Artigos
Jéremy Doku deixa a seleção belga para acompanhar de perto o nascimento do filho: e, sim, isso é MUITO importante!
Nesta segunda-feira (22), o atacante da seleção belga Jérémy Doku deixou a preparação do time na Copa do Mundo e viajou para Londres para acompanhar de perto a chegada do filho, Praise. Ele não fez mais do que obrigação e precisamos normalizar isso: é papel de todo pai estar presente na vida do filho. Não importa se ele trabalha em uma loja de departamentos, na padaria do bairro ou se foi convocado para representar um país em um campeonato mundial. Nada é (ou pelo menos não deveria ser) mais importante do que a chegada de uma pessoa que VOCÊ decidiu colocar no mundo.
Mas nem todos concordam. Doku recebeu várias críticas pela atitude de deixar o time, ainda que vá retornar a tempo do próximo confronto, na sexta-feira (26). A parte mais triste disso? Uma das críticas mais agressivas partiu de uma mulher, a jornalista francesa Francie Pierron, que acabou sendo até afastada do L’Equipe TV, onde trabalhava.
“Você está vivendo um sonho de infância e vai abandonar tudo para assistir ao nascimento do seu filho. Um momento, desculpe a expressão, em que o pai é completamente inútil. Há pessoas que fizeram empréstimos apenas para assistir aos jogos, e você não vai jogar só para cortar o cordão umbilical”, ela disse. Em um momento em que segue necessária a luta pela equidade, contra o machismo, pelo equilíbrio entre os gêneros, sobretudo quando se trata de algo tão fundamental quanto a criação dos filhos, isso revolta. Não, Francie, o pai não é “completamente inútil” no parto. E eu resolvi escrever uma carta para tentar te ajudar a entender o porquê.
“Cara Francie Pierron,
Talvez você não tenha filhos. Talvez tenha. Talvez tenha vivido experiências que a levaram a acreditar que homens são só espectadores da chegada de um bebê ao mundo. Mas, quando li sua declaração dizendo que os pais seriam “completos inúteis” durante o parto, tive muita vontade de conversar com você sobre isso.
Quando o atacante belga Jérémy Doku afirmou que gostaria de acompanhar o nascimento de seu primeiro filho, mesmo que isso significasse deixar temporariamente a concentração da seleção da Bélgica durante a Copa do Mundo, ele não merece um “biscoito”, como se diz. A questão é que, em um mundo onde milhões de pais abandonam seus filhos ou não estão nem aí para eles ou ainda priorizam tudo no lugar deles, há um lampejo de esperança de que as coisas estão começando a mudar. Devagar, mas estão. A fala dele foi simples. Humana. Quase óbvia para quem entende que a chegada de um filho é um daqueles acontecimentos que dividem a vida entre o antes e o depois.
“Ninguém quer perder o nascimento do seu primeiro filho”, disse o jogador.
Porém, na sua visão, homens não servem para nada durante o parto e, portanto, não haveria motivo para Doku considerar deixar a competição para estar ao lado da esposa.
Vimos jogadores, comentaristas, torcedores e pais e mães precisando rebater sua fala e lembrar algo fundamental: a presença do pai não substitui médicos, enfermeiros ou parteiras. O pai também não tem como trocar de lugar com a mãe. No entanto, a presença dele faz toda a diferença, sim. Ele apoia a mulher, segura a mão dela. Oferece segurança. Compartilha o medo, a expectativa, a emoção e, principalmente, a responsabilidade daquele momento.
Sem falar que ele perderia um evento único, que não tem volta. Ele pode jogar outras Copas do Mundo. Mas não pode ver seu filho nascer outra vez. A seleção belga pode jogar em sua ausência. Mas, para o filho e para a esposa, Doku não é substituível.
Diante da repercussão negativa, você afirmou que sua fala havia sido interpretada fora de contexto e que não pretendia diminuir a importância dos pais. Mas talvez o problema não tenha sido a interpretação. Talvez tenha sido justamente o que a frase revelou sobre uma visão antiga da paternidade.
Olha só, Francie: durante muito tempo os homens realmente foram mantidos longe das salas de parto. Muitos sequer seguravam seus bebês nas primeiras horas de vida. Eles cresceram ouvindo que criar filhos era tarefa das mães. Que trocar fraldas era ajuda. Que acordar à noite era favor. Que cuidar era opcional.
Agora, felizmente, estamos tentando ensinar algo diferente. Estamos dizendo aos meninos que eles não são visitantes na vida dos filhos. Estamos dizendo que responsabilidade emocional também é responsabilidade. Estamos dizendo que paternidade não começa quando a criança aprende a jogar bola ou a andar de bicicleta. Ela começa antes. Começa na gestação. No pré-natal. No medo compartilhado. No parto.
Diversos estudos mostram que a presença de um acompanhante de confiança durante o nascimento contribui para reduzir a ansiedade materna, aumenta a sensação de segurança e está associada a experiências mais positivas para as mulheres. E, na imensa maioria das vezes, esse acompanhante é justamente o pai.
Mas existe algo ainda mais importante que as evidências científicas. Existe o simbolismo, a memória.
Não dá para negar que a Copa do Mundo é gigantesca, mobiliza países inteiros e faz todo mundo chorar, comemorar, criar lembranças inesquecíveis. Mas passa. Outra Copa virá em quatro anos.
O nascimento daquele bebê nunca mais acontecerá. Não existe replay ou VAR para o primeiro choro. Não existe segunda chance para o instante em que um pai conhece seu filho. Não existe partida mais importante para aquela família.
Não é que o futebol não importe, mas a priorização de Doku significa que talvez estejamos começando a entender a importância de estar presente. Depois de séculos ensinando aos homens que eles podiam se ausentar, precisamos começar a celebrar quando escolhem ficar.
Sabe, Francie, um grande obstetra conterrâneo seu, Michel Odént, que nos deixou recentemente, disse uma vez que para mudar o mundo era preciso mudar a forma de nascer. Talvez estejamos mudando o mundo agora. Talvez um pai presente de verdade, desde o primeiro minuto, faça a diferença não só para aquela família, mas para todos os meninos que são fãs de futebol hoje e que um dia estarão naquela mesma posição e saberão o que é importante priorizar na vida. Para todos os meninos que não precisam se espelhar em jogadores que traem suas esposas, adoram apenas o dinheiro ou não têm nenhum tipo de constrangimento em fazer propagandas de casas de apostas.
Espero que você pense sobre isso.
Com carinho,
De quem acredita que pais podem ser tudo, menos figurantes na história dos próprios filhos”.
Canguru News
Desenvolvendo os pais, fortalecemos os filhos.
VER PERFILAviso de conteúdo
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.
Veja Também
Férias sem gastar: 5 programas gratuitos para divertir os pequenos
Parques, museus, bibliotecas e atrações ao ar livre são opções para quem quer aproveitar o passeio sem criar um rombo...
O que os jogos da Copa podem ensinar às crianças, segundo a educação Montessori
Bandeiras, mapas, países, culturas e muitas perguntas. O maior torneio de futebol do planeta pode se transformar em uma oportunidade...
Férias escolares aumentam a sobrecarga das mães e podem afetar a saúde mental
As crianças contam os dias esperando pelo descanso e pela diversão, enquanto muitas mulheres enfrentam uma rotina ainda mais intensa....
Férias em família sem estourar o orçamento: 12 estratégias para viajar mais e gastar menos
Viajar com crianças não precisa ser sinônimo de férias caríssimas. Com planejamento, escolhas inteligentes e algumas mudanças de rota, dá,...










