O que os jogos da Copa podem ensinar às crianças, segundo a educação Montessori

Bandeiras, mapas, países, culturas e muitas perguntas. O maior torneio de futebol do planeta pode se transformar em uma oportunidade de descoberta
O que as crianças aprendem com a Copa do Mundo? Foto: Magnific

Quando se fala em educação Montessori, uma das primeiras ideias que vêm à mente é a de respeitar a curiosidade natural da criança. Criada pela médica e educadora italiana Maria Montessori, a metodologia parte do princípio de que o aprendizado acontece de forma mais significativa quando nasce de um interesse genuíno, verdadeiro, espontâneo mesmo.

Em vez de transmitir conteúdos prontos, o papel do adulto é atuar como um guia, observando os interesses da criança e oferecendo oportunidades para que ela explore, investigue e construa conhecimento por conta própria. A vantagem? A linha pedagógica estimula a autonomia, o pensamento crítico, a concentração e, mais importante: o prazer em aprender. E é justamente por isso que eventos que despertam a atenção das crianças, como a Copa do Mundo, são oportunidades valiosas de aprendizagem.

Enquanto muitos adultos acompanham os jogos pensando nos resultados, educadores Montessori enxergam outra possibilidade: a de apresentar às crianças diferentes culturas, países, símbolos e modos de vida por meio de um tema que já desperta naturalmente a curiosidade delas. “Quando temas presentes na vida cotidiana despertam o interesse das crianças, eles se transformam em poderosas oportunidades de investigação”, explica Mariana Kimiko, educadora da Senses Montessori School (SP).

O futebol é só o começo

Bandeiras, uniformes coloridos, mascotes, hinos e países que nunca ouviram falar antes: tudo isso desperta o interesse dos pequenos durante o campeonato. A diferença está no que fazemos com essa curiosidade.

Segundo Mariana, a competição pode servir como uma porta de entrada para ampliar o conhecimento de mundo. “A Copa do Mundo aproxima as crianças de diferentes países, culturas, símbolos e localizações geográficas, ampliando seu repertório e fortalecendo conexões com os acontecimentos do mundo contemporâneo”, afirma.

Na prática, isso significa transformar perguntas simples em investigações mais profundas. “Onde fica aquele país?”, “Em qual continente está?”, “Como vivem as pessoas que moram lá?”, “Que idioma elas falam?”, “Quais são seus costumes?”

São alguns exemplos de perguntas que ajudam os pequenos a perceberem que existe um mundo muito maior do que a realidade que ela conhece.

Conhecimento de Mundo na prática

Dentro da pedagogia Montessori, existe uma área conhecida como Conhecimento de Mundo, que busca ajudar a criança a compreender o planeta, a natureza e as diferentes sociedades humanas. A Copa dialoga diretamente com esse conceito.

Ao acompanhar os jogos, a criança pode observar mapas, localizar países, identificar continentes e compreender que diferentes povos compartilham o mesmo planeta. Ela memoriza informações, mas não é só isso. Ela passa a construir conexões.

Perguntas interessantes, respostas nada óbvias

Uma das características da metodologia Montessori é valorizar o processo de descoberta. Por isso, curiosidades e fatos inesperados costumam gerar conversas muito ricas. “Um exemplo é a Austrália, que geograficamente pertence à Oceania, mas atualmente integra a Federação Asiática de Futebol. Essas descobertas despertam perguntas e reflexões importantes”, destaca Mariana. São situações que mostram às crianças que o conhecimento não é feito apenas de respostas prontas, mas também de perguntas.

Bandeiras contam histórias

Outro aspecto que costuma chamar a atenção dos pequenos são os símbolos presentes na competição. As bandeiras, por exemplo, podem render muito mais do que uma atividade de colorir. Ao observar cores, formas e desenhos, as crianças exercitam a atenção aos detalhes e começam a perceber como diferentes países escolhem representar sua identidade. Também é possível comparar as bandeiras oficiais com os escudos das seleções, observando semelhanças e diferenças.

Uma lição sobre trabalho em equipe

Embora a Copa seja lembrada pelos gols e pelos grandes craques, ela também oferece uma oportunidade para conversar sobre colaboração. Ao observar uma partida, a criança pode perceber que o resultado não depende apenas de quem marca o gol. Existe o goleiro, a defesa, o meio-campo, o ataque e o trabalho do técnico. Cada pessoa tem uma função diferente, mas todas contribuem para um objetivo comum. Essa é uma lição que ultrapassa o esporte e pode ser levada para a escola, para a família e para as relações sociais.

Como aproveitar a Copa em casa

Nem precisa transformar a sala em uma sala de aula para estimular a aprendizagem. Pequenos gestos já fazem diferença. Antes de uma partida, vocês podem, por exemplo, procurar juntos a localização dos países participantes em um mapa ou globo terrestre. Durante os jogos, observem bandeiras, uniformes e idiomas. Isso pode render conversas interessantes. Depois, a família pode pesquisar curiosidades sobre os lugares que chamaram a atenção da criança.

O mais importante, segundo a educadora, é seguir o interesse dos pequenos. Quando a curiosidade guia o processo, o aprendizado acontece de forma natural. “Nossa intenção é que as crianças possam construir memórias afetivas desse momento, associando a aprendizagem a uma experiência coletiva de descoberta, pertencimento e celebração”, conclui.

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