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Identidade de gênero: por que escolas e famílias precisam discutir o assunto
Recentemente voltei a conversar com mães sobre educação e valorização dos professores e algumas delas mencionaram a chamada “ideologia de gênero”, expressão que não é usada por educadores mas que se fortaleceu em documentos religiosos e entre os que são contra a abordagem de identidade de gênero nas escolas .
Embora o assunto já tenha sido amplamente debatido em grupos de mães, ainda é preciso falar sobre isso. Em especial, pelo fato de que o Supremo Tribunal Federal (STF) iria votar no próximo dia 11 de novembro uma ação sobre “bullying homofóbico”, termo que se refere à discriminação de crianças e adolescentes por gênero, identidade de gênero e orientação sexual. Por causa dessa votação, diversos grupos religiosos se pronunciaram e buscam apoio para uma petição online contrária ao tema.
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É fundamental, portanto, trazer à tona novamente essa temática para garantir que crianças e adolescentes não sejam discriminados de nenhuma forma.
Mais de 70% das violências sexuais acontecem em ambiente intrafamiliar. Logo, não podemos dizer que esse é um assunto que deve ser tratado apenas em casa, pois isso não garante a proteção das crianças. É necessário que a escola discuta educação sexual e que meninas e meninos aprendam sobre as partes íntimas e que o corpo deles é só deles e não pode ser tocado sem consentimento. “Meu corpo, minhas regras” é o lema que devem seguir.
É necessário que a escola discuta educação sexual e que meninas e meninos aprendam sobre as partes íntimas e que o corpo deles é só deles e não pode ser tocado sem consentimento.
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Há um enorme equívoco em relação ao que é a educação sexual nas escolas. Não se trata de ensinar as crianças a fazer sexo ou escolher se elas vão querer ser meninos ou meninas. Pelo contrário, a educação sexual é uma forma eficaz de prevenção e combate ao abuso sexual infantil, em um país que sofre seriamente com isso e faz com que meninas de 10 anos tenham de ser submetidas a procedimentos de aborto após sofrer violência sexual.
Para falar com mais propriedade sobre essa questão e explicar o que é a identidade de gênero, convidei uma amiga, Larissa Figueiredo Gomes, psicóloga clínica, especializada no assunto, que trabalha na Atentia Atenção Médica, em Belo Horizonte. Segue abaixo o seu depoimento.
‘Queremos prevenir a violência sexual e o respeito ao corpo’
“O tema de identidade de gênero tem sido amplamente debatido ao longo dos últimos anos. Em 2011, o Ministério da Educação produziu um material denominado “Escola Sem Homofobia”, (http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2015/11/kit-gay-escola-sem-homofobia-mec1.pdf), em que discorre sobre a violência física e simbólica sofrida por pessoas que destoam do que chamamos de heteronormatividade. O conteúdo, basicamente, orientava os professores a ensinar seus alunos sobre o respeito às pessoas, independentemente de sua orientação sexual.
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Porém, após uma leitura rasa deste material, figuras políticas resolveram combater o que eles nomearam “ideologia” de gênero. Importante salientar que este termo foi cunhado por eles e inexiste na literatura. Pejorativamente apelidaram o material de “kit gay”. Bradaram aos quatro ventos que o objetivo era ensinar às crianças que, mesmo nascendo do sexo masculino, eles poderiam escolher ser mulher e vice-versa. Como se isso fosse possível.
Este discurso imprudente gerou na sociedade brasileira comoção tamanha que pessoas que realmente se importam com o futuro de nossos jovens e crianças passaram a ser utilizadas como massa de manobra.
A expressão “gênero social” possui respaldo científico. Surgiu através de estudos antropológicos que provaram que seres humanos, ao longo do tempo, atribuem papéis sociais distintos a homens e mulheres. Assim, a categoria homem e mulher, diferentemente do sexo biológico (macho e fêmea), é uma construção social, que muda com o passar do tempo e está ligado ao contexto cultural em que os indivíduos estão inseridos.
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A questão de gênero gerou pesquisas sobre a condição de pessoas que possuem uma identidade de gênero que não coincide com a sua biologia, ou seja, pessoas que mesmo tendo uma anatomia que lhe vincula a um sexo biológico (macho ou fêmea) se identificam, desde a primeira infância, com os papéis sociais atribuídos ao sexo oposto – os transexuais.
Existem relatos de indivíduos que experimentam essa condição nos mais variados períodos da história e nas mais diversas culturas! E sim, inclusive em culturas não ocidentais (grupos de povos indígenas, chineses, indianos e árabes).
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Ao pesquisar e testemunhar a violência sofrida por estas pessoas, constatei a dura realidade de crianças e jovens que, por não se enquadrarem em um padrão de comportamento visto como “normal”, são violentados, das mais diversas formas, rotineiramente. Soma-se a isso o fato dessas violências serem negligenciadas e, algumas vezes, até estimuladas por “educadores” e família. Isso quando estes não são os próprios autores das agressões. Esse cenário torna evidente a importância de introduzir, na formação dos professores, diretores e estudantes, conteúdos que os ajudem a lidar com a diversidade sexual de forma humana e consciente, entendendo que independentemente da orientação sexual, todos merecem ser respeitados.
Informações equivocadas divulgam por aí que queremos convencer crianças a fazer cirurgia de mudança de sexo, forçar meninos a usar batom e meninas cortarem o cabelo. Isso não é verdade. Queremos mostrar que todos podem ser afetuosos e respeitosos. Queremos produzir oportunidade para todos serem o que quiserem (bailarinos, cientistas, médicos, astronautas, designer e o que mais vier). Queremos prevenir a violência sexual e o respeito ao corpo. Queremos ensinar que meninos também sofrem violência sexual.” (Por Larissa Figueiredo Gomes é psicóloga Clínica na Atentia Atenção Médica)
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.
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Bebel Soares
Bebel Soares é arquiteta urbanista, psicanalista, escritora, mãe do Felipe e fundadora da comunidade materna Padecendo no Paraíso, onde informa e dá suporte a mães desde 2011.
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