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Você lê para o seu filho? Mais da metade das famílias brasileiras não lê para as crianças, mostra estudo da OCDE
Mais da metade das famílias brasileiras não tem o hábito de ler para as crianças pequenas. O dado faz parte do International Early Learning and Child Well-being Study (IELS), estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado no Brasil pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.
A pesquisa avaliou crianças de 5 anos em nove países e, no Brasil, ouviu famílias e escolas nos estados de São Paulo, Ceará e Pará. Entre os resultados que mais chamaram atenção está a relação entre o ambiente familiar e o desenvolvimento infantil: crianças que convivem mais com livros, histórias e interações com adultos apresentam melhores índices de aprendizagem e bem-estar.
Segundo o levantamento, 54% das famílias brasileiras afirmaram que raramente ou nunca leem para as crianças. O percentual é um dos mais altos entre os países participantes.
Ao mesmo tempo, o estudo identificou um uso elevado de telas na infância. Mais da metade das crianças brasileiras (50,4%) de 5 anos utiliza celulares, tablets ou outros dispositivos eletrônicos todos os dias. O número fica acima da média internacional, de 46%.
Os pesquisadores observaram que, no Brasil, crianças que usam dispositivos diariamente tiveram desempenho inferior em áreas importantes da aprendizagem. A diferença foi de 11 pontos em compreensão de números e medidas e de 10 pontos em vocabulário em comparação às crianças que não usam telas todos os dias.
Embora o estudo não estabeleça relação direta de causa e efeito, os pesquisadores apontam que o tempo dedicado às telas pode substituir experiências fundamentais para o desenvolvimento na primeira infância, como brincar livremente, conversar, ouvir histórias e interagir com adultos.
“O estudo reforça que as experiências vividas nos primeiros anos têm impacto importante sobre a aprendizagem e o bem-estar das crianças”, destaca Marina Chicaro Fragata, diretora de políticas públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, na apresentação dos resultados brasileiros.
Outro dado que chamou atenção foi o desempenho geral das crianças brasileiras em raciocínio matemático: o país ficou 44 pontos abaixo da média dos demais participantes da pesquisa.
Desigualdades já na primeira infância
O relatório também revelou diferenças importantes relacionadas à renda e à escolaridade dos pais. Crianças de famílias com maior nível socioeconômico tiveram melhores resultados em vocabulário, compreensão verbal e matemática. Além disso, o acesso a livros e materiais educativos ainda é desigual. Enquanto algumas crianças convivem com ambientes ricos em estímulos, outras têm pouco contato com leitura, brincadeiras mediadas ou conversas frequentes com adultos. Apesar dos desafios, o estudo mostrou que a maioria das crianças brasileiras relata sentir-se feliz e segura, especialmente dentro de casa e nas relações familiares.
Leitura, brincadeira e conversa seguem centrais
Para especialistas em primeira infância, os resultados reforçam evidências já consolidadas pela ciência do desenvolvimento infantil: antes da alfabetização formal, as crianças aprendem principalmente por meio das relações, das brincadeiras e da linguagem compartilhada no cotidiano.
Ler histórias, cantar, conversar durante as tarefas do dia a dia e brincar sem telas são experiências que ajudam a ampliar vocabulário, atenção, imaginação e habilidades socioemocionais. “A leitura na primeira infância não é apenas sobre aprender palavras. É sobre vínculo, interação e construção de repertório emocional e cognitivo”, afirma Marina.
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