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Berço ou cama montessoriana: qual é a hora certa de mudar?
Quando pensamos em sono infantil, a decisão entre berço e cama não deveria considerar apenas a estética do quarto ou a facilidade dos pais durante a noite. É preciso olhar para segurança, desenvolvimento, maturidade e, principalmente, para a forma como essa criança adormece. De maneira geral, enquanto o berço continua adequado à altura da criança e dentro dos limites de segurança estabelecidos pelo fabricante, não existe necessidade de antecipar a mudança para a cama.
Inclusive, estudos com crianças pequenas já encontraram associação entre a permanência no berço e melhores resultados de sono relatados pelas famílias, como menor resistência para dormir, menos despertares e maior duração do sono noturno. Isso não significa que o berço, sozinho, faça uma criança dormir melhor. Mas mostra que não há motivo para ter pressa em retirar uma criança de um ambiente de sono que ainda é seguro e funciona bem.
O berço oferece uma contenção que o bebê ainda não consegue criar sozinho
Nos primeiros anos de vida, o berço oferece uma barreira física de proteção. Durante o sono, a criança pode se movimentar, rolar e mudar de posição sem sair do ambiente destinado a dormir. Quando o bebê passa para uma cama com livre acesso ao quarto, essa contenção desaparece. E aqui existe uma diferença importante entre um bebê de 8 meses ou 1 ano e uma criança próxima dos 2 anos.
Uma criança por volta dos 2 anos já começa a compreender regras, rotinas e relações entre acontecimentos. Isso não significa que ela vá obedecer sempre. Muito pelo contrário: ela pode testar o limite inúmeras vezes. Mas já existe um limite para ser compreendido e testado. Ela começa a entender que de noite nos deitamos para dormir e que, quando o dia começa, podemos levantar e sair do quarto. Aos poucos, a família ensina a relação entre liberdade e regras.
Um bebê pequeno ainda não tem essa maturidade. Se ele sair de uma cama e encontrar a porta aberta, poderá simplesmente explorar. Pode ir para o corredor, para a sala ou para outro ambiente acessível da casa. Não existe necessariamente a elaboração: “É noite. Meus pais estão no quarto deles. Vou procurá-los”. Próximo dos 2 anos, a criança já está entrando com mais força no universo simbólico e do faz de conta. Conhece melhor os espaços da casa e compreende onde as pessoas estão.
Quando sai do quarto durante a noite, a maioria tem medo de ficar sozinha, no escuro e, é muito comum que seu destino seja justamente o quarto dos pais. Por isso, antes de oferecer liberdade para sair da cama, precisamos pensar se a criança já possui alguma maturidade para compreender essa liberdade. Antes de aprender a respeitar um limite, a criança precisa ser capaz de compreender que o limite existe.
Mas, então, por que tantos bebês saem do berço tão cedo?
Na prática, muitas mudanças precoces para a cama não acontecem porque o bebê está preparado para ela. Acontecem porque ficou difícil colocá-lo no berço. Isso é muito comum com bebês que adormecem no colo, mamando ou sendo ninados e são transferidos já dormindo.
Conforme o bebê cresce, o estrado do berço precisa ser rebaixado para garantir a segurança. Ao mesmo tempo, o bebê fica maior e mais pesado. A transferência se torna fisicamente mais difícil para o adulto. Além disso, a partir do segundo semestre de vida, o bebê está cada vez mais atento às mudanças do ambiente. E surge uma situação frequente: ele adormece em um lugar e acorda em outro. O problema que começa a ser atribuído ao berço pode, na verdade, não estar no berço. Pode estar na forma como a criança chega até ele.
Se o bebê sempre adormece contido no colo ou junto ao corpo de um adulto, ele não teve a experiência consciente de relaxar, se movimentar e pegar no sono dentro daquele espaço. Quando desperta entre os ciclos de sono, encontra um ambiente diferente daquele em que adormeceu. Por isso, uma pergunta importante antes de retirar o berço é: Será que o bebê precisava sair do berço ou precisava aprender a adormecer nele?
O bebê precisa conhecer o lugar onde dorme
A partir do momento em que o bebê dorme em seu próprio quarto, existem duas transições importantes que precisam ser vivenciadas de forma consciente. A primeira é a transição do colo para o berço. O bebê precisa ter a experiência de estar acordado no berço, reconhecer aquele espaço, movimentar-se nele e, gradualmente, aprender que aquele é o lugar onde o sono acontece.
A segunda é a despedida dos pais. Por volta do segundo semestre de vida, o desenvolvimento da permanência do objeto ganha cada vez mais importância. O bebê começa a compreender que pessoas e objetos continuam existindo mesmo quando saem do seu campo de visão. É justamente por isso que brincadeiras como esconder o rosto com um pano e reaparecer são tão interessantes nessa fase.
Nós desaparecemos diante da criança e reaparecemos diante dela. Existe uma experiência de ausência e presença. No sono, essa lógica também importa. É diferente o adulto dizer boa noite, mostrar que está saindo e permitir que o bebê acompanhe essa despedida de simplesmente desaparecer depois que ele dormiu.
Mesmo que exista desconforto com a separação, existe uma diferença entre a despedida e o sumiço. O bebê não precisa acreditar que os pais permanecerão ao lado dele a noite inteira. Ele precisa, gradualmente, aprender que papai e mamãe saem do quarto, mas continuam existindo e estão por perto. Nada precisa acontecer de surpresa. Nem a mudança do colo para o berço. Nem o desaparecimento dos pais do quarto.
A cama pode facilitar os despertares sem necessariamente resolvê-los. Outro motivo comum para a mudança precoce para a cama são os despertares noturnos frequentes. Quando é necessário pegar o bebê várias vezes para amamentar, ninar ou fazê-lo voltar a dormir, uma cama no chão parece facilitar muito a rotina. O adulto pode simplesmente se deitar ao lado.
Na amamentação, algumas mães acabam permanecendo deitadas junto à criança durante grande parte da noite para facilitar o acesso ao peito. Sem dúvida, pode ser mais cômodo. Mas facilitar a resposta ao despertar não significa necessariamente diminuir os despertares.
Muitas vezes, a forma de adormecer permanece exatamente a mesma e o ciclo continua: a criança desperta, procura as mesmas condições que estavam presentes quando pegou no sono e precisa novamente da ajuda do adulto. Retira-se a grade do berço, mas não se trabalha a forma de adormecer. Claro que existem famílias que, desde o início, escolheram conscientemente não utilizar o berço e organizaram toda a casa e a rotina dentro de outra proposta. Essa é uma escolha familiar.
Mas, quando uma família comprou e utilizou o berço e começa a pensar em abandoná-lo apenas porque não consegue mais transferir o bebê dormindo ou porque precisa deitar-se ao lado dele inúmeras vezes durante a noite, vale investigar a origem da dificuldade antes de mudar o ambiente de sono.
Mais importante do que a idade é a segurança
Não existe uma recomendação pediátrica universal que determine que toda criança deva sair do berço exatamente aos 2 anos. A American Academy of Pediatrics1 utiliza critérios físicos e de segurança para orientar essa transição. Entre eles, estão a capacidade de escalar o berço, a criança atingir aproximadamente 89 a 90 centímetros de altura ou a lateral do berço já ficar próxima à altura do peito. Isso significa que não devemos esperar a criança tentar sair para então concluir que chegou o momento da mudança. “Mas meu filho nunca tentou escalar o berço” é uma frase frequente.
O problema é que a primeira tentativa pode ser justamente aquela em que ele consegue. Por isso, mais do que observar a iniciativa ou a habilidade que a criança já demonstrou, é preciso olhar para a relação entre a altura da criança e a grade do berço, além de respeitar sempre os limites de segurança estabelecidos pelo fabricante. Próximo dos 2 anos, muitas crianças apresentam também maior maturidade do ponto de vista do desenvolvimento.
Nessa fase, já existe uma capacidade maior de compreender rotinas, regras e limites. Isso não significa que a criança irá obedecer às regras. Ela poderá testar os limites inúmeras vezes. Mas já consegue compreender a mensagem de que existe um momento para deitar e dormir e um momento para levantar.Portanto, os 2 anos não devem ser entendidos como uma data rígida para abandonar o berço. A segurança e a altura vêm primeiro. A maturidade da criança ajuda a pensar em como ela irá lidar com a liberdade oferecida pela cama.
E a cama montessoriana?
A cama montessoriana pode ser uma excelente opção quando chega o momento da transição. Mas é importante lembrar que uma cama baixa não elimina todos os riscos. Muitos modelos possuem uma pequena grade de proteção e uma abertura destinada à entrada e à saída da criança. Uma criança com maior maturidade espacial compreende, gradualmente, que existe um vão por onde deve sair.
Um bebê pequeno pode simplesmente tentar passar por cima da grade. Mesmo sendo uma altura baixa, quedas podem acontecer. Além disso, quando a criança pode sair livremente da cama, o quarto inteiro passa a fazer parte do ambiente de sono. E, se a porta permanece aberta, os outros espaços acessíveis da casa também precisam ser considerados. Móveis, fios, tomadas, objetos pequenos, escadas e acesso a outros cômodos precisam ser avaliados com muito cuidado.
A liberdade oferecida pela cama exige uma mudança na forma como pensamos a segurança do ambiente. Então, quando mudar do berço para a cama? Não existe uma idade única que sirva para todas as crianças. Minha recomendação é manter o berço enquanto ele continuar seguro, adequado à altura da criança e dentro dos limites estabelecidos pelo fabricante. Próximo dos 2 anos, muitas crianças já possuem maior compreensão de rotina, regras, espaço e ausência e presença dos pais.
Por isso, considero esse um momento geralmente mais favorável para a transição. Mas, antes de trocar o berço por uma cama porque o bebê se mexe muito, porque ficou difícil transferi-lo dormindo ou porque os despertares estão frequentes, talvez seja importante fazer outra pergunta:
O problema está realmente no berço?
Muitas vezes, antes de mudar o lugar onde a criança dorme, precisamos ajudá-la a conhecer, com segurança e de forma consciente, o lugar onde ela já dorme. Adormecer no mesmo ambiente em que irá despertar. Conhecer o próprio espaço de sono: solto, espaçoso e parado. Vivenciar a despedida dos pais em vez de perceber seu desaparecimento. Porque autonomia não começa simplesmente quando retiramos uma grade. Autonomia também se constrói com previsibilidade, segurança, maturidade e limites.
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Deborah Moss
É neuropsicóloga, especialista em sono infantil, mestre em psicologia pela USP, educadora parental e autora do livro Hora de Nanar
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