Para onde vai o seu dinheiro? Pesquisa mostra como a maternidade pesa no bolso das mulheres

O presente do amiguinho que faz aniversário, o remédio na farmácia, a fantasia da apresentação, o material pedido de última hora. Um levantamento da Think Olga e da Think Eva mostra que o cuidado com os filhos também tem um custo financeiro, que recai sobre as mulheres
Pra onde vai o dinheiro das mães? Foto: Magnific

Você já teve a sensação de que o seu dinheiro simplesmente desaparece? No fim do mês, é difícil lembrar exatamente onde ele foi parar. Mas basta olhar para a rotina da família para encontrar parte da resposta: o remédio comprado de última hora, o presente para o aniversário do colega da escola, a fantasia da festa junina, o lanche da excursão, o uniforme novo porque o antigo não serviu mais.

As despesas parecem pequenas, quando você olha isoladamente. Mas, ao somar, você leva até um susto. Elas representam uma quantia significativa, que costuma ser paga pelas mulheres.

Essa é uma das conclusões do estudo “Elas Pagam a Conta – Mulheres, dinheiro e a conta que não fecha”, lançado pela Think Olga e pela Think Eva. O levantamento mostra que além da diferença salarial, a desigualdade também se explica pelos inúmeros gastos invisíveis que acompanham quem cuida da casa, dos filhos e da família.

“Pix invisível”

Enquanto despesas maiores — como aluguel, financiamento ou mensalidade escolar — costumam ser divididas ou assumidas pelos homens, em alguns casos, são as mulheres que frequentemente arcam com os pequenos gastos cotidianos relacionados ao cuidado. Entram nessa lista o remédio para a febre, a lembrancinha da festa da escola, o shampoo infantil, a contribuição para uma atividade escolar, o lanche comprado na saída do treino ou aquele item que precisou ser comprado às pressas no supermercado. Esses valores raramente entram na “conta oficial” da família. Como acontecem aos poucos, acabam sendo absorvidos por quem está mais envolvida com a organização da rotina e deixam de ser percebidos como uma divisão desigual das despesas.

Cuidar também custa

O estudo mostra que a economia do cuidado pesa de diferentes formas sobre a vida financeira das mulheres. Além de gastarem mais com necessidades da família, elas também dedicam mais tempo ao trabalho não remunerado. Somando emprego, tarefas domésticas e cuidado de crianças ou familiares, as brasileiras trabalham, em média, 58,1 horas por semana, contra 50,3 horas dos homens.

Essa sobrecarga tem efeitos que vão muito além do cansaço. Segundo o levantamento, muitas mulheres recusam promoções, reduzem a jornada de trabalho ou interrompem a carreira porque simplesmente não conseguem conciliar as demandas profissionais com o cuidado da família. O estudo chama atenção para o fato de que essa realidade costuma ser interpretada como “falta de ambição”, quando, na verdade, é consequência da sobrecarga de responsabilidade.

O dinheiro nunca é realmente delas

Outro dado que chama atenção é a forma como as mulheres conseguem poupar. Quando sobra dinheiro, ele frequentemente já tem destino definido: a escola dos filhos, uma emergência médica, a viagem da família, a entrada da casa ou alguma necessidade futura dos pais e das crianças. Ou seja, é uma reserva que já nasce comprometida.

Esse é um dos motivos pelos quais tantas mulheres aparecem nas pesquisas como investidoras mais conservadoras. Não necessariamente porque tenham menos disposição para correr riscos, mas porque não podem comprometer recursos que talvez precisem usar a qualquer momento. Hoje, apenas 31% das brasileiras investem. Entre elas, 69% optam pela caderneta de poupança, justamente pela facilidade de resgate e pela sensação de segurança.

A maternidade amplia essa desigualdade

Embora o estudo trate da vida financeira das mulheres de forma ampla, a maternidade aparece como um momento em que essas diferenças se tornam ainda mais evidentes. Com a chegada dos filhos, aumentam tanto o tempo dedicado ao cuidado quanto os gastos invisíveis do cotidiano. Ao mesmo tempo, muitas mães reduzem a carga horária de trabalho, deixam oportunidades profissionais de lado ou enfrentam dificuldades para retornar ao mercado após a licença-maternidade. O resultado? Menos renda, menor capacidade de investir e mais dificuldade para construir patrimônio ao longo da vida.

Dinheiro e carga mental

Se você nos acompanha por aqui, já sabe o que é carga mental e tudo o que envolve esse trabalho invisível. Não se trata apenas de lembrar da consulta médica ou do material da escola. É também perceber que será preciso comprar o remédio, repor o leite, providenciar um presente ou trocar o tênis que ficou pequeno. Administrar o cuidado também significa pensar em uma série de pequenas despesas que passam despercebidas para quem não organiza a rotina da família.

Mais do que educação financeira

O relatório do Think Olga foi construído a partir da análise de mais de 100 estudos acadêmicos, dados públicos, livros, reportagens, entrevistas com especialistas e da escuta de uma comunidade com mais de 400 mulheres. A principal conclusão é que, para ter autonomia financeira, as mulheres não precisam só aprender a economizar ou investir. Isso simplesmente não acontece se não houver uma divisão mais equilibrada das responsabilidades de cuidado dentro de casa. E mais: é preciso ter políticas públicas que reconheçam esse trabalho invisível.

Enquanto o cuidado continuar consumindo tempo, energia e dinheiro de forma desproporcional, muitas mulheres seguirão pagando uma conta que quase nunca aparece na planilha da família, mas que pesa (e muito!) no bolso e na vida.

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