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Meninos estão sofrendo por serem gentis e isso tem até nome: “discrepancy stress”
Ser gentil, carinhoso, respeitoso e emocionalmente disponível ainda pode ser motivo de estranhamento entre meninos adolescentes. Em muitos grupos, demonstrar sensibilidade continua sendo visto como sinal de fraqueza. Fugir do modelo tradicional de masculinidade pode trazer exclusão, vigilância e sofrimento psicológico.
Foi justamente sobre esse tema que a neurocientista e pesquisadora Ligia Moreiras refletiu em uma publicação recente nas redes sociais, compartilhada em seu perfil, o @cientistaqueviroumae. No texto, ela explica o que é o chamado discrepancy stress, termo usado para descrever a tensão emocional vivida por meninos que sentem que não correspondem ao ideal social do que seria um “homem de verdade”.
“Meninos adolescentes que não querem corresponder ao ideal de masculinidade tóxica estão vivendo uma tensão psicológica que tem nome: discrepancy stress”, escreveu. Segundo Ligia, muitos adolescentes crescem aprendendo que afeto, delicadeza e vulnerabilidade podem ameaçar seu pertencimento social. “Toda vez que um menino adolescente é gentil, afetuoso, cuidadoso e respeitoso, seja com a família ou com os amigos, a chance de vir acompanhado de uma reação de estranhamento é muito grande. Como se fosse algo ‘esquisito’, um garoto não performar dureza, agressividade ou hiperssexualização”, afirma.
Ela destaca que muitos meninos passam a reprimir partes importantes de si mesmos para evitar rejeição dos próprios pares. “Muitos deles aprendem cedo que sensibilidade pode custar pertencimento social: que abraçar demais, demonstrar afeto, ser gentil, recusar humilhar meninas ou não transformar tudo em disputa pode colocá-los sob vigilância dos próprios pares”, detalha.
O sofrimento para estes adolescentes é duplo e vem tanto pelos impactos da masculinidade tóxica quanto pelo conflito interno vivido por quem tenta se afastar dela.
“As pesquisas também já mostraram que adolescentes meninos que sentem pressão para corresponder a esse modelo adoecido de ‘homem de verdade’ podem desenvolver o chamado ‘discrepancy stress’: sofrimento de acreditar que não são ‘masculinos o suficiente’”. Segundo a pesquisadora, esse estresse pode inclusive estar relacionado a comportamentos violentos como forma de reafirmação masculina.
“Nossos meninos estão precisando muito de nós”
Ligia faz um apelo para que famílias olhem com mais acolhimento para os adolescentes que tentam preservar sensibilidade, ética e afeto em ambientes que frequentemente valorizam endurecimento emocional. “É algo profundamente cruel ensinar meninos a amputarem partes de si para serem aceitos socialmente”, diz.
Na visão dela, uma das tarefas emocionais mais importantes das famílias hoje talvez seja justamente proteger nos meninos aquilo que a sociedade tenta endurecer. “Um adolescente gentil é um menino forte duplamente: por sustentar sua gentileza em um mundo que não o apoia nisso e por enfrentar a reação contrária que pode vir. Mas ser forte não o impede de estar sofrendo por isso…”. Autora do livro Adolescência com amor, a especialista conclui: “Vamos olhar para eles com amor. Nossos meninos estão precisando muito de nós”.
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