Ler para o seu filho também faz bem para você

As histórias que você conta diariamente para o seu pequeno trazem inúmeros benefícios para ele. Mas você sabia que esse hábito também é vantajoso para os adultos? A redução de estresse é um dos efeitos, de acordo com a ciência. Veja outros

Talvez você tenha começado a ler para o seu filho pensando para estimular a linguagem, apresentar palavras novas, alimentar a imaginação ou simplesmente criar o hábito da leitura. Mas aquele momento em que vocês se sentam juntos, viram as páginas e conversam sobre a história pode estar fazendo algo por você também.

Não estamos falando aqui apenas da sensação (que já é maravilhosa!) de terminar o dia com um livro nas mãos. Pesquisas têm encontrado associações entre a leitura compartilhada entre pais e filhos e indicadores de bem-estar parental e qualidade da relação. Um dos estudos mais interessantes sobre o assunto acompanhou 293 mães e seus filhos desde a primeira infância. Os pesquisadores observaram que a leitura compartilhada aos 6 meses de idade estava associada, aos 18 meses, a menores níveis de estresse parental, maior calor na relação e maior sensibilidade materna durante as interações com a criança.

Ou seja: enquanto a mãe lê, ela não está apenas fazendo algo pela criança, mas também encontrando para si uma oportunidade de parar, observar o filho, acompanhar suas reações e compartilhar uma experiência com ela. É pura conexão!

Isso importa muito porque só quem é mãe sabe como a rotina com filhos pequenos costuma ser uma sucessão de tarefas: acordar, preparar refeições, levar para a escola, trabalhar, responder mensagens, organizar a casa, dar banho, ajudar com a lição, colocar para dormir… Sentar para ler pode ser um momento de pausa.

É claro que um livro, sozinho, não vai eliminar magicamente todo o estresse da maternidade. Além disso, seria injusto transformar a leitura em mais uma tarefa que a mãe precisa cumprir perfeitamente. A divisão justa das tarefas físicas e principalmente das mentais continua sendo o mais importante. Mas o que os estudos sugerem é algo mais simples: quando a leitura compartilhada acontece, ela pode favorecer interações positivas entre o adulto e a criança, experiências que têm repercussões também para o bem-estar dos pais.

Uma meta-análise publicada na revista Pediatrics reuniu 19 intervenções de leitura compartilhada, envolvendo 3.264 famílias. Os pesquisadores encontraram um efeito positivo e estatisticamente significativo sobre o funcionamento psicossocial de pais e crianças.

Durante muito tempo, quando se falava sobre ler para uma criança pequena, o foco estava principalmente nos benefícios para ela: linguagem, vocabulário, alfabetização e desenvolvimento cognitivo. Esses benefícios continuam sendo importantes. Mas a leitura compartilhada é também uma atividade de relacionamento. A criança aponta para uma figura, a mãe pergunta o que ela acha que vai acontecer, o filho responde, os dois riem. A mãe muda a voz para interpretar um personagem. A criança interrompe a história para contar alguma coisa que lembrou. São pequenas interações, mas é justamente aí que a leitura deixa de ser apenas uma atividade de linguagem e passa a ser uma experiência compartilhada.

No estudo com 293 mães, os pesquisadores encontraram relação entre a leitura compartilhada na infância e o aumento posterior da sensibilidade parental e do calor na relação. Sensibilidade, nesse contexto, é conseguir perceber e responder adequadamente aos sinais da criança. Você não vai se tornar magicamente uma mãe que nunca perde a paciência ou que entende perfeitamente o filho o tempo todo. Mas fica mais fácil estar presente, se comunicar, entender o que a criança precisa e responder a essas necessidades, sobretudo, emocionais.

O benefício pode estar justamente na conexão

Uma revisão sistemática publicada em 2025 ajuda a entender esse outro lado da leitura compartilhada. Os pesquisadores analisaram estudos qualitativos sobre a experiência de famílias com essa prática e identificaram, entre os facilitadores, a criação de experiências positivas e prazerosas, além do fortalecimento da motivação dos pais e dos vínculos familiares.

Ao mesmo tempo, a revisão mostrou algo que qualquer mãe provavelmente reconhece: falta de tempo, dificuldades de saúde mental, acesso aos livros e desafios para manter a criança envolvida podem dificultar a criação desse hábito.

Por isso, não adianta vir com a recomendação de que “toda mãe precisa ler todos os dias”. Assim, o momento se tornaria mais uma carga nas nossas costas, já exaustas. Talvez seja mais interessante pensar em como podemos criar pequenos momentos de leitura que sejam bons para os dois.

Não precisa ser perfeito

A leitura compartilhada não precisa acontecer em um quarto silencioso, com luz perfeita, durante 30 minutos, todos os dias. Pode ser uma história enquanto a criança toma leite. Pode ser um livro no sofá depois do banho. Pode ser uma página antes de dormir. Pode ser reler pela décima vez aquele mesmo livro que a criança escolheu.

E, principalmente, não precisa ser uma performance. Se a criança interromper, tudo bem. Se quiser olhar apenas as figuras, tudo bem. Se fizer perguntas no meio da história, melhor ainda. Se quiser inventar outro final, a história já virou outra coisa. Tudo isso vai acontecer. O objetivo é viver e estar ali de verdade, juntos.

O resultado? Alguns minutos em que o celular fica de lado, o que já é uma vantagem e tanto! Além disso é uma pausa nas tarefas, uma oportunidade de olhar para aquela criança sem precisar resolver nada, uma história que vira referência entre vocês, uma frase que vira piada da família, um personagem que aparece em conversas durante o dia…. E tantos outros!

A leitura compartilhada não é uma via de mão única. Ela pode beneficiar a criança — e, ao mesmo tempo, criar um espaço de conexão que também faz bem para quem está segurando o livro. Já escolheu a leitura de hoje?

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