada aplicativo ou um horário para colocar a tela do celular preto e branca no fim do dia.

Proponha um teste, fazer isso por uma semana e depois voltarem a conversar sobre como foi. E já marquem o dia que vão olhar juntos se o que ele tentou gerou alguma mudança.

Muitas vezes, nós, pais, acreditamos que o único jeito de colocar limites nos nossos filhos é sendo muro, mas essa atividade é um bom exemplo de como podemos colocar limites sendo margem e andando ao lado deles.



Gostou do nosso conteúdo? Receba o melhor da Canguru News semanalmente no seu e-mail.

Patrícia Nolêto de Campos, é mãe da Clara, 4 anos. Psicóloga, palestrante, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, trabalha há mais de 19 anos com psicologia clínica com atendimento a adultos crianças, adolescentes e pais. Desenvolveu workshop de Treinamento de pais e Treinamento de Educadores e ferramentas terapêuticas que facilitam a regulação emocional das crianças. Saiba mais em http://www.patnoleto.com.br

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, deixe seu comentário
Seu nome aqui