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Quando os ciclos se encontram: mães na menopausa, filhas na primeira menstruação
Em muitas casas, duas transições importantes acontecem ao mesmo tempo. Enquanto a filha vive a primeira menstruação, que vem com várias descobertas, dúvidas e mudanças no corpo, a mãe começa a perceber os sinais na outra ponta. É a perimenopausa, caracterizada pelas famosas ondas de calor, pelo cansaço, a irritabilidade e as noites mal dormidas. Não é coincidência. É o retrato de uma geração que teve filhos mais tarde e agora vive, sob o mesmo teto, o começo e o final da vida fértil.
Segundo a ginecologista Ana Maria Passos, especialista em perimenopausa e saúde da mulher, essa situação tem sido cada vez mais frequente e pode resultar em um caldeirão intenso e borbulhante. “Na perimenopausa, os hormônios estão oscilando para depois começarem a cair. Na puberdade, eles estão começando a ser produzidos. E esses hormônios não agem só no corpo, mas também no cérebro”, explica. O resultado aparece no humor, no comportamento e na convivência familiar. “São muitas novidades ao mesmo tempo, tanto para a mãe quanto para a filha”, acrescenta a médica.
Emoções à flor da pele
Embora marquem momentos opostos da vida reprodutiva, puberdade e climatério têm muito mais em comum do que parece. “É muito frequente que ambas fiquem mais impacientes, irritadas, com as emoções mais intensas”, diz a médica. Além das alterações de humor, podem surgir sintomas físicos parecidos, como dor de cabeça, cansaço, sensibilidade nas mamas e a sensação de não reconhecer o próprio corpo.
A diferença está no sentido e no significado dessas mudanças. Para a filha, a menarca, ou seja, a primeira menstruação, inaugura um corpo fértil, em transformação, muitas vezes acompanhado de cólicas, acne e inseguranças. Para a mãe, a perimenopausa sinaliza o encerramento desse ciclo, trazendo insônia, ondas de calor, secura vaginal e, em alguns casos, desânimo e ansiedade. “São fases de adaptação”, resume a ginecologista. “E toda adaptação exige acolhimento”, diz ela.
Aproximar mais, comparar menos
Diante dessa “explosão hormonal” em duas gerações, a principal dica é simples e, ao mesmo tempo, desafiadora: conversar. “Ter diálogo ajuda muito. A mãe pode dizer: ‘você está numa fase de oscilação hormonal, e eu também’”, orienta Ana Maria. Nomear o que está acontecendo tira o peso do pessoal e ajuda a construir empatia.
Na hora de falar sobre menstruação, a médica faz um alerta importante: evitar projetar a própria história. “A gente tende a contar como foi com a gente, mas o ideal é perguntar”, diz. Como está o fluxo? Quantos dias dura? Há dor ou incômodo? Quantos absorventes são usados por dia? “Saber perguntar, em vez de apenas contar”, resume. Isso vai ajudar sua filha a se sentir ouvida e respeitada em sua própria experiência.
A chegada da primeira menstruação também pode ser um bom momento para apresentar a menina ao consultório ginecológico. Mas isso deve ser feito com cautela. “Não é uma consulta para exame físico, mas uma conversa”, reforça a médica. No encontro, é fundamental falar sobre higiene, ciclo menstrual, ovulação e autoconhecimento do corpo, com uma profissional acostumada a atender adolescentes. Isso vai ajudar a abrir um canal de confiança. “A adolescente precisa saber que pode voltar, tirar dúvidas e perguntar o que quiser, sem sentir vergonha”, afirma a especialista.
Quando cuidar da filha também é cuidar de si
Esse período de transição pode — e deve — ser um convite para a mãe olhar também para a própria saúde. “Na perimenopausa, surgem sintomas como cansaço, insônia, ansiedade e desânimo, que às vezes até simulam uma depressão”, alerta Ana Maria. Cuidar disso não é egoísmo: é exemplo. “A mãe impacta diretamente a saúde da filha. Alimentação, exercício, estilo de vida… tudo isso inspira”, pontua.
No fim das contas, o que mais fortalece o vínculo não é ter todas as respostas, mas deixar o caminho aberto. “Você pode sempre me perguntar”, “Não precisa ter vergonha”; “Eu entendo o que está acontecendo com você”… Estas são algumas das frases que ajudam a abrir e a continuar conversas profundas, neste período que pode vir com turbulências físicas e emocionais.
Quando mães e filhas atravessam juntas essas mudanças, o corpo passa a ser sentido, observado. O ciclo da vida vira aprendizado. A casa pode se tornar um espaço de acolhimento, para quem está começando e para quem está se transformando.
Canguru News
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