Quando a morte tem cor: 60% das vítimas de morte materna no Brasil são mulheres negras

Estudo mostra que mulheres pretas e pardas têm quase o dobro de risco de morrer durante a gravidez, parto ou pós-parto. “Desigualdades persistem, mostrando que não se trata apenas de um problema assistencial, mas também estrutural”, avalia autora

A maternidade ainda é marcada por desigualdades profundas no Brasil – e elas têm cor. Um estudo nacional que analisou dados de 20 anos mostra que mulheres pretas e pardas seguem enfrentando um risco muito maior de morrer durante a gestação, o parto ou o pós-parto. Ao todo, entre 2000 e 2020, o país registrou mais de 40 mil mortes maternas, e quase 60% delas ocorreram entre mulheres negras.

Publicado no International Journal of Environmental Research and Public Health, o levantamento reforça que a mortalidade materna no Brasil continua ligada não apenas a questões médicas, mas também a desigualdades sociais e raciais persistentes. “Já havia evidências de maior risco entre mulheres pretas e pardas, mas queríamos avaliar se essa diferença estava diminuindo com o passar dos anos. Observamos que essas desigualdades persistem, mostrando que não se trata apenas de um problema assistencial, mas também estrutural”, relata a enfermeira Giovana Aparecida Gonçalves Vidotti, professora orientadora de mestrado e doutorado no departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e autora do estudo.

O termo “mortalidade materna” é usado para agrupar as mortes que acontecem durante a gravidez ou até 42 dias após o fim da gestação, desde que relacionadas ao período gestacional. Apesar de o Brasil ter reduzido os índices após o impacto da pandemia de Covid-19, os números ainda preocupam. Em 2024, o país registrou 57 mortes maternas a cada 100 mil nascidos vivos — abaixo do pico recente, mas ainda distante da meta da Organização Mundial da Saúde, que prevê até 70 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030.

Entre as principais causas das mortes estão problemas obstétricos mal definidos, hipertensão na gravidez, complicações no parto e no pós-parto. Quase metade dos óbitos aconteceu justamente nos primeiros 42 dias após o nascimento do bebê, um período considerado crítico para a saúde materna.

Para especialistas, muitos desses casos poderiam ser evitados com acompanhamento adequado. “A mortalidade materna continua sendo um importante indicador da qualidade da assistência à saúde e das condições sociais de um país. No Brasil, apesar de avanços, os níveis permanecem elevados e desiguais”, avalia a ginecologista e obstetra Ana Paula Beck, do Einstein Hospital Israelita.

Racismo estrutural impacta atendimento

O estudo também destaca a situação alarmante das mulheres indígenas, cuja mortalidade materna é mais de duas vezes maior do que a observada entre mulheres brancas. Segundo os pesquisadores, o racismo estrutural aparece em diferentes etapas do cuidado, desde o acesso aos serviços de saúde até a forma como essas pacientes são atendidas.

“Ele se manifesta desde o acesso aos serviços até a qualidade do atendimento recebido. Na prática, significa que muitas vezes essas mulheres têm suas queixas menos valorizadas e enfrentam estereótipos e abordagens inadequadas”, observa Beck.

Entre os principais problemas identificados estão o início tardio do pré-natal, a dificuldade de acesso a serviços especializados e falhas na identificação precoce de riscos durante a gravidez. “Isso reflete a sobreposição de fatores sociais, como menor acesso a serviços de saúde de qualidade e início tardio do pré-natal. Além disso, o racismo estrutural e institucional influencia diretamente no acolhimento e no manejo clínico dessas pacientes”, destaca Vidotti.

Embora a cobertura de pré-natal seja considerada alta no país, especialistas apontam que a qualidade do acompanhamento ainda é insuficiente, especialmente no sistema público. Muitas gestantes não conseguem realizar todos os exames necessários, enfrentam dificuldade de transporte ou chegam tardiamente às consultas. Além disso, regiões mais vulneráveis, como Norte e Nordeste, concentram os piores indicadores.

A pesquisa também mostra que fatores como baixa escolaridade e vulnerabilidade econômica aumentam o risco de morte materna, já que dificultam o acesso à informação, ao acompanhamento médico e a condições adequadas de cuidado.

Fonte: Agência Einstein

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