Sororidade entre mães: quando a dor de um filho se torna luta de todas

Sororidade entre mães

Costumamos falar de sororidade como um pacto entre mulheres: apoio diante do machismo, da sobrecarga, da maternidade solitária. Mas existe uma sororidade que nasce em outro lugar — não na experiência da mulher, e sim na experiência do filho dela. É a dor que atravessa o corpo de uma mãe quando a criança que ela pariu chega da escola calada, ou chorando, porque alguém disse que o cabelo dela é “duro demais”, ou que ela é “suja”, ou macaca. Essa dor tem nome: racismo. E ela não deveria ser carregada sozinha.

É aqui que entra uma forma de sororidade que ainda conversamos pouco: a aliança entre mães brancas e mães pretas na construção de uma educação antirracista. Quando uma mãe branca ocupa esse lugar de aliada, ela não está fazendo um favor. Ela está reconhecendo que a dor da outra mãe também lhe diz respeito — porque o mundo que fere uma criança preta é o mesmo mundo que o filho dela branco vai herdar, reproduzir ou ajudar a transformar.

Sororidade não é sentir pena, é agir

Como venho repetindo em minhas formações, inspirada em autoras como Nilma Lino Gomes, relações étnico-raciais não se ensinam com um discurso pontual em novembro — elas se constroem no cotidiano, nas escolhas de livros, brinquedos, bonecas, nas rodas de conversa, no jeito como a família branca reage quando o próprio filho reproduz um comentário racista ouvido em algum lugar.

Sororidade, nesse sentido, não é só compaixão. É deslocamento. A mãe branca que quer ser aliada precisa abrir mão do lugar de conforto que o privilégio racial garante — o conforto de nunca precisar explicar ao filho por que ele foi seguido numa loja, ou por que a boneca da sala só tem um tom de pele. Esse desconforto, quando assumido com responsabilidade, vira pedagogia: ensinar a criança branca que somos diferentes, que a diferença não é hierarquia, e que reconhecer isso desde cedo é um ato de justiça, não de caridade.

Duas tarefas, um mesmo horizonte

Nessa aliança, cada família carrega uma tarefa diferente, e as duas são igualmente urgentes. À família preta cabe o exercício de proteger e empoderar. Proteger porque a criança precisa de colo, de escuta, de um espaço onde a violência sofrida seja validada e não minimizada. Empoderar porque essa mesma criança precisa crescer sabendo — pela literatura, pelas imagens, pelas histórias contadas em casa — que sua identidade é motivo de orgulho, não de vergonha.

À família branca cabe desocupar o lugar de neutralidade. Silêncio, nesse território, não é isenção: é manutenção do racismo. Ensinar o filho branco a nomear a diferença, a reconhecer privilégio, a se incomodar diante da injustiça e a agir diante dela é o trabalho concreto da aliança. Não se trata de o filho branco “salvar” ninguém, e sim de aprender, ao lado do amigo ou da amiga preta, a desconstruir o que a sociedade tenta naturalizar.

O que muda quando as crianças crescem juntas nesse projeto

O ponto mais bonito dessa sororidade é o horizonte que ela projeta: são as crianças, formadas juntas dentro dessa consciência, que terão a chance real de mudar a estrutura do racismo — porque cresceram entendendo-a por dentro, e não apenas ouvindo falar dela. A transformação não vai acontecer por decreto nem por uma campanha isolada. Vai acontecer na educação de cada família, multiplicada, uma criança de cada vez.

Por isso a sororidade entre mães, quando atravessa a questão racial, deixa de ser só um gesto de afeto entre mulheres e se torna projeto pedagógico e político. A mãe branca que se coloca ao lado, que escuta sem centralizar sua própria culpa, que educa seu filho para a diferença, está construindo — junto com a mãe preta que protege e empodera o seu — o único caminho que realmente funciona contra o racismo: a educação, feita em casa, sustentada por mulheres que decidiram que a dor da outra também é sua responsabilidade.

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Tatiane Santos

É pedagoga, especialista em educação antirracista e consultora em formação de educadores. Conhecida como Pretinha Educadora, atua como coordenadora pedagógica na rede pública de São Paulo e desenvolve projetos voltados à equidade racial na primeira infância. Coautora do livro infantil Super Black – O poder da representatividade, e autora do livro o Sonho de Dandara

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