Médicos e educadores reagem com indignação a gesto do presidente de retirar máscara de criança

Sociedade Brasileira de Pediatria emite nota de repúdio; especialistas de diversas áreas também se dizem perplexos com conduta do presidente que fere direitos das crianças

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Médicos e educadores reagem com indignação a gesto do presidente de retirar máscara de crianças; reprodução de cenas do presidente no momento em que pega criança no colo e retira a máscara dela
Reprodução de cena no momento em que o presidente pega criança no colo e retira máscara dela

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Causou indignação entre especialistas da área de educação, saúde e direito, a conduta do presidente da República, Jair Bolsonaro, esta semana, durante atos públicos no Rio Grande do Norte. Em um momento em que o país ultrapassa meio milhão de mortes por Covid-19 e a situação da pandemia ainda é preocupante, devido aos elevados números de casos e de óbitos e à presença de variantes do vírus mais transmissíveis, o presidente ignorou a obrigatoriedade de uso de máscara no estado potiguar ao aparecer sem o acessório em aglomeração, e também incentivou crianças a fazer o mesmo. No município de Pau dos Ferros, ele baixou a máscara de uma criança ao pegá-la no colo para uma foto. Já em Jucurutu, durante cerimônia para obras da Barragem de Oiticica, ele sugeriu a uma menina de dez anos que retirasse a máscara para recitar um cordel. Embora crianças e adolescentes sejam, proporcionalmente, bem menos atingidos pelo coronavírus do que adultos, o Brasil é hoje o segundo país em número de mortes de crianças por Covid-19, atrás apenas do Peru. (leia mais abaixo)

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) emitiu uma moção de repúdio nesta sexta-feira em que diz reprovar a atitude do presidente por entender que a exposição das crianças fere frontalmente o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que em seu artigo 5, determina que “nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punindo na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais”, o que, segundo a entidade, coloca em risco a saúde e a vida das crianças e de seus familiares.

No documento, a SBP definiu o caso como sendo uma afronta ao dever de proteção a esse segmento da população e também um desrespeito à lei. A entidade reforça, no documento, a recomendação de uso de máscaras por crianças a partir de dois anos de idade, como instrumento eficaz para a redução da transmissão de vírus respiratórios, bem como a adoção de outras ações para contenção do avanço da pandemia da Covid-19, como o distanciamento físico, o não compartilhamento de objetos de uso pessoal e a frequente higienização das mãos. O Ministério da Saúde recomenda o uso de máscaras para crianças acima de dois anos e com prudência até os cinco anos, principalmente quando estiverem realizando atividades que exijam esforço físico. 


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Para Claudia Costin, atitude do presidente é ‘antissocial e anticiência’

“Achei inaceitável o presidente retirar a mascara de uma criança e recomendar à outra que também o fizesse”, pontua Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe), da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, e professora visitante na Faculdade de Educação de Harvard (EUA). Ela recorda que o Governo Federal vem fazendo campanha, por meio do Ministério da Saúde, justamente para que crianças usem máscara na escola. “O presidente sabe que é ilegal ele não usar mascara. E recomendar a crianças que não cumpram a lei, não protejam a sua saúde e dos outros, faz com que a mensagem transmitida pelo seu governo seja de incentivar um comportamento antissocial e anticiência. Infelizmente o que um dirigente do porte de um presidente diz influencia muito o comportamento da população. Outras crianças e seus pais podem considerar que essa é a conduta recomendável, quando não é”, destaca a diretora da FGV.

‘Epidemia atinge os mais jovens agora e uso de máscara é fundamental’, diz Daniel Becker

Para o pediatra e sanitarista Daniel Becker, do Rio de Janeiro, a atitude do presidente de retirar mascara de uma criança é muito grave, ainda mais por estarmos em um momento em que a epidemia se volta para os mais jovens. “Os mais velhos já estão vacinados, mas vemos uma ‘terceira onda’ acontecer: é altíssimo o nível de contaminação entre jovens”, declara Becker. Além disso, ele diz que a ação de Bolsonaro expôs a riscos as crianças, suas famílias e todos que estavam na aglomeração. “Expõe a população brasileira a mais uma vez lidar com essa atitude patética, desonrosa, vil e perversa, de estimular a aglomeração sem máscara, quando a gente sabe que essa é a forma mais eficaz, do ponto de vista cientifico, de evitar infecções e controlar a pandemia”, pontua o pediatra.

Becker lembra que a variante indiana do novo coronavírus está provocando surtos em países com altos indíces de vacinação e que usam vacinas extremamente eficazes, devido a seu elevado nível de transmissibilidade, o que só reforça a importância de se precaver ainda mais no Brasil. “Na volta às escolas, teremos de ser extremamente cuidadosos nos protocolos e controles de pequenos surtos. O ideal seria testar todas as crianças duas a três vezes por semana, o que certamente controlaria os surtos nas escolas, se é que eles vão acontecer. Professores e adultos no geral devem usar máscara PFF2 e crianças a partir de 2 ou 3 anos também já conseguem usar máscara. É o momento de se cuidar.”


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‘Crianças são sujeitos de direito e devem ser respeitadas’, destaca Pedro Hartung, do Institulo Alana

Pedro Hartung, diretor de Políticas e Direitos das Crianças do Instituto Alana, em São Paulo, lamenta o ocorrido e lembra que o Brasil é o segundo país no mundo com mais mortes por Covid-19 de crianças até 9 anos de idade. “É uma demonstração eloquente que a presidência faz para todo o país de desprezo por medidas de segurança contra a Covid-19, em uma pandemia dessa proporção que vivemos no Brasil e no mundo, onde a mascara é uma da principais estratégias de defesa pessoal e coletiva, especialmente, se levado em conta o elevado número de mortes de crianças no país”, afirma Hartung.

Além disso, diz ele, é ainda mais grave o fato de o presidente ter retirado a máscara que a criança usava. “É uma afronta à criança, que foi colocada em seu colo com máscara e ele baixou o acessório para a foto. Se fosse com um adulto em qualquer outra situação, o presidente não teria feito isso. Crianças também são sujeitos de direito e elas devem se respeitadas”.

Manifestações em redes sociais

Diversos artistas, jornalistas e profissionais da saúde e da educação manifestaram-se nas redes sociais, principalmente no Twitter. Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP, escreveu: “Bolsonaro cometeu um grande erro ao retirar de maneira bruta as máscaras de duas crianças. O gesto contraria a sacralidade da proteção às crianças, tão fundamental para a visão de mundo conservadora”.

Denise Garrett, epidemiologista e vice-presidenta do Sabin Vaccine Institute, em Washington (EUA), também expressou sua indignação com a cena: “Impossível assistir esse vídeo sem sentir um grande aperto no peito. Induzir uma criança a retirar a máscara ao usar um microfone compartilhado, no meio de uma pandemia, é inimaginável”. Outro profissional da saúde que se manifestou foi Luiz Paulo Rosa, médico e docente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte: “É incrível como absolutamente todos os crimes que ele comete passam batidos e se tornam, apenas, mais uma notícia”.

Brasil é segundo lugar no ranking de crianças vítimas de Covid-19

Desde o início da pandemia até meados de maio deste ano, 948 crianças de zero a nove anos morreram de Covid-19, no Brasil, segundo dados do Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe), levantados pelo jornal Estado de S. Paulo. Isso faz com que o país fique em segundo lugar no ranking de crianças vítimas de Covid-19, atrás apenas do Peru. E esse número pode ser ainda maior, visto que é dada prioridade aos adultos na realização de exames de confirmação da doença, devido à escassez de testes, levando a uma subnotificação de mortes de crianças por Covid-19. A epidemiologista da organização não-governamental Vital Strategies, Fátima Marinho, estima pelo menos mais umas 1.500 mortes de crianças por covid-19. (Colaborou Amanda Nunes Moraes)


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