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Admiráveis mães imperfeitas
Francisco tinha uns 4 anos. Cheguei do trabalho mais tarde e deparei com o bilhete da professora: “Amanhã é dia de colocar o coelhinho na toca. Traga seu coelhinho de pelúcia.” Meia-noite, Francisco dormindo. Na cômoda ao lado, vários bichos felpudos: nenhum deles era um coelho. Fui dormir apreensiva: de que cartola eu tiraria esse coelho? Dia claro, voei para o quarto dele. Foi então que reparei que eram compridas as orelhas daquele cachorrinho branco bem peludo. Pronto, decidi. Naquele dia, ele seria um coelho. “Toma, filho. Leva seu coelhinho para colocar na toca lá da escola.” Ele agarrou o bicho, me deu um beijo e correu para pegar o escolar.
Mães sempre dão um jeito. Mas nem por isso precisam dar conta de tudo sozinhas.
Eu não sei quanto a você, mas eu preferi ter ajuda em casa quando o Fran nasceu. Pude contratar uma enfermeira experiente para os primeiros meses. Ela me acordava na hora das mamadas, colocava Francisco no meu colo, punha para arrotar e depois para dormir. Para uma mãe sozinha de primeira viagem, contar com alguém dentro de casa para dar segurança (e afeto) não tinha preço. E assim o nosso início foi leve, sem maiores tensões e com tempo para me recuperar do parto (normal, com anestesia). Retornei da licença-maternidade disposta e, para ser sincera, feliz por voltar a trabalhar. Ter meu próprio tempo sempre foi importante.
Não inflo o peito para dizer que vi o Francisco dar seus primeiros passos — eu estava no trabalho quando isso aconteceu. Vi os passos seguintes, que para os meus olhos foram os primeiros, e me alegro com todos eles. Sou a mãe possível: a melhor mãe que posso ser. Nem sempre ajudo no para casa, porque mal dou conta do meu. Por diversas vezes liguei a TV no Cartoon para que ele me desse mais meia hora de sono. A avó já me representou em reuniões da escola quando eu tinha outra no mesmo horário. E, confesso, prefiro festas infantis para as quais só as crianças são convidadas.
Para mim, maternidade não é um posto heroico de quem cultiva o sacrifício como sinônimo de felicidade. Tenho uma concunhada que cria três filhos com a maior naturalidade, sem empregada e sem babá, morando longe da família. Tem toda a minha admiração. Mas cada um conhece seus limites. Respeito todas as escolhas, mas o tom de alguns discursos me leva e enxergar, nas entrelinhas, uma cartilha rezando autossuficiência.
Mães precisam de ajuda. E talvez essa seja a parte mais divertida. Ter um filho é passar a integrar uma irmandade em que sempre haverá uma mão estendida na hora do aperto. É disso que precisamos.] De amigas que nos digam “Não é um mar de rosas, mas vale a pena”. E não seremos mães piores por admiti-lo — pelo contrário, é educativo mostrar aos filhos a nossa humanidade.
Meses atrás, Francisco foi brincar na casa do amigo e voltou com as unhas cortadas. Das mãos e dos pés. Pensei duas vezes antes de me sentir menor como mãe. Preferi ser grata. Quero mais é que as mães de seus colegas o tratem como filho. Você não?

Cris Guerra é publicitária, escritora e palestrante. Fala sobre moda e comportamento em uma coluna diária na rádio Band News FM e a respeito de muitos outros assuntos em seu site www.crisguerra.com.br. Na Canguru, escreve sobre a arte da maternidade.
crisguerra@cangurubh.com.br
Canguru News
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