Educação financeira: por que é urgente que as mães entendam sobre o próprio dinheiro

Saber quanto entra e quanto sai é só o começo. Para as mães, educação financeira também significa conhecer os próprios direitos, participar das decisões da família, construir uma reserva e ter mais segurança para enfrentar imprevistos

“Eu não entendo nada de dinheiro. Meu marido cuida dessa parte”. É uma frase que pode aparecer em conversas sobre finanças. Em muitas famílias, uma pessoa paga as contas, acompanha os investimentos e resolve as questões bancárias enquanto a outra cuida de outras áreas da vida.

Mas não saber nada sobre a organização financeira — quanto existe de patrimônio, quais são as dívidas, quais seguros estão contratados, onde estão os investimentos, quanto custa manter a casa ou o que aconteceria se a renda principal desaparecesse – é, sim, um problema. E dos grandes!

Ao contrário do que muita gente pensa, educação financeira para mães não é (ou, pelo menos, não deveria ser) apenas uma ferramenta para aprender a economizar. É também uma questão de autonomia e proteção.

Um levantamento do Banco Central mostra que o letramento financeiro dos brasileiros ainda precisa avançar e que alguns grupos apresentam resultados mais baixos, entre eles as mulheres. O indicador considera três dimensões: conhecimento financeiro, atitudes e comportamentos.

Em 2026, o próprio Banco Central dedicou uma conferência à relação entre finanças, cidadania e bem-estar das mulheres, reunindo pesquisas sobre gênero, raça, crédito e educação financeira. Uma das análises apresentadas mostrou que as mulheres participam ativamente do sistema financeiro, mas têm padrões diferentes dos homens: utilizam mais instrumentos transacionais e seu crédito está mais concentrado em modalidades sem garantia, enquanto os homens apresentam maior participação em linhas associadas à formação de patrimônio.

Não é que as mulheres não lidem com dinheiro. Elas lidam — e muito. O que falta, às vezes, é acesso, conhecimento, confiança e participação em determinadas decisões financeiras.

A chegada dos filhos muda completamente a relação de muitas famílias com o dinheiro. Começam surgir gastos grandes que antes não estavam no orçamento, como escola, alimentação, saúde, roupas, atividades, transporte e lazer. Ao mesmo tempo, podem surgir mudanças na carreira, redução de jornada ou períodos de afastamento do trabalho.

Um estudo publicado em 2025 na revista The Sociological Review investigou como a maternidade influencia a maneira como as famílias lidam com o dinheiro. A pesquisa identificou que, além da redução de renda e do aumento do trabalho financeiro, emocional e cognitivo, as normas sociais associadas à maternidade podem levar as mulheres a internalizar a responsabilidade pelo bem-estar financeiro da família, fazendo com que uma questão que também é social e coletiva seja percebida como um problema individual da mãe.

Mas olha o paradoxo: a mãe pode ser uma das pessoas mais envolvidas na administração da vida familiar e, ainda assim, não necessariamente participar das decisões de patrimônio e investimento. Por isso, a urgência em entender sobre dinheiro não quer dizer que você seja, necessariamente, a pessoa que controla o orçamento da casa. Mas você não pode ficar alheia a ele.

Outro conceito em que muita gente acredita é que a educação financeira não é importante para quem não tem uma renda alta. Um erro! Uma mãe que ganha R$ 3 mil precisa tomar decisões financeiras. Uma que ganha R$ 30 mil também. O que muda são as possibilidades e os instrumentos disponíveis.

Em qualquer faixa de renda, alguns conhecimentos básicos podem fazer diferença: entender juros, saber o custo real de uma dívida, acompanhar o orçamento, conhecer os próprios gastos, montar uma reserva possível, entender seguros e investimentos e planejar objetivos de médio e longo prazo.

O Banco Central define letramento financeiro justamente como um conjunto de conhecimentos, atitudes e comportamentos que ajudam as pessoas a fazer escolhas financeiras no dia a dia. Entre os exemplos estão compreender juros e inflação, fazer um orçamento, planejar e poupar.

Reserva de emergência

Imagine uma criança doente que precisa de um tratamento inesperado ou algo que precisa de um conserto urgente em casa. Outros acontecimentos podem “atropelar” as famílias, como uma demissão, uma mudança de escola ou uma separação. Quando você tem filhos, os imprevistos podem ganhar uma carga dramática mais alta.

Por isso, ter algum dinheiro reservado pode representar mais do que tranquilidade financeira, mas a capacidade de reação. Apesar disso, uma pesquisa realizada pela Serasa em 2026 mostrou que essa é uma área especialmente difícil para as mulheres: 81% delas disseram não ter uma reserva de emergência, e apenas 17% afirmaram conseguir pagar todas as contas e ainda guardar dinheiro. Entre os homens, 32% disseram possuir algum tipo de reserva, contra 19% das mulheres.

É importante lembrar que uma pesquisa de mercado não explica, sozinha, por que essa diferença existe. Mulheres podem ganhar menos (ainda que executem as mesmas funções que os homens), ter jornadas de trabalho interrompidas, maior responsabilidade pelo cuidado e outros fatores estruturais. Dizer simplesmente “é preciso aprender a poupar” seria simplificar demais a questão.

Um estudo publicado em 2025 acompanhou uma intervenção de educação financeira voltada a mães de baixa renda, principalmente mães de bebês. O programa foi pequeno — 56 mulheres participaram e apenas 15 completaram a avaliação após as aulas —, portanto os resultados precisam ser interpretados com cautela.

Ainda assim, as participantes que fizeram as aulas relataram maior conforto para procurar um banco e perguntar sobre produtos e serviços financeiros e maior capacidade de tomar decisões financeiras que eram novas para elas. Também melhorou a capacidade relatada de lidar com uma despesa importante. Quando você aprende, ganha mais segurança para perguntar, comparar e decidir.

Outro estudo, realizado com mais de mil mulheres canadenses, encontrou aumento de cerca de 6% na confiança financeira imediatamente depois de intervenções simples que ensinavam conceitos financeiros ou apresentavam histórias de outras mulheres lidando com dinheiro. A confiança também esteve associada a melhores comportamentos de gestão financeira e maior poupança.

E se um dia você precisar cuidar de tudo sozinha?

Essa talvez seja uma das razões mais importantes para uma mãe conhecer as finanças da família. Ninguém gosta de ficar imaginando uma separação ou uma tragédia. Mas, caso algo assim aconteça, vai ser muito mais difícil aprender a administrar a própria vida financeira no meio de uma crise.

Se o companheiro ficar doente, perder a renda, morrer ou se o casal se separar, a mulher pode precisar tomar decisões rapidamente. E agora? Onde estão os documentos? Quais são as contas? Existem dívidas? Há seguro de vida? Como funciona o financiamento da casa? Existe investimento? Quanto custa manter a família por mês? Quais despesas são essenciais? Conhecer essas informações antes de uma emergência é uma forma de proteção.

Não dá para esquecer de uma situação mais grave que, infelizmente, existe: o chamado abuso econômico, quando o dinheiro é utilizado para controlar ou limitar a autonomia de uma pessoa dentro de uma relação. Pesquisas mostram que programas de educação financeira podem contribuir para ampliar o conhecimento e o bem-estar financeiro de mulheres que passaram por situações de violência econômica, embora a responsabilidade pelo abuso nunca deva ser colocada sobre a vítima.

Você não precisa virar especialista em investimentos, nem entender de Bolsa, criptomoedas, fundos ou termos complicados. Para começar, pode simplesmente responder: Quanto entra por mês na nossa casa? Quanto custa manter a família? Quais são as nossas dívidas? Temos uma reserva para emergências? Onde estão os documentos e contratos importantes? Quais seguros temos? Como estamos pensando na aposentadoria? Quanto estamos conseguindo guardar para os objetivos dos filhos — se esse for um objetivo da família? Eu saberia assumir as finanças da casa se precisasse?

E não tem problema se você responder “não sei”. A questão é aproveitar a oportunidade para buscar informações e aprender.

As crianças também aprendem

Há ainda um outro motivo para as mulheres se aproximarem das finanças: as crianças. Elas aprendem sobre dinheiro muito antes de receberem sua primeira mesada, ao observar os adultos decidindo o que comprar, falando sobre preços, esperando para adquirir alguma coisa, pagando contas ou discutindo sobre dinheiro.

A educação financeira dos filhos começa também pela maneira como a família trata o tema. É claro que você não precisa falar de investimentos com uma criança pequena. Mas é possível ensinar que o dinheiro é limitado, que escolhas têm consequências, que algumas coisas precisam ser planejadas e que querer algo não significa necessariamente comprar imediatamente.

A mãe que participa das decisões financeiras da família também transmite uma mensagem importante: dinheiro é um assunto que mulheres podem — e devem — entender.

E se você está pensando que entender de educação financeira vai apenas te dar mais “um pratinho para equilibrar”, na sua já imensa lista de tarefas, mantenha a calma e respiro. Isso não quer dizer que você deva carregar sozinha a responsabilidade pelo dinheiro da casa. Mas você pode e deve ter acesso às informações e participar das decisões que afetam sua vida e a de seus filhos.

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