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A mãe que dá conta de tudo também pode estar pedindo ajuda
Existe uma cena que se tornou quase um retrato da maternidade nas redes sociais. A mãe está cansada, tentando resolver várias coisas ao mesmo tempo, a criança chama, o celular toca, alguma tarefa ficou para trás e, no meio de tudo isso, aparece um meme dizendo que ser mãe é viver no limite. Ela compartilha, marca outra mãe, ri da própria situação e segue o dia.
Eu entendo por que esses conteúdos fazem tanto sucesso. O humor também pode ser uma forma de reconhecimento. Quando uma mulher encontra outra pessoa descrevendo exatamente aquilo que ela está vivendo, existe uma sensação de alívio: “não sou só eu”. Por alguns minutos, aquilo que pesa parece mais leve. O problema é quando a brincadeira começa a esconder uma realidade que precisa ser olhada com mais cuidado. Existe uma diferença entre rir de uma fase cansativa e acreditar que viver permanentemente exausta faz parte do que significa ser uma boa mãe.
No consultório, escuto muitas mulheres que chegam justamente nesse ponto. Elas amam os filhos, desejam estar presentes, reconhecem a importância da maternidade em suas vidas, mas estão cansadas de uma maneira que já não se resolve com uma noite de sono ou um fim de semana de descanso. Muitas vezes, estão há tanto tempo funcionando no limite que passaram a considerar aquele estado como normal. Ou pior, se culpam por se sentirem mal por estarem cansadas. Sim, é um paradoxo que chega a causar dor física a essas mulheres.
Quando até o cansaço vira motivo de culpa
É por isso que uma das coisas que mais me chama atenção é a culpa que pode aparecer quando a mulher percebe que não está reagindo à maternidade como imagina que deveria. Imagine a seguinte cena: ela vê um vídeo sobre a rotina caótica de uma mãe, percebe que outras mulheres estão rindo e não consegue achar graça. Em vez de simplesmente reconhecer que está cansada, começa a se perguntar se há alguma coisa errada com ela. Talvez esteja mais impaciente do que gostaria, talvez não tenha disposição para brincar depois de um dia inteiro de trabalho, talvez queira ficar alguns minutos sozinha antes de atender mais uma demanda.
É muito fácil interpretar tudo isso como falta de paciência, ingratidão ou até falta de amor pelos filhos. Mas a exaustão altera a maneira como lidamos com as situações cotidianas. Uma pessoa que passa muito tempo sem descanso tende a ter menos recursos emocionais para lidar com frustrações, conflitos e imprevistos. Por isso, eu gostaria de fazer uma distinção importante: uma mãe que não consegue rir de um meme sobre exaustão não necessariamente é uma mãe que não gosta da maternidade. Pode ser simplesmente uma mulher tão cansada que aquilo deixou de ser engraçado há algum tempo.
Existe um trabalho que ninguém vê
Também precisamos falar sobre o que significa, na prática, cuidar de uma família. Há o trabalho visível, como preparar uma refeição, dar banho, levar a criança à escola ou acompanhar uma consulta. Mas existe outro trabalho acontecendo o tempo inteiro, muitas vezes dentro da cabeça de uma única pessoa. É lembrar que o material escolar está acabando, perceber que a criança está diferente, organizar a agenda da semana, pensar no que será feito durante as férias, acompanhar as atividades da escola, marcar o pediatra, lembrar do aniversário do colega, decidir o que precisa ser comprado e antecipar aquilo que ainda nem aconteceu. É uma carga que não aparece quando olhamos apenas para o número de tarefas realizadas.
Os dados do IBGE ajudam a dimensionar uma parte dessa desigualdade. Em 2022, as mulheres brasileiras dedicaram, em média, 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Entre os homens, foram 11,7 horas. São quase dez horas de diferença por semana. A questão não é apenas quem executa determinada tarefa. É também quem permanece responsável por lembrar que ela precisa ser feita.
Quando uma mãe precisa dizer ao parceiro que é necessário levar o filho ao médico, comprar determinado item ou conversar com a escola, ela continua carregando uma parte importante da responsabilidade, mesmo que outra pessoa execute a tarefa. Dividir o cuidado exige mais do que ajudar, exige compartilhar a responsabilidade por ele.
A rede de apoio que mudou
Há também uma transformação importante na maneira como as famílias estão organizadas. Muitas famílias hoje são menores. Os filhos chegam mais tarde, os parentes podem morar em outras cidades e cada adulto tem sua própria rotina, trabalho e responsabilidades. Isso não significa que avós ou outros familiares tenham qualquer obrigação de assumir o cuidado das crianças. Significa apenas que aquela rede familiar próxima e disponível, que esteve presente na experiência de muitas gerações, pode não existir da mesma maneira para as famílias atuais.
Quando essa rede não está disponível, é preciso construir outras formas de apoio. Pode ser a divisão mais equilibrada das responsabilidades dentro de casa, a ajuda de amigos, vizinhos, escola, cuidadores ou profissionais. O problema é que nem todas as famílias têm condições financeiras para transformar necessidade em serviço. Para algumas mulheres, contratar alguém para ficar algumas horas com os filhos é uma possibilidade. Para outras, simplesmente não é.
E quando o apoio não pode ser comprado, muitas vezes ele acaba sendo substituído pela disponibilidade da própria mãe. É ela quem fica. É ela quem reorganiza a agenda. É ela quem falta ao trabalho. É ela quem dorme menos. É ela quem tenta encaixar tudo. Por isso, quando falamos em saúde mental materna, também precisamos falar sobre condições concretas de vida. Não podemos transformar uma questão que envolve divisão de responsabilidades, dinheiro, tempo e estrutura familiar em um problema exclusivamente individual.
Nem todo cansaço é doença, mas todo sofrimento merece ser escutado
É importante também não patologizar a maternidade. Ter períodos de cansaço, irritação ou sobrecarga não significa, por si só, que uma mulher tenha um transtorno mental. O que merece atenção é quando esse estado se prolonga e começa a interferir de maneira importante no sono, no humor, nos relacionamentos, na capacidade de trabalhar, na disposição para atividades que antes faziam sentido ou na percepção que a mulher tem de si mesma.
Durante a gestação e o período após o nascimento do bebê, essa atenção é especialmente importante. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 10% das gestantes e 13% das mulheres que acabaram de dar à luz apresentam algum transtorno mental, principalmente depressão. Esses números não significam que toda mulher cansada esteja deprimida ou ansiosa. Significam que sofrimento emocional materno existe, é frequente e precisa ser levado a sério.
Na prática clínica, muitas mulheres chegam ao consultório tentando descobrir como podem se organizar melhor para continuar fazendo tudo o que já fazem. Às vezes, a pergunta mais importante vem antes dessa: será que elas realmente precisam aprender a suportar mais, ou precisam encontrar uma maneira de carregar menos?
A mãe também precisa caber na própria vida
Existe uma cobrança para que a mulher consiga cuidar de todos e, ao mesmo tempo, encontre um espaço para cuidar de si. O problema é que até o autocuidado pode virar mais uma obrigação. A recomendação para fazer exercício, meditar, dormir melhor, encontrar amigas, ler, descansar e reservar um tempo para si pode ser bem-intencionada, mas perde o sentido quando essa mulher já está tentando descobrir de onde tirar mais algumas horas do dia.
Talvez, para algumas mães, o primeiro movimento de cuidado não seja acrescentar uma atividade à rotina. Talvez seja reconhecer que alguma coisa precisa ser dividida. Pode ser conversar com o parceiro sobre responsabilidades que precisam deixar de depender exclusivamente dela. Pode ser aceitar ajuda de alguém próximo. Pode ser admitir que determinada fase está difícil. Pode ser procurar um profissional quando perceber que o sofrimento está ultrapassando aquilo que consegue administrar sozinha.
Pedir ajuda não deveria ser o último recurso de uma mulher que já chegou ao limite. Deveria ser uma possibilidade legítima antes que ela chegasse até lá. A maternidade não precisa ser romantizada para ser valorizada. E o amor pelos filhos não deveria ser medido pela quantidade de cansaço que uma mulher consegue suportar. Talvez seja justamente por amar tanto que ela precise reconhecer os próprios limites.
Se você é a mãe que está dando conta de tudo, mas sente que está cansada de um jeito que já não passa, talvez não exista nada de errado com você por não achar graça daquele meme que todo mundo está compartilhando. Talvez seu corpo e sua mente estejam apenas tentando dizer que a conta ficou pesada demais. E, como psiquiatra, eu gostaria que essa mulher soubesse que ela não precisa esperar adoecer para levar esse pedido a sério. Ela pode amar profundamente os filhos e estar exausta. Pode ser feliz com a família e precisar de ajuda. Pode ser uma mãe presente e, ainda assim, desejar que alguém cuide dela por algumas horas. Isso não diminui a capacidade de cuidar, muito pelo contrário, isso também é cuidado.
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