Chuvas prolongadas podem piorar a rinite e os problemas respiratórios das crianças

Excesso de umidade dentro de casa favorece mofo e ácaros. Especialistas explicam o que fazer para proteger a saúde dos pequenos

Se você mora em São Paulo ou em outras áreas próximas, no Sudeste brasileiro, pode ser que mal se lembre como era um dia de sol. É que as últimas semanas foram castigadas por uma chuva que parece não ter fim. Além das dificuldades práticas, como sair na rua, trânsito e as roupas que não secam, a alta umidade também pode prejudicar a saúde respiratória das crianças. As superfícies demoram mais para secar e as portas e janelas costumam ficar fechadas por mais tempo, uma combinação perfeita para mofo e ácaros.

Para as crianças que já têm rinite ou asma, o período merece atenção especial. Espirros, coriza, nariz entupido e tosse podem aparecer ou se intensificar quando há maior exposição a esses agentes.

“A umidade favorece a proliferação de fungos, responsáveis pelo mofo, e a proliferação de ácaros. Essas partículas ficam suspensas no ar e, quando inaladas, podem desencadear a inflamação das vias respiratórias, causando sintomas alérgicos como espirros, coriza, obstrução nasal e tosse, além de poder agravar a asma”, explica a otorrinolaringologista Roberta Pilla, membro da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF).

Embora seja comum pensar que o maior problema dos períodos de chuva seja a água que entra pela janela ou a roupa que não seca, pouca gente se lembra de que a umidade pode permanecer em locais que nem sempre são percebidos no dia a dia.

O mofo, por exemplo, não precisa estar em uma grande mancha escura na parede para merecer atenção. “O cheiro pode indicar excesso de umidade e crescimento de fungos em locais escondidos, como atrás de móveis, dentro de armários, forros, paredes ou aparelhos de ar-condicionado. Uma pista importante é perceber se os sintomas pioram em determinado cômodo e melhoram quando a pessoa sai do ambiente”, pontua Roberta.

Observe especialmente o quarto das crianças. Se seu filho acorda frequentemente espirrando, com o nariz entupido ou tossindo, por exemplo, pode ser interessante investigar as condições do ambiente em que ele dorme. “Nem toda reação ao ambiente significa rinite alérgica. Mas vários dias de umidade, pouca ventilação e superfícies que demoram para secar favorecem mofo e ácaros, fatores que podem piorar espirros, coceira, coriza e obstrução nasal”, destaca a otorrinolaringologista Maura Neves, doutora pela Universidade de São Paulo (USP).

Ácaros: perigo invisível

Os ácaros são organismos microscópicos que podem estar presentes em colchões, travesseiros, sofás, tapetes e outros tecidos. Eles encontram condições mais favoráveis para se multiplicar em ambientes úmidos.

Mesmo quando não há manchas nas paredes, a combinação de umidade e pouca ventilação proporcionada pela sequência de dias chuvosos também pode favorecer a presença de ácaros.

Isso não significa que toda criança que passa alguns dias em uma casa úmida terá uma crise de rinite. O impacto depende também da sensibilidade individual e da existência de condições respiratórias prévias.

O que fazer quando está chovendo por vários dias?

O principal é tentar não manter a casa completamente fechada para impedir a entrada da umidade. Sempre que as condições permitirem, é importante favorecer a circulação de ar e evitar que a umidade fique acumulada.

Algumas medidas podem ajudar:

  1. Procure a origem da umidade
    Infiltrações, vazamentos e goteiras precisam ser corrigidos. Apenas limpar a parede ou pintar por cima da mancha não resolve a causa do problema.
  2. Afaste os móveis das paredes
    Deixar algum espaço entre armários, camas e paredes mais frias pode melhorar a circulação de ar e dificultar o acúmulo de umidade em áreas pouco visíveis.
  3. Ventile banheiros e cozinha
    Esses ambientes produzem bastante vapor. Sempre que possível, mantenha a circulação de ar depois do banho e durante ou após o preparo das refeições.
  4. Fique de olho nos quartos
    Colchões, travesseiros, cortinas, tapetes e bichos de pelúcia podem acumular agentes que desencadeiam alergias. A limpeza regular e a redução de objetos que acumulam poeira ajudam no controle do ambiente.
  5. Controle a umidade
    Desumidificadores podem ser úteis em ambientes muito úmidos. O ar-condicionado também pode contribuir para o controle da umidade, desde que seus filtros estejam limpos e o aparelho seja higienizado adequadamente.

O que fazer com o mofo

Se houver mofo, o mais importante é resolver a fonte da umidade. Limpar a superfície sem corrigir uma infiltração, por exemplo, não adianta, porque a tendência é o que problema volte.

Também é importante ter cuidado com produtos de limpeza. Misturar substâncias diferentes pode produzir gases irritantes e perigosos. Aromatizadores também não resolvem o problema: apenas mascaram o cheiro.

Outro cuidado é não recorrer automaticamente a um umidificador porque o clima está frio ou porque a criança está com o nariz entupido. Em uma casa que já está úmida, aumentar ainda mais a umidade pode favorecer justamente os agentes que pioram os sintomas.

Quando procurar o médico?

É importante procurar avaliação médica quando os sintomas são persistentes, atrapalham o sono ou as atividades da criança, interferem na qualidade de vida ou levam à necessidade frequente de medicamentos. A atenção deve ser ainda maior para crianças com asma. A exposição contínua a fatores desencadeantes pode dificultar o controle da doença.

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