Artigos
Antecipação das férias: nem todas as escolas aderem e órgãos não têm consenso quanto à medida
Nas últimas semanas, diversas escolas públicas e particulares de todo o país anunciaram que vão antecipar as férias escolares. É uma saída para evitar a perda do ano letivo devido à suspensão das aulas por causa da pandemia do novo coronavírus. A antecipação das férias também possibilitaria que as escolas se preparassem melhor para o ensino a distância, que poderia ser utilizado caso as medidas de isolamento social continuassem valendo nos próximos meses. Mas também há escolas que resolveram já iniciar atividades a distância direto com os alunos, sem mexer no calendário.
Segundo monitoramento do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), sete estados e o Distrito Federal anteciparam as férias: Minas Gerais, Paraíba, São Paulo, Piauí, Tocantins, Mato Grosso, Roraima. Os 18 estados restantes têm compensado a suspensão das aulas por meio de teleaulas e ou ensino remoto.
No dia 1° de abril, o governo federal publicou medida provisória que pode ajudar as instituições de ensino a não perder o ano: a medida flexibiliza o cumprimento de 200 dias letivos por escolas e universidades em 2020. Na educação básica, por exemplo, será obrigatório atingir pelo menos 800 horas-aula – mas essas horas poderão, em caráter excepcional, ser distribuídas em menos de 200 dias. Isso significa que as escolas poderão ter mais aulas por dia para compensar o tempo que ficaram paradas.
Leia também – Terapia online para crianças: vale a pena manter durante a quarentena?
Escolas públicas de São Paulo aderem à antecipação de férias escolares
Em São Paulo, as escolas públicas já entraram em férias. Na rede estadual, as férias de julho e dois recessos que aconteceriam em abril e em outubro foram antecipados, somando no total quatro semanas sem aulas – de 23 de março até 20 de abril. Na rede municipal, estudantes, professores e auxiliares pararam também no dia 23 e ficarão sem atividade até 9 de abril. Em nota da prefeitura, o secretário municipal de educação Bruno Caetano afirma que a mudança não trará prejuízos pedagógicos a estudantes e professores.
Divergências sobre a antecipação das férias na rede privada
As escolas públicas seguem as decisões dos governos – mas e as escolas particulares? Na rede privada de ensino, instituições como Colégio Albert Einstein e Bakhita, ambos na zona oeste da capital paulista, também anteciparam as férias. Já o Colégio Bandeirantes, na zona sul, informa em seu site que está realizando o ensino à distância. A Waldorf São Paulo, na mesma região, também faz uso de ferramentas virtuais para turmas a partir do ensino fundamental, enquanto alunos do maternal e do jardim de infância estão sem atividades.
Órgãos que representam as instituições de ensino privadas têm posicionamentos diferentes. O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp), que representa 4,5 mil instituições privadas paulistas, recomenda a antecipação das férias. “Reiteramos a importância de todas as escolas em conceder as férias agora, a partir de 1º de abril, sem qualquer hesitação”, afirma comunicado assinado pelo presidente do sindicato Benjamin Ribeiro da Silva. Segundo a nota, a maioria das escolas particulares têm seguido essa recomendação, “ganhando um tempo valioso para melhor preparar aulas a distância e atividades para os alunos”.
Leia também – Como pais e crianças podem manter o autodomínio durante a quarentena?
Com opinião contrária, a Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar), que tem 23 escolas associadas, recomenda que as atividades não parem. Em nota, a associação havia afirmado que “a antecipação das férias escolares para o mês de abril prejudicaria as ações programadas e realizadas por nossas escolas, professores, alunos e famílias, que vêm mantendo as atividades pedagógicas ainda que de forma não-presencial”.
Questionada, a Abepar afirmou que as escolas associadas, que reúnem cerca de 30 mil alunos, seguem no mês de abril com atividades não-presenciais e que, depois disso, o calendário está indefinido. “Não há ainda uma orientação definida para os meses de maio, junho e subsequentes”, afirmou, por meio de nota.
Para Abepar, ensino infantil a distância é complexo
No último dia 30, a diretoria da Abepar se reuniu e elaborou um documento que aponta problemas e alternativas em relação ao dilema de antecipar ou não as férias escolares. Um dos problemas apontados pelo documento é a dificuldade da realização de atividades não-presenciais para a educação infantil e para as primeiras séries do fundamental.
Leia também – Atenção à maneira como você conta histórias da sua infância a seus filhos
“Nesse caso, a troca, o olhar, a brincadeira coletiva e as atividades socializadoras são ainda mais importantes […] e exigem estreita colaboração com a escola por parte dos adultos da família, que têm, por seu turno, as suas próprias atividades, responsabilidades, trabalhos etc”, diz o texto. Como alternativa, a associação considera adotar férias escolares separadas para a Educação Infantil, que aconteceriam agora, o que poderia amenizar a situação de famílias que têm mais de um filho, deixando uma das crianças em férias e o outro com atividades, por exemplo. A diretoria da Abepar voltará a se reunir no dia 15 de abril para rediscutir a questão e diz estar aberta a sugestões das escolas associadas.
Fepesp diz que antecipação de férias escolares pode prejudicar os docentes
A Federação dos Professores do Estado de São Paulo (Fepesp) também não concorda com a antecipação das férias escolares. Contatada pela reportagem, a instituição afirmou que recomendou às escolas que “não alterassem o planejamento de férias coletivas de professores nas escolas privadas (que representamos)”. O órgão também aponta que férias agora poderiam prejudicar os professores, porque desorganizaria o ano letivo, especialmente no caso de professores que dão aula em mais de uma instituição e que poderiam ter férias em épocas diferentes. A federação também aponta que a antecipação poderia provocar desgaste e Síndrome de Burnout pelo acúmulo de dias letivos no período pós-quarentena.
A Fepesp afirma ainda que sua preocupação é que, mesmo com a imposição de férias por escolas, professores sejam chamados a “colaborar” com a preparação de aulas a distância. Por isso, a instituição iniciou uma campanha para garantir que, durante as férias impostas, o professor não seja chamado a executar qualquer tipo de serviço pedagógico em casa. “As escolas não podem dar férias e pedir ajuda a professores neste período, seja na forma de preparação de aulas a distância, convocação para reuniões, bilhetinhos, mensagens por whatsapp, nada disso”, diz Celso Napolitano, presidente da Fepesp.
Quer receber mais conteúdos como esse? Clique aqui para assinar a nossa newsletter.
Heloisa Scognamiglio
Jornalista formada pela Unesp. Foi trainee do jornal O Estado de S. Paulo e colaboradora em jornalismo da TV Unesp. Na faculdade, atuou como repórter e editora de internacional no site Webjornal Unesp e como repórter do Jornal Comunitário Voz do Nicéia. Também fez parte da Jornal Jr., empresa júnior de comunicação, e teve experiências como redatora e como assessora de comunicação e imprensa.
VER PERFILAviso de conteúdo
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.
Veja Também
Galinha Pintadinha, agora no cinema
Primeiro filme da personagem estreia nesta quinta-feira (1º) e apresenta a Popó em animação 3D, com uma história criada especialmente...
5 formas de lidar com as explosões de raiva das crianças, sem perder a calma junto
Seu filho grita, chora, joga coisas no chão... O que fazer para encerrar ou, ao menos, amenizar a crise? O...
Cyberbullying não começa na internet: estudo mostra que violência pode acompanhar adolescente da escola para as telas
Pesquisa com 4,2 mil estudantes revela que jovens envolvidos em diferentes formas de bullying têm risco muito maior de apresentar...
Mudanças na licença-maternidade: mães biológicas e adotivas agora têm os mesmos direitos
STF decidiu que mães biológicas e adotivas têm direito ao mesmo período de afastamento; medida vale para trabalhadoras CLT, servidoras...








