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Pílula anticoncepcional pode aumentar a vontade de comer?
Se você usa pílula anticoncepcional e já percebeu que, em alguns períodos, parece ter mais vontade de comer, especialmente doces e carboidratos, um novo estudo pode trazer uma luz para essa percepção.
A pesquisa, publicada na revista JAMA Network Open, encontrou uma associação entre o uso de pílulas anticoncepcionais combinadas e uma maior frequência de comer emocional, comportamento caracterizado pela tendência de comer em resposta a emoções negativas. Mas atenção: o estudo não prova que o anticoncepcional cause compulsão alimentar.
A investigação acompanhou 422 mulheres, com idade média de 22 anos, que já utilizavam pílulas combinadas monofásicas — aquelas que contêm estrogênio e progestágeno e mantêm a mesma dose hormonal nos comprimidos ativos da cartela. As participantes registraram diariamente informações durante 49 dias, o equivalente a dois ciclos do anticoncepcional.
A comparação foi feita com as próprias participantes: os pesquisadores analisaram os dias em que elas tomavam os comprimidos ativos, que contêm hormônios, e os dias de uso das pílulas inativas, sem hormônios. Nos dois ciclos avaliados, o comer emocional foi significativamente mais frequente nos dias de uso dos comprimidos hormonais. O resultado seguiu mesmo quando os pesquisadores levaram em consideração alterações no estado emocional das participantes.
Isso significa que algumas mulheres podem ter maior tendência a procurar comida como resposta a emoções durante determinados períodos do uso da pílula. Mas é preciso cuidado para não transformar esse achado em uma conclusão maior do que o estudo permite.
Comer emocional é diferente de compulsão alimentar. Enquanto o primeiro é quando a pessoa tende a comer em resposta a sentimentos, como tristeza, ansiedade, estresse ou frustração, mesmo que não esteja necessariamente com fome, o segundo envolve episódios em que há consumo de uma quantidade de comida maior do que o habitual acompanhado de sensação de perda de controle. É uma condição clínica que precisa ser diferenciada de simplesmente sentir mais fome ou vontade de comer.
O estudo também analisou separadamente 51 participantes que apresentavam episódios de compulsão alimentar clinicamente definidos e encontrou um padrão semelhante. Ainda assim, os pesquisadores reforçam que isso não permite concluir que a pílula aumente o risco de desenvolver compulsão alimentar.
“A associação entre o aumento dos níveis hormonais e a fome já era conhecida, principalmente na fase lútea, quando há aumento da progesterona, mas sem muitas conclusões sobre causa e efeito”, explica Eduardo Zlotnik, ginecologista e obstetra do Einstein Hospital Israelita. Segundo ele, o estudo sugere que os hormônios presentes nas pílulas combinadas podem produzir um efeito semelhante.
Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é de que os hormônios podem mexer com a fome. Os hormônios ovarianos já são conhecidos por influenciar o comportamento alimentar ao longo do ciclo menstrual. Depois da ovulação, por exemplo, quando os níveis de estrogênio e progesterona estão mais elevados, pode haver aumento da ingestão de alimentos, do comer emocional e de episódios de compulsão.
No caso dos anticoncepcionais combinados, a mulher recebe versões sintéticas de estrogênio e progestágeno e uma das possibilidades é que esses hormônios também atuem em regiões do cérebro relacionadas à saciedade, ao apetite e aos mecanismos de recompensa.
“Em geral, o estrogênio reduz a ingestão alimentar, enquanto a progesterona pode estimular o apetite e o desejo por doces e carboidratos”, explica Zlotnik. Ele ressalta, porém, que essa é uma explicação biologicamente possível e que o estudo não consegue dizer qual hormônio seria responsável pelo resultado.
Mas isso não é uma regra, ou seja, não acontece com todas as mulheres que tomam pílula. Os resultados representam uma média das participantes e não podem ser automaticamente aplicados a todas as mulheres que usam anticoncepcionais. Características individuais e genéticas podem fazer com que algumas mulheres sejam mais sensíveis aos efeitos dos hormônios. Na prática clínica, há relatos de aumento do apetite e maior vontade de comer doces entre algumas usuárias, embora isso não esteja entre as principais razões para troca ou abandono do método.
Além disso, a pesquisa avaliou apenas um tipo específico de pílula: as combinadas monofásicas. Por isso, não é possível dizer que o mesmo resultado aconteça com todos os anticoncepcionais hormonais. Outros métodos, como pílulas com diferentes esquemas hormonais e o DIU hormonal, apresentam características distintas e precisam ser estudados separadamente.
“Comecei a tomar anticoncepcional e estou comendo mais. E agora?”
Se você percebeu uma mudança importante no apetite, no comer emocional ou episódios de perda de controle depois de começar a usar um anticoncepcional, vale conversar com o ginecologista. A consulta pode ajudar a avaliar se existe uma relação temporal entre o início do método e as mudanças percebidas e discutir, se necessário, outras possibilidades de contracepção.
O mais importante é não interromper a pílula por conta própria, porque isso pode aumentar o risco de uma gravidez não planejada.
Ah, Zlotnik alerta que mulheres que já têm histórico de transtornos alimentares também merecem uma avaliação individualizada na escolha do método contraceptivo.
Então, tomar pílula engorda? Não é tão simples e o estudo não permite responder simplesmente que sim. O que os pesquisadores encontraram foi uma associação entre o uso dos comprimidos hormonais de determinadas pílulas combinadas e uma maior frequência de comer emocional. Isso é diferente de demonstrar que o anticoncepcional provoca ganho de peso ou compulsão alimentar.
A pesquisa acrescenta uma possível peça a uma discussão que já existe sobre a relação entre hormônios e comportamento alimentar, mas ainda são necessários outros estudos para entender melhor quem pode ser mais suscetível, quais hormônios estão envolvidos e se os resultados se repetem com outros tipos de anticoncepcionais.
Fonte: Agência Einstein
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